- Por Doca Costa
“Ele caminha. Não há glória em seus passos, não há aplauso, apenas o som seco da sola contra o chão, como quem insiste em existir.
A tristeza o veste como um manto pesado, um tecido áspero que não se rasga. Carrega esquecimentos como pedras no bolso: nomes que se apagaram, rostos dissolvidos na névoa da memória, promessas que o tempo devorou sem piedade.
As perdas são muralhas erguidas ao redor, altas, frias, impenetráveis. Perdeu pessoas, perdeu lugares, perdeu certezas que julgava eternas. E ainda assim, seus pés não param. Há algo nele que resiste, mesmo quando tudo parece ruir.
As incertezas são como neblina espessa, cortando-lhe a visão, fazendo-o duvidar do próximo passo. Mas ele avança, não porque sabe o destino, mas porque parar seria entregar-se ao esquecimento.
Ele não cessa. Segue com cicatrizes que ninguém vê, com olhos que aprenderam a enxergar no escuro, com mãos que ainda procuram o calor de outras mãos.
Segue porque cada passo é um ato de coragem. Segue porque mesmo na dor, há um resto de vida que insiste. Segue porque o silêncio não pode ser sua última palavra.
E eu, que o observo, vejo nele não um herói, mas um sobrevivente. Um homem que carrega o peso da perda, e ainda assim se recusa a cair.
Ele não cessa. E nesse movimento, há uma lição escondida: não é a vitória que o sustenta, nem a esperança clara, mas o gesto simples de continuar, mesmo quando tudo pede desistência”.






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