- Por Álvaro Lume *
Para que a sua primeira segunda-feira de 2026 fique mais leve, deixamos aqui o poema “Antes que me apague, escrevo” de Álvaro Lume, Aproveite, leia e viaje com ele:
“Antes que o tempo me desfaça, antes que o nome se dissolva na boca dos outros, antes que o que vivi se torne ruído, eu escrevo.
Escrevo porque não vou lembrar. Porque já esqueço. Porque o que foi aventura, agora é névoa. Porque os amores que me incendiaram já não têm rosto — mas ainda têm cheiro.
Escrevo porque os desencantos me ensinaram a não confiar na memória. Ela é bela, mas trai. Ela é fiel, mas cansa. Ela é minha, mas não me reconhece.
Escrevo porque perdi. Porque ganhei. Porque fui inteiro e partido. Porque fui nome e silêncio. Porque fui corpo e ausência.
Escrevo porque sei o que vem: o apagamento, a curva, o esquecimento que não pede licença.
E por saber, por saber com a lucidez dos que já viram o abismo, eu quero ficar.
Ficar no papel, na voz, na dobra do tempo que não se dobra.
Ficar como quem resiste. Ficar como quem grita. Ficar como quem ama — mesmo sem lembrar a quem.
Antes que me apague, eu escrevo. E ao escrever, sou”.
- Álvaro de Lume nasceu entre sombras e clarões, num tempo em que a palavra ainda era abrigo. Cresceu com a sensação de que tudo passa depressa demais — por isso escreveu cedo, antes que o mundo o esquecesse. Poeta de memória inquieta, vive entre o que recorda e o que teme perder. Carrega no corpo as marcas do tempo, e na voz, a urgência de quem sabe que cada verso é uma forma de permanecer. Escreve sobre amores que ardem, perdas que iluminam e silêncios que queimam devagar. De Lume não é apelido — é destino.






Deixe um comentário