Por Salvador Neto – Especial para o Palavra Livre
A travessia entre culturas, saberes e práticas de saúde ganhou um novo capítulo em 2026. A Medicina Tradicional Chinesa (MTC), com seus mais de 2.500 anos de história, tornou-se uma ponte concreta entre Brasil e China, conectando profissionais, pacientes e instituições em um fluxo crescente de intercâmbio científico, formação e cuidado humano. A reportagem da Xinhua revela um movimento que vai muito além de cursos e visitas técnicas: trata-se de uma diplomacia da saúde que se aprofunda ano após ano.
Da dor ao conhecimento: a jornada de Isabella
A brasileira Isabella Moreira Fontenele Gusmão, nutricionista com 30 anos de experiência, descobriu na acupuntura um alívio durante a gravidez. O que começou como tratamento tornou-se vocação. Em março de 2026, ela atravessou o planeta para estudar MTC na Universidade de Medicina Tradicional Chinesa de Gansu, uma das regiões mais simbólicas para essa tradição milenar.
Durante uma semana, Isabella e outros 13 profissionais brasileiros mergulharam em aulas teóricas, práticas clínicas e vivências culturais. No departamento de pediatria, ela observou técnicas de massagem que fortalecem a digestão infantil — e saiu encantada. “Apaixonei-me pela China”, disse, emocionada.
Gansu: berço, laboratório e vitrine da MTC
A província de Gansu, no noroeste da China, é reconhecida como um dos pilares históricos da MTC. Além de abrigar vastos recursos naturais usados na produção de fitoterápicos, mantém uma herança cultural que sustenta a prática contemporânea.
Desde 2019, o Hospital Afiliado da Universidade de MTC de Gansu e a empresa brasileira Taimin criaram o Centro de Medicina Tradicional Chinesa China–Brasil, que já:
- Capacitou mais de 50 profissionais brasileiros em três edições da Semana da Cultura da MTC.
- Enviou equipes chinesas ao Brasil para atender mais de 4 mil pacientes.
- Realizou 40 treinamentos presenciais no país.
- Formou 1.200 profissionais brasileiros em técnicas de MTC.
Esses números mostram que a cooperação não é episódica: é estruturada, contínua e estratégica.
Diplomacia da saúde: uma via de mão dupla
Wu Bing, secretário do Comitê do Partido Comunista da China no hospital, destaca que a MTC já faz parte da rotina de muitos brasileiros — da acupuntura à massagem terapêutica. Para ele, o curso de aperfeiçoamento é um elo que fortalece a cooperação em formação, pesquisa clínica e práticas tradicionais.
Do lado brasileiro, o entusiasmo é evidente. Luiz Gustavo Mesquita Lima, diretor da Escola Nacional de Acupuntura, liderou o grupo. Ele estuda MTC há mais de uma década e afirma que cada retorno à China aprofunda sua compreensão. “Precisamos aprimorar a MTC no Brasil para tratar mais pacientes”, disse.
Por que a MTC cresce no Brasil?
A expansão da MTC no Brasil não é casual. Ela se apoia em três pilares:
- Demanda crescente por terapias integrativas O SUS reconhece a acupuntura e outras práticas integrativas desde 2006, ampliando o acesso e legitimando sua aplicação clínica.
- Formação qualificada A presença de instituições chinesas no Brasil e a ida de profissionais brasileiros à China criam um ciclo virtuoso de capacitação.
- Resultados percebidos pelos pacientes Dor crônica, ansiedade, distúrbios digestivos e reabilitação física são áreas em que a MTC tem mostrado eficácia complementar.
O que este intercâmbio representa para o futuro
A cooperação China–Brasil em MTC aponta para um horizonte de:
- Pesquisa conjunta sobre fitoterápicos e técnicas terapêuticas.
- Protocolos clínicos integrados, unindo MTC e medicina ocidental.
- Formação de especialistas binacionais, com certificações reconhecidas.
- Ampliação do acesso a terapias integrativas no sistema público brasileiro.
Mais do que uma troca técnica, trata-se de um diálogo entre civilizações — uma ponte de saúde, cultura e humanidade.
Por que esta história importa ao Palavra Livre
Como veículo comprometido com a circulação de conhecimento e com a valorização de experiências humanas transformadoras, o Palavra Livre registra este movimento como parte de um fenômeno maior: a busca global por práticas de saúde integrativas, acessíveis e culturalmente diversas.
A MTC, ao unir Brasil e China, mostra que o cuidado é uma linguagem universal — e que a saúde pode ser também uma forma de diplomacia, solidariedade e construção de futuro.






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