Em carta aberta, 102 ex-representantes europeus afirmam que Israel conduz “limpeza étnica” nos territórios ocupados, pedem suspensão de acordos comerciais e fim do comércio de armas, e alertam que a omissão ocidental alimenta uma crise irreversível.
A pressão diplomática que rompe o silêncio europeu
A Europa vive um raro momento de ruptura diplomática. Uma coalizão de 102 ex-diplomatas franceses e britânicos decidiu tornar pública uma crítica contundente aos governos de seus próprios países, acusando-os de complacência diante da política israelense nos territórios palestinos ocupados. A carta, publicada pelo jornal Le Monde, é um documento de peso histórico: reúne ex-embaixadores nas Nações Unidas, ex-diretores do Oriente Médio e representantes que passaram décadas acompanhando a geopolítica da região.
O diagnóstico é direto: Israel conduz uma política que ameaça extinguir permanentemente a possibilidade de um Estado palestino, e França e Reino Unido não podem mais se limitar a declarações de preocupação. É hora de agir.
“Limpeza étnica” e erosão democrática
O texto não suaviza termos. Os diplomatas afirmam que demolições de casas palestinas, violência de colonos e conivência das forças israelenses equivalem a limpeza étnica. A carta também sustenta que “o mundo não vê mais Israel como uma democracia genuína”, ecoando avaliações de organismos internacionais e relatórios da ONU.
Nicholas Hopton, ex-embaixador britânico no Irã, Catar e Iêmen, reforça que a linguagem não é retórica diplomática: “As palavras não são nossas. São retiradas de órgãos jurídicos internacionais, da ONU, daqueles que observam com neutralidade e expertise”.
A guerra em Gaza como ponto de ruptura
O documento surge em meio à guerra genocida em Gaza, que já deixou mais de 72 mil palestinos mortos desde 2023, segundo autoridades locais. Mesmo após o cessar-fogo de 2025, ataques israelenses continuaram, resultando em mais de 1.200 mortes adicionais.
Para os signatários, o novo impulso de Israel para expandir assentamentos na Cisjordânia é o gatilho imediato. A criação de novos blocos de colonização tornaria “quase impossível” a formação de um Estado palestino viável.
Sanções, suspensão de acordos e fim do comércio de armas
A carta exige medidas concretas e coordenadas entre França e Reino Unido:
- Suspensão dos acordos comerciais UE-Israel e Reino Unido-Israel
- Interrupção imediata da transferência de armas e cooperação militar
- Proibição de comércio com assentamentos israelenses
- Banimento da compra de propriedades em território palestino ocupado
- Garantia de acesso humanitário a Gaza e proteção para jornalistas e diplomatas
Peter Millett, ex-embaixador britânico na Líbia, resume o espírito do documento: “O que pedimos é ação, não palavras”.
Responsabilidade histórica e o papel dos EUA
Os diplomatas também lembram que França e Reino Unido têm responsabilidade histórica sobre a região, por terem administrado mandatos após a Primeira Guerra Mundial que moldaram fronteiras e tensões atuais.
Mas o ponto decisivo, afirmam, está em Washington. “Os Estados Unidos têm a maior influência sobre o governo israelense”, diz Hopton. A continuidade da inação, alertam, “arma o futuro com tragédias”.
Crítica também à liderança palestina
O texto não poupa a Autoridade Palestina, descrita como “disfuncional e pouco representativa”. Os diplomatas defendem que eleições previstas para novembro sejam um momento de renovação e compromisso democrático.
Um apelo para evitar o colapso definitivo
A carta é, acima de tudo, um alerta: a janela para uma solução de dois Estados está se fechando rapidamente. Se França, Reino Unido e aliados não adotarem medidas firmes, a região pode entrar em um ciclo de violência irreversível.
O documento marca uma mudança no tom diplomático europeu — e coloca pressão direta sobre governos que, até agora, têm preferido a cautela à confrontação.






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