CNN , Natasha Chen

Dos 268 degraus do Grande Buda de Hong Kong às Dolomitas e às praias do Brasil, Fletcher e Lachie atravessaram dez países e descobriram que a acessibilidade também pode depender de quem temos ao lado
Quando Fletcher Crowley sofreu uma fratura na coluna num acidente de bicicleta, há três anos, os médicos diagnosticaram-lhe paraplegia e disseram-lhe que nunca mais voltaria a andar.
Mas, nos últimos meses, o australiano e o amigo Lachie Bennett chegaram ao topo de montanhas, atravessaram picos cobertos de neve e viveram aventuras repletas de adrenalina na Europa, Ásia, África e América do Sul.
Numa demonstração de como a amizade e uma mentalidade de “porque não?” podem abrir novas possibilidades, os dois têm encontrado formas de conhecer locais emblemáticos que, normalmente, são inacessíveis a quem usa cadeira de rodas. Crowley subiu às cavalitas os 268 degraus que levam ao Grande Buda de Hong Kong, apanhou boleia para subir pelas Dolomitas suíças cobertas de neve e percorreu a Riviera Francesa com a cadeira de rodas acoplada a uma bicicleta elétrica.
“O nosso plano era simplesmente mostrarmo-nos como somos, com a cadeira a acompanhar-nos”, explica Crowley à CNN, nos últimos dias da viagem na África do Sul, enquanto os dois atravessavam uma zona montanhosa de carro a caminho de uma experiência de parapente.
“A maior parte das coisas que fazemos não seria, de um modo geral, considerada ‘acessível’ – e nós temos levado esses limites mais longe. Algumas coisas têm de ser feitas de maneira um pouco diferente e exigem mais esforço da nossa parte, mas acabam por ser muito mais gratificantes.”
Em maio, familiares e amigos receberam os dois de regresso a casa, em Sydney, na Austrália, depois de uma viagem repleta de aventuras por dez países, que foram partilhando com a comunidade de quase 160.000 seguidores da sua conta de Instagram, “twomates1chair“.
Como começou a viagem à volta do mundo
Depois do acidente de bicicleta de montanha, em setembro de 2023, Crowley passou seis meses no hospital a recuperar e a cumprir um programa intensivo de reabilitação. “Estava a treinar um salto para conseguir fazer um duplo mortal para trás”, conta. “Fiz aquilo umas seis vezes e consegui aterrar, embora acabasse por cair de lado. Depois, à sétima tentativa, caí sobre o pescoço.”
Durante a reabilitação, Crowley reencontrou Bennett, um amigo dos tempos de escola que trabalhava num centro com alojamento e apoio para pessoas com lesões medulares, na zona das praias do norte de Sydney. Crowley ia lá fazer fisioterapia e a paixão de ambos pela aventura acabou por reforçar a amizade.
Até aí, cada um tinha feito as suas próprias viagens ao estrangeiro e os dois tinham viajado juntos apenas algumas vezes dentro da Austrália. No ano passado, Bennett percorreu sozinho os Estados Unidos e o México. Crowley, que depois do acidente começou a praticar esqui adaptado, passou o inverno a trabalhar na estância de Perisher, na Austrália, antes de partir para o Japão para esquiar.
Foi então que surgiu a ideia de fazerem a primeira grande viagem juntos: duas semanas na América do Sul.
Mas uma promoção da agência de viagens Flight Centre levou-os a comprar um bilhete com várias paragens, que lhes permitia visitar quatro continentes pelo mesmo preço: 2.800 dólares australianos (1.730 euros) por pessoa.
“Nem pensámos duas vezes”, conta Bennett. “A Europa e Hong Kong nem sequer estavam nos nossos planos, mas, de repente, íamos para lá.” Em vez de se limitarem a alojamentos e atividades acessíveis, os dois amigos deram prioridade às experiências que queriam viver, seguindo uma máxima: “Vamos encontrar uma forma de conseguir”, aponta Crowley.
Começaram por Hong Kong, onde Bennett levou Crowley às cavalitas até ao Grande Buda, uma enorme estátua de bronze rodeada de montanhas. Em tom de brincadeira, batizaram o desafio de “dois amigos, nenhuma cadeira e 12 lanços de escadas”.
Num vídeo publicado no Instagram, Bennett começa por alongar as pernas antes de carregar Crowley às costas – cerca de 77 quilos, a que se juntavam mais 14 quilos de equipamento fotográfico – durante os 30 minutos que demoraram a fazer o percurso, por um piso molhado e escorregadio.
“Nada é impossível”, diz Bennett no vídeo, momentos depois da proeza. Em Hong Kong, subiram também ao Victoria Peak, num percurso com cerca de 360 metros de desnível – quase o equivalente à altura do Empire State Building -, para apreciar a vista sobre a cidade.
“Uma pessoa de lá falou-nos deste trilho acessível e, de facto, era, porque estava pavimentado. Mas, bolas, aquilo era mesmo muito íngreme para subir a empurrar a cadeira”, conta Bennett à CNN. “Os braços do Fletch já não davam mais, eu tinha os gémeos a arder, mas foi incrível e valeu mesmo a pena.”
A força de Crowley na parte superior do corpo, a juventude e a experiência no skate ajudaram-no a sentir-se “natural e confortável” na cadeira de rodas, algo que, segundo afirma, pode fazer uma grande diferença na mobilidade de uma pessoa.
Os dois amigos reconhecem que uma viagem como a deles pode não ser possível para todas as pessoas que usam cadeira de rodas, já que depende de fatores como a condição física, a rede de apoio disponível e uma cadeira adequada às necessidades de cada pessoa.
Sol, neve e ovelhas pela Europa
Depois de cinco dias “intensos e cheios de boa disposição” em Hong Kong, Bennett e Crowley voaram para Itália, onde deram início à viagem de carro pela Europa. Aterraram em Milão precisamente quando começavam os Jogos Paralímpicos de Inverno de 2026 e chegaram às bancadas com Bennett a levar Crowley às cavalitas, para assistirem a uma prova de esqui sentado.
“Acabou por coincidir com a nossa viagem e é uma comunidade incrível”, aponta Crowley, que tinha treinado com a seleção australiana no ano anterior. De Milão, partiram numa viagem de carro que os levou por Pisa, Florença, Roma e Veneza, onde conheceram de gôndola a “cidade flutuante”.
Nas Dolomitas, um italiano convidou-os a dar uma volta na sua mota de neve. Os dois aceitaram de imediato, deixando para trás a cadeira de rodas de Crowley, enquanto Bennett o ajudava a deslocar-se pela neve, dispostos a seguir para onde quer que aquela aventura os levasse.
“Não fazíamos ideia de onde íamos parar”, conta Crowley. “Quando demos por isso, estávamos no alto das Dolomitas, com uma vista incrível sobre montanhas que se estendiam até onde a vista alcançava.”
A lesão na medula espinal deixou Crowley com uma paraplegia incompleta, o que significa que o cérebro ainda consegue enviar alguns sinais para a parte inferior do corpo. “Consigo andar 10 metros, mas depois fico completamente de rastos”, conta.
Em Sydney, Crowley leva uma vida independente e continua a dedicar-se ao desporto. Pratica esqui e skate adaptados, bicicleta de montanha adaptada e surf. “Consigo ter uma vida incrível e ser completamente independente, mas, para fazer as coisas que quero mesmo fazer, às vezes preciso da ajuda do Lachie ou de alguém que me dê uma mão”, conta.
Fazer amigos pelo caminho
Depois de atravessarem de carro a fronteira com a Suíça, Crowley e Bennett foram recebidos em casa por uma família da região, depois de o filho do casal, de 10 anos, ter visto nas redes sociais as aventuras dos dois em Hong Kong.
Rapidamente, os dois passaram a acompanhar a família nas idas à escola, a assistir a jogos de hóquei no gelo do bairro e a conversar à mesa durante refeições caseiras com os novos anfitriões suíços, que também os ajudaram a deslocar-se pela neve.
“Nunca imaginámos que dois jovens australianos como nós fossem convidados a ficar em casa de uma família suíça tão incrível – e depois aconteceu uma e outra vez”, diz Bennett.
“Claro que é preciso ter bom senso e ter cuidado, mas a generosidade de pessoas que nem sequer conhecíamos tem sido extraordinária.”
O convite seguinte levou-os de Biarritz, cidade francesa conhecida pelo surf, para o interior do país, até à quinta de ovelhas de Paddy, um compatriota que se tinha mudado para França em busca de uma nova vida. Ajudar a tratar das ovelhas acabou por ser “uma das paragens mais inesperadas e memoráveis” da viagem.
Crowley colocou uma roda dianteira todo-o-terreno na cadeira, para que Bennett conseguisse empurrá-la mais facilmente por cima da palha no celeiro.
“Passei grande parte do tempo parado porque, assim que me mexia, as ovelhas assustavam-se”, explica Crowley. “Há animais que, quando não estão habituados a uma cadeira de rodas, mal a veem fogem o mais depressa que conseguem.”
Ainda na Europa, os dois apanharam um voo para os Países Baixos para conhecer os famosos canais de Amesterdão.
Desta vez, alugaram uma das típicas bicicletas de Amesterdão com uma caixa de transporte à frente – uma “bakfiets”, como lhe chamam os locais. Bennett pedalava, enquanto Crowley seguia sentado na caixa de madeira entre o guiador e a roda da frente.
Depois de percorrerem o norte de Espanha com os pais de Crowley, os dois voltaram a seguir viagem sozinhos para terminar a passagem pela Europa na Riviera Francesa. Na elegante marginal de Nice, encontraram uma forma de andar mais depressa: Bennett seguia de bicicleta elétrica e Crowley, na cadeira de rodas, agarrava-se a ele e deixava-se levar. “O Fletch agarrava-se ao meu bolso e seguia colado a mim”, conta Bennett.
A escolha dos alojamentos também trouxe uma dose extra de aventura. Numa das noites, ficaram numa capela do século X com piscina, situada no alto de uma colina com uma escadaria de 1.000 degraus.
Para os ajudar a chegar lá, o proprietário da capela subiu a colina no seu Land Cruiser, enquanto Crowley, na cadeira de rodas, apanhava boleia agarrado à traseira do veículo. Já junto à escadaria, Bennett levou Crowley às cavalitas pelo longo e sinuoso percurso de degraus até à porta da capela. “Não era nada acessível, mas isso nunca nos iria impedir”, diz Crowley.
“Havia escadas por todo o lado, mas, entre o Lachie levar-me às cavalitas e eu subir alguns degraus sentado, lá conseguimos”, conta Crowley. Houve alguns momentos mais difíceis, sobretudo quando os dois estavam cansados e Bennett tinha de carregar com malas pesadas, sacos com material médico e a cadeira de rodas de Crowley – muitas vezes depois de já o ter levado às cavalitas.
“Vale sempre a pena”, garante Bennett, explicando que, quando estavam cansados, optavam simplesmente pelo caminho mais fácil. Os únicos momentos em que sentiram verdadeiramente alguma limitação foram à entrada de algumas lojas, onde havia degraus ou desníveis. Bennett entrava para comprar comida enquanto Crowley esperava cá fora.
“Isso irrita-me mais a mim do que ao Fletch, que tem uma enorme capacidade de adaptação. “Aprendi muito com esta forma de viajar”, conta Bennett.
E também descobriram algumas vantagens, desde os lugares de estacionamento acessíveis ao espaço de arrumação por baixo do assento de Crowley, que transformava a cadeira numa espécie de “bagageira disponível 24 horas por dia”.
Um contratempo na América do Sul
Nem as escadas foram um obstáculo para os dois amigos no Brasil, onde foram a festas em terraços de São Paulo e exploraram grutas em Belo Horizonte. Às cavalitas de Bennett, Crowley ia indicando o caminho por entre impressionantes formações rochosas, ambos de capacete.
Um dos maiores contratempos da viagem aconteceu quando se aventuraram por uma zona remota do interior do país. Seguiam com condutores em buggies todo-o-terreno por um caminho de terra quando o veículo em que Crowley viajava apanhou um desnível no caminho e capotou.
Os dois ficaram “presos no meio do mato brasileiro durante seis horas”, à espera que o veículo fosse retirado, sem rede de telemóvel, sem água e com a cadeira de rodas de Crowley a cerca de 100 quilómetros de distância, no alojamento.
“O buggy bateu com a roda traseira e deu duas voltas completas antes de embater naquela árvore”, conta Bennett. “Fiquei com o coração nas mãos, mas, felizmente, ninguém se magoou.”
A seguir, os dois enfrentaram uma viagem de carro de 18 horas, feita num único dia, para chegar à ilha de Florianópolis. Ali, entraram no espírito simples e descontraído dos hostels junto à praia, voltando a privilegiar a experiência em vez de se limitarem aos locais acessíveis.
Depois de terem enfrentado o labirinto de ruas estreitas e as intermináveis escadarias da Europa, atravessar a areia pareceu-lhes fácil quando decidiram ir dar um mergulho ou sair à procura de comida.
A última paragem de Crowley e Bennett foi a África do Sul, onde passaram cinco noites na Cidade do Cabo. Visitaram bairros periféricos conhecidos como townships, foram ver os pinguins de Boulders Beach, fizeram parapente e percorreram de carro a Garden Route.
Um dos pontos altos foi o mergulho em jaula com tubarões, em Gansbaai. Os dois seguiram de barco pelo Atlântico, vestiram fatos de mergulho – com Bennett a ajudar Crowley a vestir o seu – e entraram numa jaula que foi baixada para a água, enquanto os tubarões passavam junto deles.
Fizeram também o primeiro safari, na Reserva de Caça de Amakhala, onde procuraram avistar leões, leopardos, girafas e rinocerontes-negros e rinocerontes-brancos. Crowley conseguiu entrar sozinho no veículo do safari, uma das poucas situações nesta etapa da viagem em que encontrou condições adaptadas às suas necessidades. “Ouvir um leão a rugir pelo vale foi um momento incrível”, acrescenta.
Outro momento memorável foi a última vez que Bennett levou Crowley às cavalitas, até Cape Point, a impressionante ponta do continente africano, situada 200 metros acima do oceano, onde as ondas embatem com força.
Os dois amigos, que trabalham na área do apoio social, dizem que a viagem correu muito melhor do que esperavam, sem problemas de maior, como lesões, doenças ou roubos.
Ainda assim, tiveram alguns contratempos, como taxas de bagagem inesperadas na África do Sul, depois de duas companhias aéreas terem cobrado um valor adicional pelos sacos com material médico de Crowley, que habitualmente eram despachados sem custos adicionais.
Bennett também chamava a atenção quando levava Crowley às cavalitas. Algumas pessoas pensavam que os dois estavam apenas a brincar, sem perceberem que aquela era a forma que tinham encontrado para subir escadas.
“Numa subida na África do Sul, quando cheguei lá acima, uma senhora perguntou-me: ‘Vocês estão a brincar?’ E eu respondi: ‘Não, não consigo andar’”, conta Crowley. Quando saíam à noite, Crowley tinha por vezes dificuldade em fazer-se ouvir, por estar sentado na cadeira de rodas e, por isso, a uma altura mais baixa do que as pessoas à sua volta. Noutras ocasiões, em vez de falarem diretamente com Crowley, as pessoas dirigiam-se a Bennett, talvez por pensarem que estava ali para o acompanhar e ajudar, explica.
Algumas das imagens que partilharam nas redes sociais suscitaram críticas por questões de segurança, como quando Crowley subiu uma escada rolante na cadeira de rodas, agarrado ao corrimão para se manter seguro.
Na realidade, os passeios com piso irregular e as subidas podiam, por vezes, ser mais arriscados. No Brasil, Crowley chegou a cair da cadeira de rodas numa rampa. Apesar destes contratempos, os dois amigos procuraram concentrar-se sempre no lado positivo da viagem.
A viagem levou-os também a repensar o próprio conceito de acessibilidade. “O que é que torna algo acessível? Uma rampa, uma pessoa ou outra coisa qualquer?”, questiona Bennett.
“Com a ajuda de outras pessoas, podemos tornar o mundo muito mais acessível”, diz Crowley. “E sem o Lachie, dificilmente teria conseguido fazer tudo isto.”
Mas Bennett lembra que todos precisamos de uma ajuda de vez em quando.
“Quando viajava sozinho, também precisava de alguém que me ajudasse a conhecer pessoas novas e com quem pudesse viver aventuras”, aponta.
“Com ou sem cadeira de rodas, todos precisamos de apoio, cada um à sua maneira.”






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