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Entre regresso e raiz: Brasileiras que encontram no Líbano o lugar onde a história respira

Entre regresso e raiz: Brasileiras que encontram no Líbano o lugar onde a história respira

Naima e Natalie, filhas da diáspora libanesa no Brasil, revelam como o regresso ao Líbano pode ser simultaneamente reencontro, reconstrução e descoberta — uma travessia que redefine o que significa pertencer.

Reportagem – Palavra Livre, com base na matéria de Joseph Zimbler, publicada pela Al Jazeera, 25/09/2026.

Há viagens que não começam no aeroporto. Começam muito antes — no cheiro do café com cardamomo, nas vozes de Fairuz que atravessam gerações, nas histórias contadas ao redor da mesa enquanto se molda kibbeh com as mãos. Para Naima Yazbek e Natalie Nassif, brasileiras descendentes de libaneses, o Líbano era primeiro uma memória herdada; depois, uma promessa; e finalmente, um destino que as escolheu.

O que ambas descobriram é que regressar a um país onde nunca se viveu pode ser mais transformador do que voltar à casa da infância. Porque o regresso, para quem nasce da diáspora, é sempre uma forma de reencontrar partes de si.

Naima: a dança como idioma de pertença

Naima Yazbek, 55 anos, entra na pista da Madame Om como quem atravessa um portal. A música Alf Leila wa Leila explode pelos alto-falantes, e a sala inteira se inclina para vê-la dançar. A seda branca da saia flutua, o leque estala no ritmo, e por alguns minutos ninguém quer saber qual passaporte ela carrega. Querem apenas vê-la existir naquele palco. Mas fora da pista, as fronteiras reaparecem.

Sentada no Café Younes, sob pinheiros que filtram o calor de Beirute, Naima acende um cigarro e fala da viagem que mudou tudo. Em 2009, chegou ao Líbano para uma estadia de dois meses. Voltou ao Brasil incapaz de dormir. Vendeu o carro, deixou quase tudo com a mãe, e regressou levando apenas roupas e instrumentos de dança — finger cymbals, tamborim, shamadan, espada. “Eu queria arriscar uma vida totalmente nova”, diz.

A lei libanesa não reconhecia sua cidadania: a linhagem materna não transmite nacionalidade. Entrou como estrangeira, precisou de iqama, enfrentou burocracias. Mas emocionalmente, sentiu-se em casa. A dança abriu portas, primeiro com desconfiança (“dance samba”, diziam-lhe), depois com respeito. Tornou-se presença em palcos, escolas, festivais — uma artista que une Brasil e Líbano num só corpo. Até que o país explodiu.

Em 4 de agosto de 2020, Naima ensinava dança perto do porto quando o vidro rasgou seu braço, quase amputou um dedo, danificou sua audição. Perdeu sangue, perdeu o telefone, perdeu o chão. Voltou ao Brasil para recuperar. Mas o Líbano, mesmo ferido, continuou a chamá-la. E ela voltou — porque algumas casas não se abandonam.

Natalie: o reencontro que muda o destino

Natalie Nassif cresceu no Rio de Janeiro, mas o Líbano estava em cada gesto da avó, em cada prato preparado com devoção, em cada música que fazia a família chorar de saudade. A mãe, nascida em Kawkaba, fugira da guerra em 1979. A avó carregava memórias de um filho perdido no conflito. O Líbano era ausência, mas também presença — viva, diária, incontornável.

Aos 19 anos, Natalie recebeu o convite que mudaria tudo: o pai, ausente desde a infância, queria vê-la no Líbano. No aeroporto de Beirute, hesitou antes de atravessar a porta. Quando finalmente saiu, encontrou o pai com um enorme ramo de flores, os tios, a avó — todos a chamá-la pelo nome como se a vida inteira tivesse sido uma espera. No carro, a ansiedade dissolveu-se. Três semanas depois, voltou ao Brasil apaixonada pelo país que até então só conhecia pelas histórias da avó.

As viagens tornaram-se frequentes. Em 2013, aceitou um emprego no Instituto Guimarães Rosa, ensinando português a crianças de famílias luso‑libanesas. Construiu carreira, amizades, vida. Casou com um músico libanês. Até que o país explodiu.

Natalie estava a dar aula quando o prédio tremeu, janelas estilhaçaram, amigos ficaram feridos. Em pânico, fez a mala e fugiu para o Brasil. A segurança trouxe alívio, mas também tristeza: “Foi como se o Líbano tivesse me expulsado”, diz. Viveu com a mãe e a avó — que viria a falecer um ano depois. Mas o Líbano continuava a ser o lugar onde a sua história respirava. Em 2026, voltou. E ficou.

Entre duas casas, duas línguas, dois mundos

Naima e Natalie descobriram que identidade não é uma bandeira fixa, mas um território em movimento. No Brasil, eram vistas como libanesas; no Líbano, como brasileiras. Entre línguas, memórias e geografias, aprenderam que pertencer pode ser múltiplo — e que regressar não é voltar a um lugar, mas reencontrar partes de si.

O historiador Diogo Bercito explica que descendentes da diáspora constroem um “Líbano emocional”, feito de histórias, músicas, sabores — um país herdado, que raramente coincide com o país real. Mas isso não diminui o impacto do reencontro. Pelo contrário: torna-o mais profundo.

Em Sultan Yacoub, no Vale do Bekaa, o português ainda ecoa em supermercados e farmácias. Em Ashrafieh, vizinhas idosas perguntam por parentes no Brasil. Em Hamra, cafés misturam sotaques, memórias e drones que zumbem no céu. O Líbano é um país de camadas — e a diáspora é uma delas.

O regresso como forma de resistência

Escolher o Líbano significa viver num país que atravessa crises sucessivas: colapso financeiro, apagões, guerra, explosões. Mas também significa viver num país onde a memória é uma forma de resistência.

Natalie caminha pelas ruas onde o tio foi assassinado. Visita Jenevieve e Souhad, amigas da avó, que lhe oferecem uvas e chocolates e pedem para falar com a mãe no Brasil. Por alguns minutos, a sala em Beirute enche-se de vozes atravessando o Atlântico. Depois, Natalie segue para dar aula de português — língua que ajuda a preservar raízes que a migração afastou.

Naima dança em palcos onde ninguém pergunta de onde ela veio. Ensina crianças que misturam árabe, português e inglês. Caminha por ruas onde a história da família se perdeu e se reencontra. Ambas vivem entre dois mundos. E ambos os mundos as reclamam.

O Líbano que herdaram não é o mesmo que encontraram. Mas, de alguma forma, tornou-se casa.

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