Dia Internacional da Mulher | Editorial – “Mulheres que escrevem o mundo”

Dia Internacional da Mulher | Editorial – “Mulheres que escrevem o mundo”

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  • Equipe Palavra Livre

Durante oito dias, convocámos mulheres que não pediram licença para existir. Mulheres que escreveram apesar da fome, apesar do exílio, apesar da censura, apesar do medo. Mulheres que escreveram com o corpo inteiro — e com o que lhes tentaram arrancar. Esta série não é apenas um percurso literário: é um mapa de sobrevivência, um inventário de coragem, um arquivo de fogo.

O que atravessa estas oito vozes não é apenas a palavra. É a recusa. É a insubmissão. É o gesto de permanecer quando tudo à volta exige silêncio. São mulheres que enfrentaram o racismo, o colonialismo, a violência doméstica, o apagamento institucional, o feminicídio, a pobreza, a loucura, a solidão.

São mulheres que transformaram feridas em linguagem, e linguagem em futuro. Cada retrato desta série é um corpo que se ergue. Cada nome é uma restituição. Cada país é uma memória que insiste. Cada rosto é uma pergunta: quem escreve o mundo quando o mundo tenta calá-las?

A literatura destas mulheres não é ornamento. É ferramenta. É denúncia. É testemunho. É arma. É abrigo. É ponte. É semente. É fronteira que se abre. É chão que se levanta. É casa que se reconstrói no meio dos escombros. E, sobretudo, é legado. Porque quando uma mulher escreve, todas escrevem com ela — as vivas, as mortas, as que ainda virão.


Poema editorial — As que escrevem o mundo

Escrevem com a mão que treme,
com a boca que sangra,
com o nome que lhes roubaram
e que elas tomam de volta.

Escrevem com a noite às costas,
com o medo sentado no colo,
com a memória das que desapareceram
e das que ninguém procurou.

Escrevem contra o homem que grita,
contra o Estado que cala,
contra a lei que não as vê,
contra o riso que as diminui,
contra o mundo que as quer pequenas.

Escrevem por todas as que foram queimadas,
por todas as que foram silenciadas,
por todas as que foram enterradas sem história,
por todas as que ainda hoje
têm de pedir desculpa por existir.

Escrevem também por amor —
não o amor que aprisiona,
mas o que liberta,
o que abre janelas,
o que devolve o corpo ao próprio corpo.

Escrevem para que a menina que nasce agora
não tenha de aprender a sobreviver antes de aprender a viver.
Escrevem para que a palavra “mulher”
não seja sinónimo de medo.

Escrevem o mundo
com a coragem de quem atravessa o abismo
e, mesmo assim,
planta uma flor no meio do fogo
e exige que ela floresça.


Jornalista e escritor. Criador e Editor do Palavra Livre, cofundador da Associação das Letras com sede no Brasil (SC). Foi criador e apresentador de programas de TV e Rádio como Xeque Mate, Hora do Trabalhador entre outros trabalhos na área. Tem mais de 35 anos de experiência nas áreas de jornalismo, comunicação, assessoria de imprensa, marketing e planejamento. É autor dos livros Na Teia da Mídia (2011), Gente Nossa (2014) e Tinha um AVC no Meio do Caminho (2024). Tem vários textos publicados em antologias da Associação Confraria das Letras, onde foi diretor de comunicação.