Série Especial Mulheres 8: Conceição Lima (São São Tomé e Príncipe) e Hilda Hilst (BRASIL)

Série Especial Mulheres 8: Conceição Lima (São São Tomé e Príncipe) e Hilda Hilst (BRASIL)

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Mulher, corpo, palavra, futuro

Por Palavra Livre | Cultura e Literatura

CONCEIÇÃO LIMA — A GUARDIÃ DA MEMÓRIA ATLÂNTICA (SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE)

A poesia de Conceição Lima (1961–) é uma das mais importantes vozes da literatura africana contemporânea. Nascida em Santana, São Tomé e Príncipe, Conceição escreve a partir de um arquipélago marcado pela escravização, pelo colonialismo, pela diáspora e pela luta pela autodeterminação. Sua obra é um gesto de memória — mas também de futuro. Ela escreve como quem recolhe fragmentos de um mundo partido e os recompõe com rigor, beleza e indignação. Sua poesia é feita de mar, de nomes, de ossos, de silêncio, de história. É uma poesia que não aceita o esquecimento como destino.

Em O Útero da Casa (2004), A Dolorosa Raiz do Micondó (2006) e O País de Akendenguê (2011), Conceição Lima constrói uma cartografia da dor atlântica. Ela nomeia os navios negreiros, os portos, os mortos sem nome, os sobreviventes sem voz. Sua poesia é um memorial — mas um memorial vivo, pulsante, que exige responsabilidade. O trecho que se segue, de um de seus poemas mais conhecidos, sintetiza sua visão:

“A minha pátria é a língua que falo e o mar que me cerca.”

Aqui, pátria não é bandeira — é língua. Não é território — é mar. Não é fronteira — é travessia. Conceição Lima escreve a partir de um lugar onde a história foi rasgada, mas não destruída. Sua poesia é uma tentativa de costurar essa rasgadura, de devolver nome aos que foram desumanizados, de restaurar a dignidade dos que foram arrancados de si. Sua obra é marcada por três forças centrais:

  • a memória como justiça,
  • a língua como pátria,
  • o mar como arquivo da dor e da esperança.

Conceição Lima é também jornalista, intelectual, figura pública. Sua voz ultrapassa a poesia: ela pensa o mundo, pensa a África, pensa o futuro. Sua escrita é rigorosa, precisa, sem concessões. Não há sentimentalismo — há verdade. Não há ornamento — há responsabilidade. E, no entanto, sua poesia é profundamente bela. Uma beleza que nasce da lucidez, da coragem, da fidelidade à memória. Conceição Lima escreve como quem sabe que a palavra pode ser um gesto de reparação — e que reparar é um ato político e espiritual.

Leitura crítica do Palavra Livre: Conceição Lima é uma poetisa da memória atlântica. Sua obra nos lembra que o passado não passa — ele permanece, exige, convoca. Celebrá-la no Dia da Mulher é reconhecer a força das mulheres que guardam a história, que nomeiam o indizível, que mantêm viva a chama da dignidade. Conceição escreve para que ninguém seja esquecido — e, ao fazê-lo, ilumina caminhos para o futuro.

HILDA HILST — A MULHER QUE ESCREVEU O ABISMO E O ÊXTASE (BRASIL)

Hilda Hilst (1930–2004) é uma das escritoras mais intensas, radicais e brilhantes da literatura brasileira. Sua obra atravessa poesia, teatro, prosa, filosofia, erotismo, metafísica. Hilda escreve como quem olha para o abismo — e não desvia o olhar. Sua literatura é feita de corpo e espírito, de carne e transcendência, de desejo e morte, de riso e desespero. É uma obra que não pede licença, não pede desculpa, não pede compreensão. Hilda escreve para quem tem coragem de entrar.

Em Da Morte. Odes Mínimas (1980), ela enfrenta a finitude com uma delicadeza feroz. Em A Obscena Senhora D (1982), cria uma das personagens mais perturbadoras e geniais da literatura brasileira — uma mulher que se retira para dentro de si e ali encontra o grotesco, o sublime, o insuportável. Em Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (1974), escreve alguns dos poemas mais belos e intensos da língua portuguesa. O trecho que se segue, de um de seus poemas mais conhecidos, sintetiza sua força:

“Se te pareço noturna e imperfeita, olha-me de novo.”

Aqui, Hilda afirma a complexidade do feminino — não como fragilidade, mas como potência. A mulher noturna, imperfeita, excessiva, profunda, contraditória — essa mulher é a que pensa, a que deseja, a que cria, a que escreve. Hilda Hilst recusa a domesticação do feminino. Sua obra é um ataque frontal às expectativas sociais, às normas morais, às convenções literárias. Ela escreve com uma liberdade que ainda hoje assusta — e fascina. Sua poesia é marcada por três forças centrais:

  • o erotismo como linguagem filosófica,
  • a metafísica como experiência corporal,
  • a escrita como forma de transcendência.

Hilda não separa corpo e espírito — ela os funde. Não separa amor e morte — ela os confronta. Não separa poesia e vida — ela as confunde. Sua obra é uma busca incessante por sentido, por Deus, por si mesma, por um outro que nunca chega, por uma linguagem que nunca basta. Hilda Hilst é uma escritora que exige entrega. Quem entra em sua obra não sai ileso — sai transformado.

Leitura crítica do Palavra Livre: Hilda Hilst é uma poeta da vertigem. Sua obra nos lembra que a literatura pode ser risco, pode ser abismo, pode ser êxtase. Celebrá-la no Dia da Mulher é reconhecer a força das mulheres que ousam pensar o impensável, sentir o insuportável, escrever o indizível. Hilda é uma das grandes — e sua grandeza é indomável.

Jornalista e escritor. Criador e Editor do Palavra Livre, cofundador da Associação das Letras com sede no Brasil (SC). Foi criador e apresentador de programas de TV e Rádio como Xeque Mate, Hora do Trabalhador entre outros trabalhos na área. Tem mais de 35 anos de experiência nas áreas de jornalismo, comunicação, assessoria de imprensa, marketing e planejamento. É autor dos livros Na Teia da Mídia (2011), Gente Nossa (2014) e Tinha um AVC no Meio do Caminho (2024). Tem vários textos publicados em antologias da Associação Confraria das Letras, onde foi diretor de comunicação.