A investigação sobre presença, silêncio e o futuro da palavra

Por Salvador Neto

Há mais de trinta anos, vivo a comunicação como quem atravessa uma casa antiga: abrindo portas, ouvindo ecos, percebendo o que muda e o que insiste em permanecer. Comecei no tempo em que o jornal tinha cheiro de tinta e o texto era pensado para durar. Depois vieram as plataformas, a aceleração, o algoritmo — e a comunicação deixou de ser encontro para se tornar fluxo.

Hoje, transformo essa vivência numa investigação: como recuperar o humano num ecossistema que transforma pessoas em produtos e relações em métricas.

Quando a palavra deixou de respirar

Acompanhei, por dentro, a passagem do jornalismo para a lógica das redes sociais. Como especialista em mídias sociais, vi a transformação silenciosa: pessoas convertidas em “criadores de conteúdo”, produzindo gratuitamente para plataformas que lucram com a sua atenção.

A pergunta que me move é simples e urgente:

Quando foi que deixámos de comunicar para nos tornarmos objetos de consumo?

Não é uma pergunta técnica. É uma pergunta ética.

O que esta investigação procura

O meu trabalho atual procura restituir profundidade à comunicação. Não se trata de nostalgia, mas de consciência. A investigação assenta em três eixos:

  • Histórico — como a aceleração digital alterou a relação com o tempo e com a palavra.
  • Social — como as redes moldam comportamentos, identidades e perceções de valor.
  • Humano — como recuperar a comunicação como gesto, encontro e presença.

O objetivo é claro: ajudar as pessoas a retomarem práticas humanas de comunicação — escrever com intenção, conversar sem pressa, encontrar-se sem mediação constante, reconstruir vínculos que não dependam de algoritmos.

A decisão que marca esta nova fase

Esta investigação não é apenas teórica — é vivida. Por isso, tomei uma decisão que muda a minha presença pública:

Deixo de publicar regularmente nas redes sociais.

Não por afastamento, mas por alinhamento. A velocidade das plataformas já não corresponde ao ritmo do meu trabalho, nem ao cuidado que coloco em cada texto, entrevista ou reflexão.

A partir de agora:

  • o Palavra Livre passa a ser o meu espaço principal de comunicação,
  • o meu email passa a ser o canal direto comigo,
  • e nas redes sociais aparecerei apenas uma vez por mês.

Em maio, essa presença mensal começa no dia 22, o dia do meu aniversário — um gesto simbólico de continuidade, reconstrução e sentido.

Menos ruído, mais humanidade

Acredito que a comunicação precisa de recuperar o que perdeu:

  • intenção
  • contexto
  • silêncio
  • profundidade
  • humanidade

As redes sociais tornaram-se espaços de ruído, aceleração e consumo. Mas a palavra — a verdadeira palavra — precisa de tempo para respirar. O Palavra Livre é o lugar onde essa respiração acontece.

Um convite para quem lê

Esta investigação não é apenas sobre mim. É sobre nós. Se este texto te tocou, se te fez pensar, se te inquietou — escreve-me. Diz-me o que sentes, o que vês, o que te preocupa. Partilha a tua experiência com a comunicação, com as redes, com o silêncio. Quero ouvir-te — não como “seguido”, mas como pessoa.

Comenta, responde, conversa. Retomemos juntos o que sempre foi nosso: a palavra como encontro, não como produto.

O futuro da palavra

Acredito que a comunicação do futuro não será medida por likes, mas por vínculos. Não será guiada por algoritmos, mas por consciência. Não será feita de ruído, mas de profundidade. E é isso que esta investigação procura: restituir à palavra o seu lugar de humanidade.

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Autor

salvadornetooficial@gmail.com

Jornalista e escritor. Criador e Editor do Palavra Livre, cofundador da Associação das Letras com sede no Brasil (SC). Foi criador e apresentador de programas de TV e Rádio como Xeque Mate, Hora do Trabalhador entre outros trabalhos na área. Tem mais de 35 anos de experiência nas áreas de jornalismo, comunicação, assessoria de imprensa, marketing e planejamento. É autor dos livros Na Teia da Mídia (2011), Gente Nossa (2014) e Tinha um AVC no Meio do Caminho (2024). Tem vários textos publicados em antologias da Associação Confraria das Letras, onde foi diretor de comunicação.

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