
- 0
- 339 words
Por Salvador Neto
Acordei com o cheiro do mar de Alcobaça entrando pela janela, como se fosse um velho amigo vindo me lembrar que estou longe de casa, mas não da minha história.
Joinville, minha cidade natal, ainda vive em mim — nos sons da chuva que caía sem pedir licença, nas ruas largas onde aprendi a caminhar com urgência e esperança. Lembro do barulho das bicicletas, do cheiro de pão fresco nas padarias da rua do Príncipe, das manhãs frias que pediam café forte e conversa boa.
Aqui em Portugal, o tempo parece outro. Os sinos da igreja tocam como se fossem versos, e os velhos pescadores contam histórias que poderiam ser contadas por meu avô, lá no bairro Bucarein. Alcobaça tem um silêncio que não pesa, mas acolhe. As pedras antigas das calçadas guardam segredos que só o tempo entende.
No café da esquina, Dona Maria me chama de “moço do Brasil” e me serve um pastel de nata com o carinho de quem entende saudade. Ela me pergunta sobre o calor do Brasil, sobre o samba, sobre o que é viver do outro lado do oceano. Eu sorrio, e falo de Joinville como quem descreve um amor antigo — com ternura, com respeito, com aquele nó na garganta que só quem partiu conhece.
Às vezes, caminho pelas muralhas do Mosteiro e penso em como a vida é feita de travessias. Do Atlântico que separa continentes, mas une memórias. Dos amigos que ficaram, dos que se foram, dos que ainda escrevem cartas e mensagens como quem joga garrafas ao mar.
Em Alcobaça, escrevo para não esquecer. Escrevo para lembrar que, mesmo longe, carrego Joinville no bolso do coração.
Porque a palavra é livre. E a liberdade, como o mar, não tem fronteiras.
E enquanto o sol se põe atrás das colinas portuguesas, eu penso: talvez a saudade seja só uma forma bonita de lembrar que ainda estamos vivos.
