A fome já era grande quando chegamos ao histórico Mercado Público de Florianópolis buscando um lugar para almoçar. Diariamente comemos com rapidez, cerca de 20 minutos, e voltamos ao trabalho eu, Celio Bizz, Moacir Montibeller, Salete Kirchner. Ontem, precisávamos mudar. Sentar em outros ares, ver novas pessoas, bater um papo mais longo. E qual lugar melhor que o Mercado para isso? Pedimos anchova em posta, frita, e tainha assada. Uma maravilha. Juntamos as mesas com o engenheiro Zandoná que trabalha concosco e acompanhava pessoas do oeste do estado no almoço, eles já estavam triturando os últimos pedaços de peixe.

De repente uma voz atrás de mim. “O senhor me dá um real prá comer alguma coisa”, perguntava a pessoa ao nosso Moacir Montibeller. Me virei para saber quem pedia. Era uma senhora idosa, negra, vestida com panos simples carregando nas mãos uma pequena sacola. Falava com dificuldade, tinha poucos dentes. Moacir imediatamente a convidou a sentar para almoçar conosco, negando o real. Celio insistiu, eu também. Ela relutou um pouco, e em seguida sentou, meio desconfiada. “Qual a sua idade?”, perguntei, ao que ela respondeu: “Não sei meu filho, só sei que agora ando de ônibus e não preciso pagar”, falou sorrindo. Logo apresentou o documento para idosos que tem gratuidade no transporte coletivo. Seu nome era Pedra Maria Cordeiro, moradora da Barra da Lagoa, local de morada de pescadores.

Antes da chegada da nossa comida, Moacir já pegou a comida da mesa ao lado, do Zandoná, e colocou no prato de Pedra. “Não precisa tanto..”, insistia com os olhos grudados no prato. Arroz, salada, peixe, pirão, guaraná. E lá foi dona Pedra brigar com garfo e faca contra a fome. Ao nosso redor, centenas de pessoas passando, umas recolhendo latas, outras vendendo óculos de sol, castanha de cajú, bilhetes de loteria. Por nossas cabeças voavam os famosos pombos que habitam aquela região da capital catarinense. E na minha cabeça me questionava: que mundo é esse em que os idosos não tem condições de comer, de ter o seu dinheiro para se alimentar? E por outro lado ficava feliz de conviver ao lado de pessoas como Moacir e Celio, que não olharam cor, condição financeira, e receberam Pedra na mesma mesa, dividindo o alimento comum. Grandes figuras, pessoas do bem.

Chegou a nossa anchova e a tainha. E dona Pedra ganhou mais uns pedaços de peixe, arroz, coloquei mais pirão… Feliz, ela agradeceu muito, levantou-se, limpou o vestido gasto pelo tempo, e seguiu viagem sabe Deus pra onde. Agora sem fome e com seu cartão de passagem gratuita nos ônibus, minúscula dignidade para quem já lutou tanto na vida, seguiu mundo afora. Certamente para chegar ao seu lar, na Barra da Lagoa. E lá, será que Pedra Maria Cordeiro tem o que comer? Dúvida cruel…�

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salvadornetooficial@gmail.com

Jornalista e escritor. Criador e Editor do Palavra Livre, cofundador da Associação das Letras com sede no Brasil (SC). Foi criador e apresentador de programas de TV e Rádio como Xeque Mate, Hora do Trabalhador entre outros trabalhos na área. Tem mais de 35 anos de experiência nas áreas de jornalismo, comunicação, assessoria de imprensa, marketing e planejamento. É autor dos livros Na Teia da Mídia (2011), Gente Nossa (2014) e Tinha um AVC no Meio do Caminho (2024). Tem vários textos publicados em antologias da Associação Confraria das Letras, onde foi diretor de comunicação.

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