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Entre o conforto das histórias e os riscos das narrativas inadequadas, cresce no mundo a busca por livros como ferramenta de saúde mental.

A biblioterapia — o uso orientado da leitura para apoiar o bem‑estar emocional — vive um momento de expansão global. O fenômeno, que ganhou novo fôlego a partir dos anos 1990, hoje mobiliza terapeutas especializados, programas públicos de saúde e milhões de leitores em busca de alívio, compreensão e companhia nas páginas de um livro. Mas, como revela a reportagem da BBC e outras fontes consultadas, o efeito da leitura sobre a saúde mental é tudo menos simples.

📚 O poder das histórias: quando a ficção acolhe

A experiência de Elizabeth Russell, professora e bibliotecária nos EUA, ilustra o potencial transformador da biblioterapia. Em meio a um divórcio difícil e a uma depressão persistente, ela encontrou na “biblioterapia criativa” um caminho de ressignificação. Ao ler personagens que enfrentavam dilemas semelhantes aos seus, Russell sentiu-se menos sozinha — e mais capaz de compreender o próprio sofrimento.

Pesquisas reforçam essa percepção: leitores frequentes tendem a relatar menos solidão, maior conexão social e até maior longevidade. A ficção, especialmente quando envolve mundos ricos e personagens complexos, pode funcionar como um laboratório emocional seguro, onde o leitor ensaia decisões, confronta medos e experimenta empatia.

⚠️ Nem todo livro cura: os riscos ignorados

Apesar do entusiasmo crescente, especialistas alertam para um ponto crucial: a leitura não é um remédio universal.

Estudos citados pela BBC mostram que, em certos casos, a ficção pode agravar sintomas. Pessoas com transtornos alimentares, por exemplo, relataram piora ao ler narrativas com personagens que viviam a mesma condição — um efeito de gatilho que reforça obsessões e comparações nocivas.

O mesmo pode ocorrer com leitores que enfrentam dependência química, depressão severa ou episódios psicóticos. A leitura, nesses casos, pode intensificar padrões de pensamento prejudiciais ou criar ilusões de controle que afastam o paciente do tratamento adequado.

🏛️ Programas públicos e a busca por equilíbrio

No Reino Unido, o programa Reading Well já emprestou mais de 3,9 milhões de livros desde 2013, com listas curadas por especialistas e pessoas com experiência direta em condições como demência, ansiedade e depressão. A iniciativa reconhece que:

  • livros podem ajudar,
  • mas não substituem acompanhamento clínico,
  • e precisam ser escolhidos com rigor.

Por isso, obras de ficção sobre demência foram retiradas das listas após relatos de pacientes que se sentiam mal representados ou emocionalmente abalados. Para transtornos alimentares, apenas livros de apoio prático são recomendados — nunca romances sobre o tema.

🤝 O papel das comunidades de leitura

Um ponto de consenso entre pesquisadores é que discutir livros em grupo potencializa os benefícios. Clubes de leitura, rodas de poesia e encontros literários criam espaços de partilha que ampliam a compreensão emocional e reduzem o isolamento.

A leitura, quando vivida coletivamente, deixa de ser apenas introspecção e se torna vínculo.

🎭 Literatura, humanidade e complexidade

A biblioterapia funciona porque a literatura é complexa — e nós também. Não há fórmula pronta, nem lista infalível. Há caminhos possíveis, que dependem da história certa, no momento certo, para a pessoa certa.

Como resume a pesquisadora Emily Troscianko, da Universidade de Oxford:

“Literatura é complicada. Seres humanos são complicados. Por que esperar que os efeitos sejam simples?”

🌱 Para quem deseja experimentar

Especialistas recomendam:

  • começar por leituras que tragam conforto, não gatilhos;
  • buscar clubes de leitura ou bibliotecas públicas;
  • abandonar sem culpa livros que não “funcionam”;
  • combinar leitura com outras formas de expressão — música, arte, escrita;
  • procurar ajuda profissional sempre que o sofrimento ultrapassar o que a leitura pode acolher.

A biblioterapia não é uma cura milagrosa. É uma companhia. Uma forma de lembrar que, nas páginas de um livro, alguém já caminhou por dores parecidas, e encontrou um jeito de seguir.

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Autor

salvadornetooficial@gmail.com

Jornalista e escritor. Criador e Editor do Palavra Livre, cofundador da Associação das Letras com sede no Brasil (SC). Foi criador e apresentador de programas de TV e Rádio como Xeque Mate, Hora do Trabalhador entre outros trabalhos na área. Tem mais de 35 anos de experiência nas áreas de jornalismo, comunicação, assessoria de imprensa, marketing e planejamento. É autor dos livros Na Teia da Mídia (2011), Gente Nossa (2014) e Tinha um AVC no Meio do Caminho (2024). Tem vários textos publicados em antologias da Associação Confraria das Letras, onde foi diretor de comunicação.

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