- Por Salvador Neto, editor-chefe do Palavra Livre
O Brasil encerrou 2025 com um recorde que deveria envergonhar qualquer nação que se pretenda civilizada: 1.470 mulheres assassinadas pelo fato de serem mulheres, uma média brutal de quatro mortes por dia. Em dez anos, desde a tipificação do feminicídio, o país viu um aumento de mais de 300% nesse tipo de crime. Não é um desvio estatístico. Não é acaso. É um sintoma de algo muito mais profundo: uma doença social que se espalha silenciosamente e destrói famílias inteiras.
E essa doença tem um nome que muitos evitam pronunciar: violência masculina.
A responsabilidade dos homens — e o silêncio que mata
É impossível enfrentar o feminicídio sem falar dos homens. Não dos “monstros”, não dos “casos isolados”, não dos “desajustados”. Mas dos homens comuns, socializados na lógica do controle, da posse, da autoridade incontestável.
A maioria dos feminicidas não é composta por desconhecidos. São companheiros, ex-companheiros, pais, filhos, vizinhos, colegas de trabalho. Homens que, em algum momento, acreditaram ter o direito de decidir sobre a vida de uma mulher.
E aqui está o ponto central: não haverá redução do feminicídio enquanto os homens não forem chamados — e não se chamarem — à responsabilidade.
Responsabilidade para:
- reconhecer comportamentos violentos, mesmo os que parecem “normais”;
- intervir entre amigos, colegas e familiares;
- educar meninos para a igualdade, não para a dominação;
- desnaturalizar o ciúme, a posse, a humilhação, que são a antessala do feminicídio;
- romper pactos de silêncio que protegem agressores.
A violência contra mulheres não é um problema das mulheres. É um problema dos homens — e da sociedade que os forma.
Educação: o terreno onde tudo começa
Nenhuma política pública será suficiente se não mexermos na base: a educação de gênero desde a infância.
Mas o Brasil tem medo dessa conversa. Transformou “educação de gênero” em tabu, em espantalho político, em arma eleitoral. Enquanto isso, meninas crescem aprendendo a se proteger, e meninos crescem aprendendo que podem mandar.
Educar para a igualdade não é doutrinação. É prevenção. É saúde pública. É salvar vidas.
Uma doença social que atravessa gerações
O feminicídio não destrói apenas a vida da mulher assassinada. Ele implode famílias inteiras:
- crianças que presenciam o crime e carregam traumas para a vida;
- mães que enterram filhas;
- comunidades que se acostumam com a barbárie;
- ciclos de violência que se repetem porque nunca foram interrompidos.
Quando um feminicídio acontece, não é só uma mulher que morre — é um pedaço da sociedade que adoece.
O Estado falha — e a violência avança
Especialistas têm sido claros: feminicídio é crime evitável. Mas para evitá-lo é preciso:
- políticas públicas com orçamento real;
- rede de proteção articulada;
- delegacias especializadas funcionando;
- casas-abrigo suficientes;
- formação continuada para profissionais;
- investigação rápida e punição efetiva.
Nada disso existe de forma consistente no Brasil. E onde o Estado falha, a violência masculina encontra terreno fértil.
O mundo também sangra — mas o Brasil sangra mais
A violência de gênero é global, reconhecida pela ONU como uma das mais graves violações de direitos humanos. Mas o Brasil ocupa posição alarmante entre os países com maiores índices de feminicídio.
Enquanto nações que investiram em educação, prevenção e acolhimento reduziram seus números, o Brasil segue acumulando recordes sucessivos.
O pacto nacional: promessa ou mudança real?
O Pacto Nacional – Brasil contra o Feminicídio, anunciado em 2026, é um passo importante. Mas só terá impacto se romper com a tradição brasileira de políticas que começam com discursos e terminam em gavetas.
Sem metas, orçamento e responsabilização, será apenas mais um documento solene.
Não há neutralidade possível
O feminicídio não é um problema privado. Não é um drama doméstico. Não é um acidente.
É um projeto social que falhou — e que continuará falhando enquanto homens, Estado e sociedade não assumirem suas responsabilidades.
A imprensa precisa denunciar. As instituições precisam agir. Os homens precisam mudar. E o país precisa decidir se continuará enterrando mulheres ou se finalmente vai escolher a vida.
Porque o feminicídio não é apenas um crime. É um espelho. E o que ele reflete sobre nós é insuportável.







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