Carlos Fiolhais: entre a física que resiste ao tempo e a inteligência artificial que desafia o presente

Carlos Fiolhais: entre a física que resiste ao tempo e a inteligência artificial que desafia o presente

Redação Palavra LivreCom base na entrevista de João Céu e Silva, publicada no Diário de Notícias em 23/02/2026

Num momento em que a inteligência artificial domina debates públicos, desperta receios, alimenta negócios e influencia decisões políticas, o físico e divulgador científico Carlos Fiolhais surge com uma posição que contraria o entusiasmo dominante: para ele, a IA é “uma moda passageira”. A afirmação ganha peso não apenas pela ousadia, mas pela autoridade de quem dedicou décadas à explicação rigorosa e acessível da ciência em Portugal.

Com quase 80 livros publicados, Fiolhais regressa às livrarias com dois novos títulos que refletem tanto o seu percurso como as inquietações do presente: “Toda a Física Divertida” e “A Inteligência Artificial de A a Z”. A coincidência temporal não é inocente: num país e num mundo onde a tecnologia parece avançar mais depressa do que a capacidade de a compreender, Fiolhais insiste que a curiosidade científica continua a ser o melhor antídoto contra o deslumbramento acrítico.

A física continua jovem — a IA talvez não
Fiolhais não hesita quando questionado sobre qual dos temas dos seus novos livros poderá interessar mais aos leitores. A física, diz, “continua jovem”, porque o mundo permanece cheio de mistérios: matéria escura, energia escura, buracos negros — enigmas que resistem ao tempo e alimentam gerações de investigadores.

A inteligência artificial, pelo contrário, vê-a como uma moda tecnológica com prazo de validade. “É um grande negócio para alguns, que pode não durar sempre”, afirma, lembrando que a história da ciência está cheia de entusiasmos que desapareceram tão depressa quanto surgiram.

Ainda assim, reconhece que física e IA estão profundamente ligadas. Os computadores que alimentam os modelos generativos são, em grande parte, obra de físicos. E o Nobel da Física de 2024, atribuído a investigadores que desenvolveram redes neuronais artificiais, é prova disso.

Um autor que escreve porque é lido
Fiolhais recorda que a primeira versão de Física Divertida foi publicada quando tinha apenas 35 anos. Décadas depois, o livro continua a vender, a ser reeditado e a conquistar leitores. “É consolador ver um livro resistir à erosão do tempo”, afirma.

A longevidade da obra deve-se, em parte, à forma como Fiolhais comunica ciência: com humor, histórias, referências literárias e exemplos do quotidiano. Acredita que a física pode — e deve — ser divertida. E que simplificar não é empobrecer, mas incluir.

IA: entre a utilidade e a inquietação
O novo livro sobre inteligência artificial nasceu de uma série de textos publicados no Correio da Manhã. O resultado é uma espécie de dicionário que percorre conceitos, histórias e aplicações da IA, sempre com o olhar crítico do autor.

Fiolhais admite que a IA tem utilidade, mas mantém reservas profundas. Considera que os modelos generativos, como o ChatGPT, apenas reorganizam discurso humano e estão longe de possuir a “centelha de génio” que distingue figuras como Einstein. “O novo ergue-se sempre aos ombros do antigo”, diz, sublinhando que a IA não cria a partir do nada — aprende com o que já existe.

Um debate que ultrapassa a ciência
As declarações de Fiolhais surgem num contexto em que a IA está no centro de debates políticos, económicos e éticos. Governos discutem regulação, empresas disputam liderança tecnológica e cidadãos questionam o impacto da automação no emprego, na privacidade e na democracia.

Ao afirmar que a IA é uma moda, Fiolhais não nega a sua utilidade — mas alerta para o risco de a sociedade depositar expectativas desmedidas numa tecnologia que, apesar dos avanços, continua longe de replicar a complexidade humana.

Num tempo em que a desinformação se espalha com velocidade inédita, o físico insiste na importância do método científico: observação, experimentação, raciocínio lógico. “Neste mundo em que a verdade e a mentira parecem indistinguíveis, importa saber vincar a distinção”, afirma.

Ciência, arte e histórias que explicam o mundo
Fiolhais gosta de cruzar ciência com literatura, teatro e artes visuais. Cita Eça de Queiroz, García Márquez, Shakespeare e Brecht para explicar fenómenos físicos ou ilustrar dilemas éticos. Para ele, as histórias são ferramentas poderosas de comunicação — e a ciência precisa delas tanto quanto de equações.

Recorda, por exemplo, a peça Copenhaga, de Michael Frayn, que dramatiza o encontro entre Bohr e Heisenberg e transforma a física quântica numa metáfora das relações humanas. “Os seres humanos lembram-se mais depressa de uma história do que de um facto isolado”, diz.

IA e humanidade: limites que persistem
Apesar dos avanços tecnológicos, Fiolhais mantém-se convicto de que a IA não substituirá o ser humano. “Há coisas imitáveis por uma máquina e outras que não são: a genialidade, o afeto, a crença, a consciência”, afirma.

Não teme os robôs — teme, isso sim, que se perca a curiosidade que move a ciência. E lembra que o cérebro humano continua a ser “o maior mistério do universo”.

Um pensamento que desafia o entusiasmo dominante
Num momento em que a IA é apresentada como solução para tudo — da produtividade à educação, da saúde à segurança —, a posição de Fiolhais funciona como contraponto necessário. Não se trata de rejeitar a tecnologia, mas de a enquadrar. De lembrar que a ciência avança por continuidade, não por rutura. E que o futuro, por mais tecnológico que seja, continua a depender da capacidade humana de questionar, duvidar e imaginar.

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