Por Mariana Duarte – Especial para o Palavra Livre
O Brasil encerrou 2025 com 1.518 mulheres assassinadas por serem mulheres, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. É o maior número desde que o feminicídio foi tipificado em 2015, e representa quatro mortes por dia, um ritmo que expõe a falência das políticas públicas de proteção e a incapacidade do Estado de garantir o direito básico à vida.
O aumento repete a tendência de 2024, quando o país já havia batido recorde com 1.458 vítimas. Para especialistas, trata-se de um crime evitável, cuja persistência revela omissão, desfinanciamento e ausência de coordenação entre os entes federativos.
Um país que falha antes, durante e depois da violência
Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, foi categórica:
“Se a alta está acontecendo, isso é omissão do Estado. Não é possível proteger meninas e mulheres sem recursos humanos e financeiros.”
A crítica ecoa o diagnóstico de organizações internacionais: o Brasil convive com uma rede de proteção fragmentada, marcada por cortes orçamentários, falta de equipes especializadas e ausência de políticas contínuas. A consequência é conhecida: mulheres seguem sendo mortas por parceiros, ex-parceiros ou familiares, muitas vezes após sucessivas tentativas de denúncia.
Como o Brasil se compara ao mundo
A seguir, uma análise comparativa baseada em dados da ONU, UNODC, OMS e Eurostat.
1. Feminicídio por parceiro ou familiar (taxa por milhão de mulheres)
| Região / País | Taxa (por milhão) | Fonte |
|---|---|---|
| África | 30 | Euronews |
| Américas (média) | 15 | Euronews |
| Oceania | 14 | Euronews |
| Ásia | 7 | Euronews |
| Europa (média) | 5 | Euronews |
| Letônia (UE) | 17 | Euronews |
| Lituânia (UE) | 10 | Euronews |
| Áustria (UE) | 5 | Euronews |
| Espanha (UE) | 2 | Euronews |
| Grécia (UE) | 1,8 | Euronews |
| Brasil | Não há taxa oficial padronizada internacionalmente; número absoluto: 1.518 mortes em 2025 | Agência Brasil |
O que isso significa? Mesmo sem uma taxa padronizada divulgada pela ONU para o Brasil em 2025, o número absoluto coloca o país entre os que mais matam mulheres no mundo — especialmente considerando que a maior parte dos feminicídios ocorre dentro de casa, padrão semelhante ao observado globalmente.
2. Panorama global da violência letal contra mulheres
Segundo o Femicide Brief 2025 da ONU Mulheres e UNODC:
- 83 mil mulheres e meninas foram assassinadas intencionalmente no mundo em 2024.
- 50 mil foram mortas por parceiros íntimos ou familiares — uma a cada 10 minutos.
- A maior taxa proporcional está na África, seguida pelas Américas.
- A Europa apresenta as menores taxas, mas ainda sem tendência de queda.
A ONU alerta que não há progresso real na redução do feminicídio há mais de uma década.
3. Violência não letal: o iceberg submerso
A OMS estima que:
- 840 milhões de mulheres já sofreram violência física ou sexual ao longo da vida.
- 316 milhões foram vítimas de violência por parceiro íntimo apenas no último ano.
- 12,5 milhões de adolescentes (15–19 anos) sofreram violência física ou sexual de parceiros em 2024.
Esses números revelam o que especialistas chamam de “continuum da violência”: o feminicídio é o ponto final de uma trajetória que começa com controle, humilhação, ameaças, agressões e perseguição — muitas vezes ignoradas pelo Estado.
O pacto brasileiro: avanço ou resposta tardia?
Em 2026, os Três Poderes anunciaram o Pacto Nacional – Brasil contra o Feminicídio, prometendo coordenação permanente, ações integradas e um portal unificado de informações.
A iniciativa é bem-vinda, mas enfrenta desafios:
- Falta de orçamento — problema crônico apontado por especialistas.
- Descontinuidade política — cada mudança de governo desmonta estruturas anteriores.
- Baixa capilaridade — municípios, onde a violência acontece, seguem sem equipes e recursos.
- Subnotificação — milhares de casos ainda são registrados como homicídio simples.
Sem financiamento robusto e metas mensuráveis, o pacto corre o risco de se tornar mais um documento simbólico.
Por que o Brasil mata tanto?
A partir da análise dos dados nacionais e internacionais, três fatores se destacam:
1. Cultura patriarcal profundamente enraizada
A naturalização da violência doméstica e a culpabilização da vítima seguem presentes no imaginário social.
2. Estado ausente e políticas frágeis
Delegacias especializadas insuficientes, abrigos lotados, medidas protetivas que não são fiscalizadas e cortes orçamentários sucessivos.
3. Impunidade estrutural
A maioria dos feminicidas é conhecida da vítima. A falta de investigação rápida e punição efetiva reforça o ciclo de violência.
O que países com melhores resultados fazem?
Espanha
- Sistema integrado de monitoramento de risco.
- Tribunais especializados em violência de gênero.
- Investimento contínuo em prevenção. Taxa: 2 mortes por milhão — muito inferior à média brasileira.
França
- Endurecimento de penas.
- Monitoramento eletrônico obrigatório para agressores reincidentes.
- Aumento de 50 medidas legislativas em 2024.
Itália
- Prisão perpétua em casos de feminicídio motivados por controle ou rejeição.
Países nórdicos
- Forte rede de proteção social.
- Educação de gênero desde a infância.
- Políticas de igualdade consolidadas.
Conclusão: o Brasil precisa escolher entre discurso e ação
O recorde de feminicídios em 2025 não é um acidente estatístico — é o resultado direto de escolhas políticas. Enquanto países europeus avançam com leis mais duras, sistemas integrados e financiamento contínuo, o Brasil segue preso entre discursos emocionados e orçamentos vazios.
A cada dia, quatro mulheres brasileiras não voltam para casa. A cada ano, o país se distancia das nações que tratam a violência de gênero como prioridade de Estado — e não como pauta de ocasião.
O pacto anunciado em 2026 pode ser um ponto de virada. Mas, sem recursos, metas e fiscalização, será apenas mais um documento em meio a milhares de vidas interrompidas.
Mariana Duarte Jornalista brasileira Especial para o Palavra







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