Portugal 2026: quando a leitura se torna território, encontro e futuro

Portugal 2026: quando a leitura se torna território, encontro e futuro

Reportagem Especial — Palavra Livre

Portugal reencontra-se todos os anos à volta dos livros, mas 2026 chega com a sensação de que as Feiras do Livro deixaram de ser apenas eventos culturais para se tornarem um verdadeiro mapa afetivo do país. De Lisboa ao Porto, do Minho ao Alentejo, do Oeste às ilhas, as feiras são hoje o lugar onde leitores, autores, editoras, bibliotecas e cidades se olham de frente. Não é só uma questão de vendas ou de programação: é um ritual civil, um exercício de presença num tempo em que quase tudo empurra para o ecrã.

A 96.ª Feira do Livro de Lisboa, já com datas marcadas entre 27 de maio e 14 de junho de 2026, volta a ocupar o Parque Eduardo VII como quem ergue uma cidade paralela, feita de pavilhões, sombras, filas, encontros e descobertas. Em 2025, foram 350 pavilhões, 133 participantes e 960 marcas editoriais representadas, com a maior afluência de público de sempre, consolidando Lisboa como uma das maiores feiras literárias da Europa.

Quem passa por lá ao fim da tarde vê a cidade transformada: crianças sentadas no chão a ouvir histórias, adolescentes à caça de poesia e fantasia, famílias com sacos de papel cheios, turistas que tropeçam em Saramago, Sophia ou Lobo Antunes sem saber que estavam à procura deles. A feira é, ao mesmo tempo, passeio de domingo, sala de aula ao ar livre, auditório político, palco de afetos e mercado de livros.

Nos últimos anos, a presença de autores internacionais deu um salto visível. Em 2025, o espaço Porto Editora/Bertrand levou a Lisboa nomes como Jojo Moyes, Julian Barnes, Daniel Hurst e Ian Livingstone, numa programação que misturou lançamentos, conversas, workshops, horas do conto e até passeios literários pelo parque. Não é um detalhe: é um sinal claro de que a feira deixou de ser apenas um encontro nacional para se tornar um ponto de passagem regular de autores estrangeiros em digressão europeia. Para 2026, a organização ainda não divulgou a lista de convidados, mas o padrão está traçado: a combinação entre grandes nomes internacionais, autores portugueses consagrados e uma presença cada vez mais forte da lusofonia.

Do lado português, há uma constelação de presenças que, ano após ano, ajudam a desenhar o rosto da feira. Autores como Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto, Afonso Cruz, Ana Margarida de Carvalho, João Tordo, Dulce Maria Cardoso ou Bruno Vieira Amaral tornaram-se figuras quase inevitáveis nas sessões de autógrafos, nas conversas com leitores e nos debates que atravessam a programação. Do lado lusófono, nomes como Mia Couto, José Eduardo Agualusa, Ondjaki, Itamar Vieira Junior e Conceição Evaristo têm marcado presença regular, trazendo para o centro da feira temas como memória colonial, migração, racismo, desigualdade e futuro da língua portuguesa. Mesmo quando a lista oficial de 2026 ainda não está fechada, o leitor já sabe, pela experiência recente, que é este o tipo de voz que encontrará ali.

Mas Lisboa não vive só de mesas e autógrafos. A feira consolidou-se como um festival cultural completo: concertos ao entardecer, cinema literário ao ar livre, teatro breve entre pavilhões, exposições sobre o livro como objeto, gastronomia inspirada em romances, noites com DJ sets literários, residências de escrita ao vivo, espaços dedicados à poesia e à infância. A cada edição, cresce também a preocupação com a acessibilidade: sessões com interpretação em Língua Gestual Portuguesa, audiodescrição, zonas sensoriais, mediação especializada para públicos com necessidades específicas. A literatura, aqui, não é apenas conteúdo — é experiência partilhada.

No Porto, entre 23 de agosto e 8 de setembro de 2026, a Feira do Livro nos Jardins do Palácio de Cristal assume um tom diferente. Se Lisboa é expansão, o Porto é concentração. A feira portuense ganhou, nos últimos anos, uma identidade própria: menos centrada no volume de vendas, mais focada na curadoria, no pensamento crítico e na relação entre literatura, cidade e política. Os debates são longos, as perguntas são exigentes, o público senta-se na relva para ouvir com uma atenção que contrasta com a pressa do quotidiano.

É ali que autores como Gonçalo M. Tavares, Kalaf Epalanga, Teolinda Gersão, Valério Romão, Filipa Leal ou Nuno Júdice encontram um espaço natural para discutir ética, tecnologia, urbanismo, desigualdade, memória e futuro. A presença regular de escritores lusófonos — Ondjaki, Agualusa, Mia Couto — reforça a ideia de que o Porto é um lugar de escuta profunda, onde a língua portuguesa se pensa a si mesma. A programação recente, com ciclos como “Literatura e Cidade”, homenagens a Sophia de Mello Breyner, residências de tradutores e passeios literários pela cidade, mostra uma feira que não se limita a vender livros: ela interroga o espaço urbano, a história e o presente.

Mas é fora dos grandes centros que se percebe o alcance real desta rede de feiras. Em Braga, por exemplo, a feira tornou-se um laboratório de juventude leitora: autores de literatura infantojuvenil e juvenil, como David Machado, Alice Vieira ou Ana Pessoa, encontram um público que não está ali por obrigação escolar, mas por desejo. Há slam de poesia, batalhas de ilustração, oficinas de escrita digital, encontros com criadores de conteúdo literário nas redes sociais. A imagem do “jovem que não lê” não resiste a uma tarde na feira de Braga.

Em Guimarães, a literatura cola-se à história. Leituras encenadas no centro histórico, oficinas de escrita medieval, romancistas históricos que usam a cidade como cenário e matéria-prima. Em Viana do Castelo, a feira respira Atlântico: autores ligados ao mar, à pesca, à migração, à saudade, conversam com leitores à beira da marginal, enquanto a música tradicional preenche o intervalo entre sessões.

No Centro, Coimbra faz da feira uma extensão da universidade: filósofos, médicos, cientistas e poetas sentam-se lado a lado para discutir ética, tecnologia, ciência e linguagem. Aveiro transforma a feira num festival visual, com ilustradores, autores de banda desenhada, exposições de desenho e sessões de leitura em moliceiros. Leiria, cidade criativa da UNESCO, aposta na mediação cultural: teatro de rua, oficinas para famílias, concertos, encontros com autores de ficção científica, fantasia e literatura juvenil.

O Oeste, por sua vez, é talvez o território onde a relação entre feira, memória e identidade se torna mais visível. Na Nazaré, a feira nasce do mar: sessões de poesia ao pôr do sol, leituras sobre a vida dos pescadores, música tradicional, oficinas pensadas para idosos e pessoas com mobilidade reduzida. Em Alcobaça, o Mosteiro impõe-se como cenário e símbolo: autores de romance histórico, poetas locais e investigadores participam em conversas que ligam património, literatura e gastronomia, com jantares temáticos inspirados em textos e receitas. Nas Caldas da Rainha, literatura e artes visuais misturam-se em performances, pintura ao vivo, música experimental, com ilustradores e autores de BD a ocuparem o centro da programação. Em Torres Vedras, a feira integrada no festival “Livros a Oeste” discute ruralidade, agricultura, migração, sustentabilidade, com cinema, teatro e debates que aproximam o livro da vida concreta do território.

No Sul e nas ilhas, a literatura torna-se geografia afetiva. Em Évora, a feira junta cante alentejano, leituras em espaços patrimoniais e autores que escrevem sobre desertificação, abandono, resistência. Em Faro, a programação cruza literatura de viagem, mar e gastronomia algarvia, com sessões ao pôr do sol que parecem feitas para ficar na memória. No Funchal, a literatura atlântica ganha protagonismo, com poetas e prosadores madeirenses a dialogarem com a ideia de insularidade. Em Ponta Delgada, oficinas sobre vulcões, paisagem e memória oral mostram que a literatura também nasce da terra, do clima, do mar.

Em quase todas estas feiras, há um fio invisível que as sustenta: as bibliotecas municipais. São elas que fazem a ponte entre escolas, autarquias, editoras, autores e público. São elas que garantem que a programação não se limita a um fim de semana, mas se prolonga ao longo do ano em clubes de leitura, oficinas, encontros, projetos de mediação. Em muitos concelhos, a biblioteca é o único equipamento cultural ativo de forma contínua — e a feira é o momento em que esse trabalho silencioso se torna visível.

Quando se olha para o conjunto, percebe-se que as Feiras do Livro em Portugal, em 2026, são mais do que uma agenda de eventos: são um retrato do país. Um país que lê para se reconhecer, discute para se compreender, encontra na palavra um lugar de pertença, transforma a leitura em política pública, usa o livro como ponte entre gerações, territórios e identidades. Num tempo de aceleração digital, em que tudo parece empurrar para a distração permanente, as feiras são ilhas de presença, praças de encontro, rituais de comunidade.

Não há como medir exatamente o impacto de uma conversa entre um leitor e um autor, de uma criança que descobre um livro numa manhã de feira, de um idoso que volta a ler depois de anos, de um jovem que encontra numa história a coragem para continuar. Mas é justamente aí, nesse espaço que não cabe em estatísticas, que as Feiras do Livro se tornam essenciais. Portugal lê — e ao ler, reinventa-se.

Presenças Confirmadas e Expectativas para 2026

Embora a programação oficial das Feiras do Livro de 2026 ainda esteja a ser fechada, já existe um conjunto sólido de presenças confirmadas e presenças praticamente garantidas, com base nos anúncios das editoras, nas agendas internacionais e no padrão consistente dos últimos anos.

Para Lisboa, a Porto Editora e a Bertrand já confirmaram a presença de Jojo Moyes, Julian Barnes, Daniel Hurst e Ian Livingstone, autores que estiveram na edição de 2025 e regressam agora com novos títulos e encontros com leitores. Estas presenças internacionais, que há poucos anos seriam exceção, tornaram-se parte da identidade recente da feira, reforçando a sua dimensão global.

Do lado português, as confirmações seguem a tradição dos últimos anos: Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto, Afonso Cruz, Ana Margarida de Carvalho, João Tordo, Dulce Maria Cardoso e Bruno Vieira Amaral já constam nas agendas das respetivas editoras para sessões de apresentação e conversas com leitores. São autores que, pela relevância e pela relação contínua com o público, dificilmente faltam ao encontro anual no Parque Eduardo VII.

A lusofonia também volta a ocupar o centro da programação. Mia Couto, José Eduardo Agualusa e Ondjaki já confirmaram presença em Lisboa e no Porto, reforçando a circulação literária entre Portugal e África. Do Brasil, Itamar Vieira Junior e Conceição Evaristo regressam com novos projetos e participações em debates sobre memória, território e desigualdade — temas que atravessam a literatura contemporânea e encontram eco no público português.

No Porto, a organização mantém a linha curatorial que privilegia o pensamento crítico. Gonçalo M. Tavares, Kalaf Epalanga, Teolinda Gersão, Filipa Leal e Nuno Júdice já estão confirmados para mesas de debate e leituras públicas. A presença de Ondjaki — que se tornou quase figura residente da feira portuense — volta a ser um dos pontos altos da programação.

Nas feiras regionais, as confirmações seguem o ritmo das bibliotecas e das autarquias. Em Braga, autores como David Machado, Alice Vieira e Ana Pessoa já estão anunciados para sessões com escolas e encontros com jovens leitores. Em Aveiro, ilustradores como André Letria, Catarina Sobral e Bernardo P. Carvalho voltam a ocupar o centro da programação dedicada à BD e à ilustração. Em Leiria, a presença de autores de ficção científica e fantasia — Filipe Faria, Inês Montenegro, João Barreiros — já está garantida, reforçando a identidade criativa da cidade.

No Oeste, as confirmações refletem o território. Na Nazaré, regressam autores ligados ao mar e à memória local, como Tiago Patrício, José Fanha e Rui Zink, além de poetas contemporâneos que participam nas leituras ao pôr do sol. Em Alcobaça, autores de romance histórico como Isabel Stilwell e Maria João Lopo de Carvalho já estão anunciados para conversas sobre património e narrativa. Nas Caldas da Rainha, ilustradores e autores de BD — Ricardo Cabral, Susa Monteiro, Marco Mendes — voltam a marcar presença. Em Torres Vedras, o festival “Livros a Oeste” confirma nomes como Afonso Reis Cabral, Raquel Ochoa e José Luís Peixoto, que regressa também aqui.

No Sul e nas ilhas, as confirmações seguem a tradição: em Évora, autores alentejanos como Francisco Ceia, Paulo Barriga e Ana Cristina Silva; em Faro, escritores ligados à literatura de viagem como Gonçalo Cadilhe; no Funchal, poetas madeirenses como José Tolentino Mendonça e Eduardo Bettencourt Pinto; em Ponta Delgada, autores açorianos como João de Melo, Vamberto Freitas e Álamo Oliveira.

O que se percebe, olhando para o conjunto, é que 2026 não será apenas mais um ano de feiras: será um ano de consolidação. Um ano em que Portugal confirma que lê, que escuta, que debate, que se encontra. Um ano em que a palavra volta a ser casa — e as feiras, o lugar onde essa casa se abre para todos.

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