Segunda volta em Portugal expõe rutura na direita e testa resistência democrática

Segunda volta em Portugal expõe rutura na direita e testa resistência democrática

Por Palavra Livre 06 de fevereiro de 2026

Portugal chega à segunda volta das eleições presidenciais de 2026 sob dois tipos de tempestade: a meteorológica, que já obrigou ao adiamento da votação em vários concelhos, e a política, que há meses reorganiza o tabuleiro partidário e expõe tensões profundas na direita portuguesa. O confronto entre António José Seguro e André Ventura, marcado para 8 de fevereiro, tornou-se mais do que uma disputa presidencial — é um referendo simbólico sobre os limites da democracia liberal no país.

Segundo dados oficiais da Secretaria‑Geral do Ministério da Administração Interna, mais de 11 milhões de eleitores estão inscritos para votar, num processo que já mobilizou mais de 300 mil pessoas no voto antecipado.

Mau tempo, adiamentos e a disputa pelo discurso da legitimidade

As tempestades que assolam o país provocaram inundações, derrocadas e interrupções de transportes, levando municípios como Alcácer do Sal, Arruda dos Vinhos, Golegã e Pombal a adiar a votação. A Comissão Nacional de Eleições, porém, reafirmou que a lei não prevê um adiamento nacional — apenas ajustes locais quando a segurança e o acesso às mesas de voto estiverem comprometidos.

A divergência entre os candidatos sobre o tema tornou-se um marcador político: Ventura pediu o adiamento geral, alegando que “a última preocupação das pessoas são as eleições”, enquanto Seguro defendeu que a democracia deve funcionar mesmo em condições adversas, com adaptações pontuais.

A disputa pelo discurso da legitimidade — quem defende o povo, quem defende as instituições — tornou-se central nesta reta final.

A direita moderada rompe o silêncio e se posiciona

O movimento mais inesperado desta eleição veio do chamado “espaço não socialista”. Figuras históricas e atuais do PSD, CDS e Iniciativa Liberal declararam apoio explícito a António José Seguro, num gesto que, até poucos anos atrás, seria impensável. Entre os nomes estão António Capucho, Paulo Portas, Carlos Moedas, Rui Moreira, Cecília Meireles, Pacheco Pereira e José Miguel Júdice.

A adesão ganhou peso simbólico quando dois ex‑presidentes da República — Aníbal Cavaco Silva e António Ramalho Eanes — também se posicionaram ao lado do ex‑líder socialista.

A carta aberta assinada por milhares de eleitores “não socialistas”, defendendo a democracia e rejeitando Ventura, ecoa movimentos semelhantes observados em França, Alemanha e Espanha, onde setores conservadores têm se mobilizado para conter a ascensão de forças populistas de extrema‑direita.

Pesquisadores do Instituto de Ciências Sociais (ICS‑ULisboa) têm apontado que este tipo de convergência é cada vez mais comum em democracias pressionadas por discursos iliberais — um “cordão sanitário” que, embora controverso, busca preservar consensos mínimos sobre direitos fundamentais e separação de poderes.

Ventura e o Chega: a força antissistema que reorganiza o campo político

Mesmo sem liderar as sondagens, André Ventura chega à segunda volta com um capital político inédito. O Chega, que em 2019 tinha apenas um deputado, tornou‑se a principal força da oposição em seis anos — um crescimento que acompanha a tendência europeia de fortalecimento de partidos nacionalistas, anti-imigração e anti‑sistema.

Na primeira volta, Ventura obteve 23,5% dos votos. Se agora alcançar entre 35% e 40%, poderá reivindicar a liderança simbólica da direita, ultrapassando o próprio primeiro‑ministro Luís Montenegro, que governa com 32% obtidos nas legislativas de 2025.

Analistas internacionais, como os do The Guardian e do El País, têm observado que Ventura replica estratégias retóricas de líderes como Giorgia Meloni, Marine Le Pen e Santiago Abascal:

  • antagonismo permanente entre “povo” e “elites”;
  • foco em minorias como alvo político;
  • promessa de ruptura institucional;
  • narrativa de perseguição quando confrontado por alianças democráticas.

A segunda volta, portanto, não é apenas sobre Belém — é sobre o futuro da direita portuguesa.

Montenegro no fio da navalha

A recusa do primeiro‑ministro Luís Montenegro em apoiar qualquer candidato tornou-se um dos pontos mais tensos da campanha. Deputados do próprio PSD o pressionaram a escolher “entre um democrata e alguém que quer acabar com o regime”.

Montenegro insiste que, por liderar um governo de centro, não deve apoiar nem Seguro nem Ventura. Mas a estratégia tem custos:

  • arrisca alienar a ala moderada, que vê Ventura como ameaça institucional;
  • arrisca perder a ala conservadora, que rejeita qualquer aproximação ao PS;
  • expõe a fragilidade de um governo que tenta equilibrar-se entre dois polos cada vez mais distantes.

Se Seguro vencer, a coabitação promete ser exigente. Saúde e reforma laboral devem ser os primeiros pontos de tensão entre Belém e São Bento.

O que está realmente em jogo

Mais do que escolher um Presidente, Portugal decide agora:

1. Os limites da direita democrática

A adesão de figuras conservadoras a Seguro é um gesto raro e revelador: há valores que, para muitos, não são negociáveis.

2. A força do discurso antissistema

Mesmo derrotado, Ventura pode sair politicamente fortalecido — e isso terá impacto direto nas próximas legislativas.

3. A capacidade das instituições de resistirem à polarização

A segunda volta ocorre num momento em que democracias europeias testam sua resiliência diante de discursos iliberais.

4. A relação entre Belém e São Bento

Uma vitória de Seguro pode significar vigilância reforçada sobre o governo Montenegro, mas também estabilidade institucional — se ambos conseguirem manter o diálogo.

Entre tempestades, a democracia avança

Portugal já enfrentou crises mais profundas. Mas poucas eleições recentes expuseram com tanta clareza as fraturas internas da direita, a força da extrema‑direita e a necessidade de pactos democráticos mínimos.

A segunda volta de 2026 não definirá apenas quem ocupará Belém. Definirá, sobretudo, que tipo de direita Portugal quer ter — e que tipo de democracia o país deseja preservar.

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