🧩 Misoginia em rede: como a engrenagem digital, política e institucional alimenta retrocessos e violência permanente

🧩 Misoginia em rede: como a engrenagem digital, política e institucional alimenta retrocessos e violência permanente

Especialistas alertam para a convergência entre big techs, extrema-direita e políticas regressivas que fragilizam direitos e ampliam riscos para mulheres e pessoas LGBTQIA+

Da Redação Palavra Livre

A escalada de violência contra mulheres e meninas, amplificada por redes sociais e por discursos políticos reacionários, não é um fenômeno isolado. É parte de uma estrutura organizada, com raízes históricas e ramificações tecnológicas, econômicas e legislativas. Reportagem da Agência Brasil mostra como essa engrenagem opera, articulando misoginia digital, recrutamento de jovens, interesses econômicos das big techs e projetos políticos da extrema-direita .

Violência que se repete — e se reinventa
Casos recentes de feminicídio, estupros coletivos e ataques performados em vídeos virais revelam um padrão: a violência não nasce nas redes, mas ganha escala, velocidade e legitimidade nelas.

A socióloga Bruna Camilo lembra que a misoginia é “secular”, mas a internet potencializa essas estruturas. Já o psicólogo Benedito Medrado aponta que a adesão masculina a discursos de ódio cresce em contextos de frustração, isolamento e insegurança, especialmente entre adolescentes.

A “machosfera” — ecossistema de fóruns, canais e grupos misóginos — tem atraído meninos de 12 a 14 anos, segundo a pesquisadora Lola Aronovich, que há anos sofre ataques virtuais e investiga esses ambientes .

Recrutamento, algoritmos e lucro: o papel das plataformas
Pesquisas do NetLab/UFRJ identificaram mais de 130 mil canais misóginos no YouTube, muitos deles disfarçados de conteúdos de autoajuda, finanças ou “melhoria masculina”. A lógica é simples: conteúdos de ódio engajam, e engajamento gera lucro.

A reportagem destaca que plataformas como X (antigo Twitter) têm lideranças alinhadas a projetos políticos de extrema-direita, o que favorece a circulação de discursos misóginos sem moderação proporcional. Aronovich lembra que canais feministas são derrubados por falar de saúde reprodutiva, enquanto canais que defendem violência contra mulheres permanecem ativos .

Quando o retrocesso vira política pública
A engrenagem da misoginia não se limita ao ambiente digital. Ela se articula com projetos legislativos que buscam restringir direitos, silenciar identidades e reforçar papéis de gênero tradicionais.

Exemplos recentes incluem:

  • Debates na Assembleia da República em Portugal sobre o uso de nomes sociais, com tentativas de restringir o direito de pessoas trans e não binárias a serem reconhecidas em instituições públicas. Esses movimentos ecoam estratégias internacionais de deslegitimação de identidades de gênero, frequentemente impulsionadas por grupos conservadores organizados.
  • Propostas de retrocesso em políticas de educação sexual, que buscam censurar conteúdos sobre igualdade de gênero, diversidade e prevenção da violência — justamente os temas que especialistas apontam como essenciais para reduzir vulnerabilidades entre adolescentes.
  • Pressões para limitar direitos reprodutivos, alinhadas a agendas globais da extrema-direita que associam controle dos corpos femininos a projetos de poder.

Esses retrocessos legislativos funcionam como extensão institucional da misoginia digital: reforçam desigualdades, legitimam discursos de ódio e criam ambientes de maior risco para mulheres e pessoas LGBTQIA+.

A violência como projeto político
A reportagem destaca que, desde 2016, com a campanha de Donald Trump, e posteriormente com a ascensão de Jair Bolsonaro, grupos misóginos deixaram o anonimato e passaram a atuar publicamente, articulados com agendas políticas conservadoras .

Segundo a socióloga Bruna Camilo, trata-se de um projeto que defende modelos rígidos de masculinidade, reforça hierarquias de gênero e busca manter o status quo. O controle dos corpos — femininos e dissidentes — é central nessa estratégia.

Misoginia ainda não é crime — e isso tem consequências
Apesar de avanços como a Lei nº 13.642/2018, que permite investigação federal de crimes de ódio contra mulheres na internet, especialistas apontam uma lacuna grave: a misoginia não é tipificada como crime no Brasil. Lola Aronovich questiona:

“O que adianta identificar um agressor como misógino se isso não pode ser tipificado como crime?”

A ausência de tipificação alimenta a sensação de impunidade e fortalece redes de ódio.

Caminhos possíveis: educação, regulação e responsabilização
Especialistas convergem em três frentes:

1) Educação e diálogo com meninos e adolescentes
Construção de autoestima, alfabetização digital e espaços de diálogo são essenciais para reduzir vulnerabilidades.

2) Regulação das plataformas
A reportagem da Ag. Brasil questiona por que o parlamento ainda não convocou big techs para explicar algoritmos que amplificam ódio. Sem regulação, a engrenagem continua funcionando.

3) Fortalecimento institucional
Leis, políticas públicas e mecanismos de responsabilização precisam acompanhar a velocidade da violência digital.

Coragem
A misoginia contemporânea é um sistema, não um conjunto de casos isolados. Ela opera em múltiplas camadas — emocional, econômica, tecnológica e política — e se alimenta de retrocessos legislativos, discursos de ódio e omissões institucionais.

Enfrentá-la exige coragem política, responsabilidade das plataformas, educação transformadora e compromisso social com a igualdade.

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