“Cuidar é estar presente quando ninguém mais está”
Por Salvador Neto
O cuidador que sustenta o invisível
Rafael tem 32 anos, vive em São Paulo e trabalha como cuidador há sete. Começou por necessidade — a avó adoeceu, a mãe não podia largar o trabalho, e ele assumiu. Depois, não parou mais. Hoje, cuida de três idosos em dois turnos diferentes, com pausas curtas e deslocações longas. Ganha pouco, dorme menos ainda, mas não pensa em desistir. “Eu achava que sabia o que era cuidar”, diz. “Mas cuidar profissionalmente é outra coisa. É físico, emocional, mental. E quase sempre é solitário.”
O corpo que carrega o sistema
Rafael descreve o cuidado como uma maratona silenciosa. “Você levanta alguém da cama, dá banho, troca fralda, prepara comida, escuta histórias, administra remédio, acalma crises. E faz tudo isso com afeto, porque sem afeto não funciona.”
Ele já teve crises de coluna, insónias, ansiedade. “Tem dia que eu chego em casa e não consigo falar. Só fico quieto. Porque o silêncio dos outros vira o seu.”
A ausência de estrutura
Pergunto sobre formação. Rafael ri. “Formação? Eu aprendi tudo na prática. Depois fiz um curso rápido, mas ninguém ensina o que fazer quando uma pessoa chora sem saber por quê. Ou quando ela te chama pelo nome do filho que morreu.”
Ele fala de colegas que desistiram, de famílias que não sabem como ajudar, de idosos que esperam por visitas que nunca chegam. “O problema não é falta de amor. É falta de estrutura.”
O que ele viu — e nunca esqueceu
Rafael visitou uma iniciativa em Minas Gerais: uma república de idosos gerida por uma ONG. Casas pequenas, cuidadores residentes, voluntários, autonomia. “Quando entrei lá, parecia que eu estava a ver o futuro. Tinha cheiro de casa, não de hospital.”
Ele viu idosos a cozinhar juntos, a cuidar de plantas, a conversar na varanda. “Eu pensei: por que não é tudo assim?”
O que ele espera
“Eu não quero muito”, diz Rafael. “Quero que cuidadores sejam vistos. Que tenham formação, salário justo, apoio psicológico. Que os idosos tenham escolha. Que o cuidado seja humano.” Ele faz uma pausa. “Porque cuidar é estar presente quando ninguém mais está. E isso devia valer alguma coisa.”






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