Habermas: a voz que se calou, mas que continua a falar dentro de nós

Habermas: a voz que se calou, mas que continua a falar dentro de nós

Por Salvador Neto

Jürgen Habermas morreu a 14 de março de 2026, em Starnberg, aos 96 anos. A notícia caiu como um silêncio pesado sobre quem, ao longo de décadas, encontrou na sua obra uma bússola para compreender o mundo. Não era apenas um filósofo que partia. Era um dos últimos defensores da palavra num tempo em que as máquinas aprenderam a falar mais alto do que nós.

Para mim, a morte de Habermas não é apenas um acontecimento distante. É quase uma dobra no tempo. Volto imediatamente às salas de aula da universidade, às mesas compridas, aos livros sublinhados, às discussões que se estendiam para além do horário. Lembro-me de como os seus textos nos obrigavam a pensar devagar, a desmontar conceitos, a perceber que comunicar não era apenas transmitir — era construir sentido. Ali, entre colegas e professores, aprendi que a comunicação podia ser um ato ético. E foi ali que Habermas deixou de ser apenas bibliografia e passou a ser companhia intelectual.

O filósofo que acreditava na palavra — e que fez da palavra uma ética
Habermas nasceu com uma fenda palatina, operada na infância, que marcou a sua relação com a fala. Talvez por isso tenha dedicado a vida inteira à comunicação linguística. Para ele, falar era um gesto de responsabilidade. Ouvir, um gesto político. E compreender, um exercício de humanidade.

Nas aulas, quando discutíamos o agir comunicativo, percebíamos que não era apenas teoria. Era um convite. Um desafio. Uma forma de estar no mundo. Habermas dizia-nos, sem nos conhecer, que comunicar podia ser mais do que disputar atenção — podia ser procurar entendimento. E essa ideia, tão simples e tão difícil, moldou o meu olhar sobre o jornalismo e sobre a vida pública.

A esfera pública que se fragmentou — e o aviso que ele deixou
Habermas descreveu a esfera pública como um espaço de encontro, debate e vigilância democrática. Hoje, esse espaço parece um labirinto de ruído. Os algoritmos decidiram o que vemos, o que ignoramos, o que nos indigna. A praça pública tornou-se um mosaico de bolhas que raramente se tocam.

Ele não viveu para ver o auge da desinformação algorítmica, mas viu o suficiente para perceber que o seu alerta se tornara profecia. Quando a comunicação deixa de ser orientada para o entendimento, o espaço comum implode. E é difícil não ver essa implosão nos nossos dias.

O jornalismo como último reduto do entendimento
Para quem estudou comunicação social, como eu, Habermas não é apenas um autor. É um marco. Um daqueles nomes que nos acompanha para fora da universidade, que se infiltra no modo como escrevemos, ouvimos, perguntamos. Ele ensinou-nos que informar não é despejar dados, mas criar condições para que a sociedade pense.

Num tempo em que a velocidade substituiu a profundidade e a emoção substituiu o argumento, o jornalismo que resiste à lógica algorítmica é quase um ato de rebeldia. É remar contra a maré — e continuar a remar mesmo quando a maré parece infinita.

Uma despedida que é também um regresso
A morte de Habermas devolve-me às aulas, aos debates, às primeiras leituras que me abriram portas para compreender o mundo mediático. E devolve-me também a uma responsabilidade: a de manter viva a possibilidade do diálogo. A de reconstruir a esfera pública palavra a palavra. A de recusar a transformação da comunicação em espetáculo.

Habermas partiu, mas deixou-nos uma herança incômoda e luminosa: a ideia de que a democracia depende da qualidade da nossa conversa. Talvez a melhor homenagem que lhe podemos fazer seja esta: continuar a falar — e a ouvir — como se o futuro dependesse disso. Porque depende.


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