- Da Redação/Samir Costa
Com apenas três livros com menos de 400 páginas publicadas, Raduan Nassar tornou-se um dos nomes mais densos e influentes da literatura brasileira contemporânea. Em 27 de novembro 2025, celebrou-se não apenas os seus 90 anos de vida, mas também os 50 anos da publicação de “Lavoura Arcaica”, obra inaugural que redefiniu o romance nacional.
Um percurso de rupturas
Filho de imigrantes libaneses, nascido em Pindorama (SP), Raduan estudou Filosofia na USP e fundou, com os irmãos, o Jornal do Bairro, de oposição à ditadura militar. Em 1973, abandonou o jornalismo e mergulhou na literatura. “Lavoura Arcaica” nasceu em jornadas de 12 horas por dia, durante oito meses. Publicado em 1975, foi imediatamente reconhecido como obra-prima.
Três livros, uma revolução
Além de “Lavoura Arcaica”, publicou “Um Copo de Cólera” (1978) e “Menina a Caminho” (1997). Esta última, escrita nos anos 1960, revela o ciclo ouroboros da sua obra: fim e começo entrelaçados. A totalidade da produção literária de Raduan não ultrapassa 400 páginas, mas é comparável à de Clarice Lispector e Guimarães Rosa.
Entre coelhos e filosofia
Após estudar alemão em Lüneburg, na Alemanha Ocidental, Raduan voltou ao Brasil e dedicou-se à criação de coelhos, presidindo a associação nacional da espécie. Abandonou a atividade em 1967, como faria com o jornalismo, a literatura e a agricultura.
A fazenda como gesto político
Em 2007, doou a Fazenda Lagoa do Sino (460 hectares) à Universidade Federal de São Carlos, exigindo que se tornasse campus de ciências agrárias. Recusou vaidade e declarou: “apenas devolvo para a comunidade o que dela recebi”.
Prêmios e ironia
Recebeu o Jabuti, o Coelho Neto e o Prémio Camões. Sobre este último, comentou: “não entendi esse prêmio. Minha obra é um livro e meio”.
Cinema e silêncio
Suas obras foram adaptadas com sucesso para o cinema. “Lavoura Arcaica” (2001) e “Um Copo de Cólera” (1999) mantêm a densidade original. Um terceiro filme, “As três batalhas”, está em desenvolvimento — baseado num conto que nunca foi escrito.
O escritor que não escreve
Desde 1984, Raduan não publica. Segundo Milton Hatoum, o autor teria dito: “a fonte secou”. Recluso, tornou-se o epílogo da própria obra: não mais autor, nem personagem — apenas enigma.
Ativismo e resistência
Recusou cargos durante a ditadura, denunciou o impeachment de Dilma Rousseff como golpe de Estado e esteve ao lado de Lula em momentos decisivos. Sua voz, mesmo rara, permanece como gesto político. Raduan Nassar, aos 90, é mais que escritor: é silêncio que resiste, gesto que devolve, nome que permanece.






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