Por Salvador Neto – Artigo de Opinião
O assassinato brutal do cachorro Orelha, torturado e morto por jovens de famílias ricas em Santa Catarina, não é um caso isolado. É o sintoma mais visível de um estado que vem perdendo, dia após dia, a sua bússola moral. A crueldade filmada, exibida e celebrada por quem sempre acreditou estar acima da lei revela uma sociedade que se acostumou ao privilégio, à violência e à impunidade.
Orelha não morreu sozinho. Ele foi morto dentro de um contexto social que legitima a brutalidade, que normaliza o ódio e que trata empatia como fraqueza. E isso precisa ser dito com todas as letras.
Um estado que se desumaniza
Santa Catarina vem acumulando indicadores que desmontam qualquer narrativa de “estado modelo”.
Feminicídios e violência de gênero
Em 2023, o estado registrou um feminicídio a cada 10 dias, segundo a Secretaria de Segurança Pública. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que SC tem uma das maiores proporções de agressões domésticas cometidas por homens jovens de classe média e alta.
A mesma lógica que mata mulheres — poder, posse, impunidade — é a que permitiu que Orelha fosse torturado.
Células neonazistas em expansão
Pesquisas da UFSC e dados citados pelo Ministério da Justiça mostram que Santa Catarina concentra cerca de 60% das células neonazistas identificadas no Brasil. Entre 2019 e 2023, esses grupos cresceram mais de 300% no estado.
Não é coincidência. É consequência.
Violência contra animais
O Brasil registrou mais de 40 mil denúncias de maus-tratos a animais em 2023, segundo o Ministério dos Direitos Humanos. SC aparece repetidamente entre os estados com maior número proporcional de casos.
Orelha é mais um nome numa lista que cresce porque a punição é rara — e, quando envolve elites, quase inexistente.
O ataque às cotas: o elitismo como política de Estado
A tentativa recente de retirar as cotas no acesso ao ensino superior em Santa Catarina não é um detalhe administrativo. É um projeto ideológico. Acabar com cotas significa:
- negar desigualdades históricas;
- reforçar privilégios raciais e econômicos;
- excluir jovens pobres, negros e indígenas;
- perpetuar a lógica de que o estado existe para proteger os mesmos de sempre.
É a institucionalização do elitismo. É a negação da diversidade. É a recusa da justiça social. E tudo isso dialoga com o caso Orelha: uma sociedade que não reconhece a dignidade humana dificilmente reconhecerá a dignidade animal.
Elites que se calam — e, ao se calarem, consentem
O silêncio das elites políticas, empresariais e culturais de Santa Catarina diante do assassinato de Orelha é revelador. Quando os autores pertencem às classes altas, a reação institucional é mais lenta, mais tímida, mais cautelosa. Esse silêncio não é neutro. É cumplicidade.
Um ambiente político que normaliza o ódio
O ambiente político catarinense dos últimos anos tem sido marcado por:
- desinformação;
- ataques a instituições;
- discursos agressivos;
- relativização da violência;
- hostilidade contra minorias;
- desprezo por políticas de inclusão.
Esse clima não cria monstros — mas legitima os que já existem. Ele dá permissão. Ele dá palco. Ele dá aplauso.
Orelha como síntese de um estado adoecido
O assassinato de Orelha reúne, num único episódio, todos os elementos que vêm corroendo Santa Catarina:
- elitismo violento;
- impunidade estrutural;
- machismo e misoginia;
- racismo e neonazismo;
- ataque às políticas de inclusão;
- desinformação institucional;
- desumanização crescente.
Não é apenas sobre um cachorro. É sobre o que Santa Catarina está se tornando.
Minha indignação — e um chamado à razão
Como catarinense, como jornalista, como ser humano, estou indignado. Indignado com a crueldade. Indignado com a impunidade. Indignado com o silêncio dos que deveriam liderar. Indignado com a naturalização do ódio.
Mas indignação não basta. É preciso reação.
Santa Catarina precisa olhar para si mesma com coragem. Precisa admitir que está adoecida. Precisa enfrentar seus monstros — os visíveis e os invisíveis. Precisa escolher entre civilização e barbárie.
Orelha não pode ter morrido em vão. Que a sua morte seja o limite. Que seja o basta. Que seja o ponto de virada. Porque, se nem isso nos fizer despertar, nada mais fará.






Deixe um comentário