As estreias do mês revelam a força das grandes narrativas — e a necessidade de olhar para além delas
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Março chega com uma lista robusta de lançamentos que prometem ocupar salas, plataformas e conversas. A BBC destacou dez filmes que vão dominar o circuito comercial — de Peaky Blinders: O Homem Imortal ao novo trabalho de Julia Ducournau — num panorama que confirma a vitalidade da indústria, mas também a sua previsibilidade. Entre continuações, adaptações literárias e universos já consolidados, o mês expõe uma tensão antiga: o cinema que se repete e o cinema que arrisca.
A seguir, o Palavra Livre apresenta uma leitura crítica das estreias mais comentadas e, sobretudo, propõe caminhos alternativos para quem procura obras que escapam ao óbvio.
As estreias que chegam com força
Peaky Blinders: O Homem Imortal
O universo de Tommy Shelby migra para o cinema num capítulo situado na Segunda Guerra Mundial, com Cillian Murphy retomando o papel que o transformou em ícone. O filme promete fechar um ciclo narrativo longo, ainda que o criador Stephen Knight não confirme se este é o fim definitivo .
Hoppers (Pixar)
A Pixar revisita a tradição dos “animais falantes” com uma premissa que mistura humor, distopia e crítica ambiental. A crítica internacional descreve o filme como ousado e emocionalmente ambivalente .
O Bom Menino
Um thriller britânico de humor negro que dialoga com Laranja Mecânica e Pigmalião, explorando violência, moralidade e manipulação. A crítica destaca o desconforto calculado e a imprevisibilidade das cenas .
A Noiva! (Maggie Gyllenhaal)
Uma das estreias mais interessantes: Gyllenhaal revisita A Noiva de Frankenstein para devolver voz e protagonismo à personagem silenciada no clássico de 1935. Jessie Buckley e Christian Bale lideram um filme que mistura gangsters, cor e reinvenção feminina .
Saipan
Comédia dramática sobre o caos nos bastidores da seleção irlandesa antes da Copa de 2002. Humor, política e memória desportiva num filme que ultrapassa o nicho do futebol .
Lembranças Dele (Colleen Hoover)
Mais uma adaptação literária de Hoover, centrada em trauma, maternidade e reconciliação. A autora esteve envolvida diariamente nas filmagens, o que deve agradar aos fãs .
Marc by Sofia (Sofia Coppola)
Documentário íntimo sobre Marc Jacobs, construído como um “mood board em movimento”, segundo a crítica. Um mergulho sensorial no processo criativo do estilista .
Ready or Not 2: Here I Come
Terror satírico sobre jovens mulheres enfrentando milionários satanistas — um subgénero que se consolida como crítica social em forma de espetáculo .
Project Hail Mary
Sci-fi de grande orçamento com Ryan Gosling, centrado em isolamento, ciência e um improvável encontro alienígena. A produção destaca-se pela complexidade técnica das cenas em gravidade zero .
Alpha (Julia Ducournau)
A obra mais divisiva da lista: uma fábula apocalíptica sobre uma adolescente, um vírus que transforma corpos em pedra e a fragilidade das relações familiares. Críticos descrevem o filme como visceral, inquietante e único .
O que estas estreias revelam sobre o cinema de hoje
- A força das franquias: universos já conhecidos continuam a dominar o mercado.
- A reinvenção de mitos: A Noiva! e Project Hail Mary mostram como o cinema atual revisita tradições para criar novas leituras.
- O corpo como território político: de Ducournau a Komasa, o corpo é espaço de conflito, medo e transformação.
- A memória como narrativa: Saipan e Marc by Sofia tratam o passado como matéria viva.
Para além do óbvio: recomendações Palavra Livre
Para o leitor que procura cinema como linguagem, risco e descoberta, reunimos obras recentes que escapam ao circuito comercial e dialogam com temas urgentes — memória, território, identidade, silêncio, pertença.
- La Chimera (Alice Rohrwacher, 2023) — Uma fábula arqueológica sobre perda, clandestinidade e o desejo de recuperar o que o tempo levou.
- Godland (Hlynur Pálmason, 2022) — Um padre atravessa a Islândia do século XIX; cinema de paisagem, brutalidade espiritual e silêncio.
- Pacifiction (Albert Serra, 2022) — Um comissário francês em colapso num paraíso colonial; hipnose política e estética.
- A Metamorfose dos Pássaros (Catarina Vasconcelos, 2020) — Documentário-poema português sobre família, perda e imaginação.
- Aftersun (Charlotte Wells, 2022) — Um pai e uma filha num resort barato; cinema íntimo e devastador.
- O Que Arde (Oliver Laxe, 2019) — Um incendiário regressa à aldeia natal; pertença, culpa e a violência da natureza.
- Memoria (Apichatpong Weerasethakul, 2021) — Tilda Swinton numa meditação sensorial sobre som, trauma e tempo.
Estas obras não competem com o espetáculo das grandes estreias — oferecem outra coisa: profundidade, estranhamento, silêncio, risco.
Um gesto de resistência
Em março, o cinema oferece tanto o conforto das narrativas conhecidas quanto a vertigem das obras que recusam fórmulas. Cabe ao espectador — e às instituições culturais — manter vivo o gesto de procurar o que não está na superfície. Porque, muitas vezes, é no cinema menos visível que encontramos o que ainda não sabíamos que precisávamos ver.






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