Entrelaçamentos: quando a vida insiste em unir histórias

Entrelaçamentos: quando a vida insiste em unir histórias

Há amizades que nascem de encontros. E há amizades que nascem de destinos — desses que vão alinhando vidas muito antes de qualquer abraço.

A minha com Mário Cézar da Silveira é assim. Antes mesmo de nos conhecermos, nossas mães já dividiam salas de aula, cadernos corrigidos e o mesmo ideal de educação pública. E havia ainda outro elo silencioso: crescemos na mesma rua, a João Pinheiro, onde famílias se cruzavam como se o bairro inteiro fosse uma extensão da casa.

Mário sempre foi isso e muito mais. Arquiteto, escritor, multiartista, ativista, inquieto, generoso — um desses espíritos que parecem carregar um chamado. Casou-se com Célia, também moradora da João Pinheiro, e seguiu o mundo: Belo Horizonte, Manaus, até retornar a Joinville. Eu acompanhava tudo pelas histórias do Cláudio, seu irmão e meu parceiro de tantas noites.

No início dos anos 2000, finalmente nos cruzamos. Ele já era um defensor incansável dos direitos das pessoas com deficiência. Eu, jornalista e assessor, acompanhava suas iniciativas, ajudava a amplificar sua voz, aprendia com sua coragem. Mário e Célia são pais da Carolina, que nasceu com paralisia cerebral. Toda a vida deles era — e é — dedicada a garantir a ela dignidade, oportunidades, futuro.

Um dia, ele estacionou o carro, desceu e me disse: “Estou escrevendo um livro. Quero que você leia.” Li o manuscrito. E percebi que não havia nada a corrigir. O texto estava inteiro, verdadeiro, pulsante. Eu apenas disse: “Não mexe. Está tudo aqui.”

Nasceu “a.C. d.C. – Antes da Carolina e Depois da Carolina”, que se tornou referência nacional. Não fui coautor — fui leitor, testemunha, amigo. E isso sempre bastou.

A foto que guardo — a mesma que inspira este texto — registra o dia em que ele me trouxe um exemplar autografado em Florianópolis, onde eu vivia então. Uma honra. Um gesto que carrega história, afeto e reconhecimento.

Quando tive o AVC, em 2023, Mário não hesitou: criou uma vaquinha para ajudar nas despesas, mobilizou pessoas, fez o que sempre fez — colocou a inclusão e o cuidado no centro. Ele seguiu escrevendo. Livros sobre Alzheimer, Autismo, literatura infantil. Sempre inclusão. Sempre humanidade. Sempre à frente.

E agora, em 18 de abril, nossos caminhos se reencontraram de forma digital e simbólica. A convite da Biblioteca Municipal da Nazaré, pela coordenação de Madalena Amorim — e por minha indicação — Mário participou por vídeo, diretamente de Joinville, num evento inteiramente dedicado à inclusão e ao Autismo.

Eu, em Portugal, vivi ali um momento que nunca esquecerei: foi a primeira vez, desde o AVC, que voltei a moderar um evento. Para mim, também foi inclusão. Foi retorno. Foi renascimento. Ao lado da amiga Ana Jaqueline, mediamos o conversaTório. E Mário encantou — como sempre.

O que é esse entrelaçamento de vidas, causas e caminhos senão obra do universo Uma amizade que não se explica — apenas se reconhece.

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