Editorial – Quando a soberania é ferida por dentro: a família Bolsonaro e o limite constitucional da traição

Editorial – Quando a soberania é ferida por dentro: a família Bolsonaro e o limite constitucional da traição

Com Jair Bolsonaro preso e condenado, e seus filhos buscando apoio externo enquanto atacam instituições brasileiras, o país revisita os fundamentos constitucionais que protegem a pátria contra atos de traição.

O Brasil já conheceu traidores antes. A história registra seus nomes com a frieza que merecem. Não foram opositores legítimos, nem críticos severos, nem dissidentes. Foram aqueles que, diante de crises, escolheram alianças externas, grupos armados ou interesses privados em vez do país. E é impossível não lembrar deles quando se observa o percurso recente da família Bolsonaro — agora com Jair preso e condenado por múltiplos crimes, enquanto seus filhos continuam a operar como se a Constituição fosse um detalhe descartável.

Flávio Bolsonaro, pressionado por investigações que vão das rachadinhas à lavagem de dinheiro, passando por homenagens a milicianos e relações com o Escritório do Crime, decidiu viajar a Washington para pedir que os Estados Unidos designassem o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. À primeira vista, um gesto de “firmeza”. Na prática, um movimento que abre brecha para que uma potência estrangeira reivindique autoridade sobre o território brasileiro. É o tipo de pedido que nenhum parlamentar de um país soberano faz sem estremecer. E Flávio não estremeceu.

Eduardo Bolsonaro, por sua vez, já havia pavimentado esse caminho. Foi ele quem defendeu alinhamento automático com Washington, quem flertou com a ideia de um “novo AI-5”, quem se reuniu com grupos extremistas nos EUA, quem estimulou teorias conspiratórias que alimentaram a tentativa de golpe de 8 de janeiro. Foi ele quem, em plena crise institucional, buscou apoio externo para legitimar narrativas que não encontravam respaldo dentro do Brasil. A família inteira, cada um à sua maneira, operou como se a lealdade institucional pudesse ser terceirizada.

E tudo isso acontece enquanto o país ainda tenta compreender como Flávio Bolsonaro, que atacava o Banco Master em público, chamava o dono do banco de “irmão” em privado, enquanto pedia dinheiro para financiar um filme político nos Estados Unidos. As mensagens recuperadas pela perícia mostram um político que não apenas se contradiz, mas que opera num sistema paralelo, onde o interesse público é apenas um detalhe incômodo.

Esse padrão não é novo. Jair Bolsonaro condecorou Adriano da Nóbrega, miliciano de alta patente, mesmo depois de investigações apontarem seu envolvimento em execuções. Flávio empregou a mãe e a esposa de Adriano em seu gabinete. A família inteira manteve relações com figuras que orbitavam o crime organizado do Rio. E quando o país viveu a tentativa de golpe, com militares omissos, policiais coniventes e financiadores ocultos, não foi surpresa que tantos fios levassem ao mesmo núcleo político.

A Constituição brasileira é explícita sobre atos que atentam contra o país. O artigo 1º estabelece a soberania como fundamento da República — não como palavra bonita, mas como cláusula pétrea, limite inegociável. O artigo 4º determina que o Brasil rege suas relações internacionais pela não intervenção, pela autodeterminação dos povos e pela igualdade entre os Estados — princípios frontalmente contrariados quando um senador pede que outro país declare grupos internos como terroristas.

O artigo 5º, XLIV, define que a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado democrático é crime inafiançável e imprescritível. O artigo 85 descreve como crime de responsabilidade qualquer ato que atente contra a existência da União, o livre exercício dos poderes, a segurança interna, a probidade administrativa e o cumprimento das leis. E o artigo 142, tantas vezes distorcido, reafirma que as Forças Armadas existem para defender a pátria, não para servir a projetos pessoais ou aventuras golpistas.

Ulisses Guimarães, ao promulgar a Constituição em 1988, disse que ela seria “a Constituição cidadã” e que o Brasil não toleraria mais “a traição à pátria, a violência contra o povo, o desprezo pela democracia”. Ele sabia que o país precisaria de uma muralha contra aventureiros. Ele sabia que a democracia brasileira seria testada. Ele sabia que, um dia, alguém tentaria mudar a bandeira do país.

Quando um agente público, investigado por lavagem de dinheiro, rachadinhas e ligações com milicianos, viaja ao exterior para solicitar que outro governo declare organizações brasileiras como terroristas, ele não está defendendo o Brasil. Está defendendo a si mesmo. Está buscando proteção, influência, narrativa. Está deslocando a lealdade institucional para fora das fronteiras nacionais. Está dizendo, sem dizer: “Se o Brasil não me protege, talvez outro país proteja”.

E isso, Salvador, é o que define um traidor na história brasileira. Não o opositor político, não o crítico, não o dissidente — mas o agente público que, pressionado por investigações, decide entregar parte da soberania nacional em troca de conveniência pessoal.

O Brasil já viu esse filme. Ele começa com discursos de ordem, passa por alianças com grupos armados, avança para ataques às instituições, flerta com golpes, e termina com a perda de autonomia. A América Latina inteira conhece esse roteiro. E nenhum país que o seguiu saiu maior do que entrou.

O Brasil precisa dizer basta. Precisa reafirmar que sua segurança é assunto seu. Que seus problemas se resolvem dentro de casa. Que sua soberania não está à venda — nem para banqueiros, nem para milicianos, nem para governos estrangeiros. E que nenhum senador, por mais barulhento que seja, tem autorização para mudar a bandeira do país.

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