Como a FIFA se vendeu e os EUA transformaram o Mundial em arma política
A Copa de 2026 expõe um futebol morto, sequestrado por dinheiro, fronteiras militarizadas e um neofascismo higienizado que a FIFA ajuda a legitimar.
A Copa do Mundo de 2026 prometia unir três países, três culturas, três geografias. Mas a promessa morreu na fronteira. O que se vê, como revela a matéria da Al Jazeera, é um torneio partido ao meio por um muro que não separa apenas territórios: separa pessoas, separa direitos, separa quem pode existir e quem deve ser barrado.
A fronteira dos Estados Unidos, militarizada, vigiada, transformada em espetáculo, tornou-se o verdadeiro protagonista do Mundial. O futebol, esse mito global de festa e encontro, desapareceu. O que resta é dinheiro, controle e política — política da pior espécie.
A FIFA, que deveria proteger o jogo, tornou-se cúmplice. Não é exagero: é constatação. A entidade que um dia se apresentou como guardiã do futebol hoje age como operadora de negócios, negociando legitimidade com governos autoritários, distribuindo prêmios inventados, vendendo o Mundial como se fosse um produto de luxo para poucos.
O episódio mais simbólico é quase uma caricatura: Gianni Infantino criou um “Prêmio da Paz” para entregá-lo a Donald Trump, o mesmo Trump que, segundo a reportagem, apoiou ofensivas militares, sequestrou líderes estrangeiros e alimentou conflitos que devastaram regiões inteiras. A FIFA não apenas tolera o autoritarismo — ela o celebra, o premia, o transforma em marketing.
Enquanto isso, a Copa se desenrola como um teatro de exclusão. Árbitros barrados, torcedores haitianos proibidos de entrar, funcionários iranianos impedidos de obter visto, seleções obrigadas a se instalar no México e cruzar a fronteira apenas para jogar, como se fossem suspeitos, não atletas. A política migratória dos EUA tornou-se regra do torneio. O muro virou árbitro. O deserto virou sala de espera. A humilhação virou protocolo.
O México vive a contradição de sediar jogos enquanto enfrenta uma crise humanitária profunda, com desaparecimentos em massa e violência estrutural. O Canadá, sempre posando de vizinho civilizado, participa do Mundial enquanto mantém alianças militares e diplomáticas que o colocam no mesmo tabuleiro de interesses. A Copa, portanto, não é um evento esportivo: é um mapa político, onde cada país joga para si, e o futebol é apenas figurante.
O que emerge desse cenário é um retrato brutal: o futebol morreu. Não há jogo, não há magia, não há cultura popular. Há apenas a sua carcaça — útil para vender ingressos de dez mil dólares, enquanto migrantes pagam os mesmos dez mil a coiotes para atravessar a fronteira que o Mundial tenta maquilhar. A desigualdade não é um efeito colateral: é o centro da narrativa. A violência não é exceção: é método. A xenofobia não é desvio: é política pública.
A Copa de 2026 expõe um neofascismo higienizado, institucional, legitimado por contratos, discursos e prêmios. Um autoritarismo que não precisa de botas, porque tem vistos, muros, drones, deportações e a chancela da FIFA. Um autoritarismo que se apresenta sorrindo, posando para fotos, falando em paz enquanto empurra milhares para a miséria, para o deserto, para o mar, para a morte.
E é aqui que o jornalismo precisa entrar. Não para comentar resultados — porque não há resultados que importem — mas para revelar o que está por trás do espetáculo. A Copa não é sobre gols. É sobre fronteiras. É sobre quem pode circular e quem deve ser contido. É sobre quem é celebrado e quem é descartável. É sobre o que acontece quando o futebol deixa de ser jogo e passa a ser instrumento de poder.
A fronteira dos Estados Unidos corta o Mundial porque corta o mundo. Corta vidas, sonhos, dignidade. Corta a própria ideia de humanidade. E diante disso, calar é ser cúmplice. A FIFA pode continuar vendendo slogans vazios. Os governos podem continuar usando o torneio como vitrine. Mas o jornalismo — o jornalismo que ainda acredita na verdade, na justiça, na memória — precisa dizer o que está diante de todos: esta Copa não é festa. É denúncia. É sintoma. É alerta.
E talvez seja, também, o último aviso de que, se nada mudar, o futebol não voltará. Porque o futebol, esse que conhecemos, esse que unia povos, já não existe. O que existe é dinheiro, propaganda e poder. E um muro — sempre um muro — atravessando tudo.






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