Ensaio sobre a Cegueira é um daqueles romances que ultrapassam a literatura e entram no território das advertências morais. Para o Palavra Livre, um texto editorial precisa ir além da resenha: deve interpretar o gesto político, ético e humano que Saramago inscreve na narrativa. É isso que faço a seguir.
A cegueira como diagnóstico social
A epidemia branca que assola a cidade não é apenas um artifício narrativo. É um diagnóstico. Saramago sugere que a verdadeira cegueira não é a perda da visão, mas a incapacidade de reconhecer o outro como igual. A sociedade que colapsa no romance não cai por falta de luz, mas por falta de empatia. A cegueira é, portanto, um espelho: devolve-nos aquilo que preferimos não ver.
O colapso das instituições
O romance expõe a fragilidade das estruturas que sustentam a vida coletiva. Quando a epidemia se instala, o Estado reage com medo, improviso e violência. A ordem pública transforma-se em contenção militar, e o manicómio — espaço de exclusão — torna-se metáfora da gestão autoritária da crise. Saramago não descreve apenas um desastre; descreve a rapidez com que o poder abandona a ética quando confrontado com o pânico.
A mulher do médico: visão como responsabilidade
A única personagem que não perde a visão é também a única que não abdica da humanidade. A mulher do médico não é heroína no sentido clássico; é testemunha. Carrega o peso de ver o que os outros não podem — ou não querem — ver. A sua lucidez é dolorosa, mas necessária. Ela encarna a ideia de que ver implica agir, cuidar, resistir. É a consciência moral do romance.
A parábola do nosso tempo
Embora publicado em 1995, o livro parece escrito para o século XXI. A cegueira coletiva — política, ética, informacional — tornou-se parte do quotidiano. Vivemos rodeados de estímulos, mas raramente vemos. Saramago antecipa a erosão da confiança pública, a manipulação das massas, a normalização da violência e a facilidade com que o medo reorganiza sociedades inteiras.
O romance funciona como alerta: quando deixamos de ver o outro, deixamos de ver a nós mesmos.
O legado de Saramago
Ensaio sobre a Cegueira permanece como uma das obras mais contundentes da literatura contemporânea. Não porque descreve um apocalipse, mas porque revela o que está sempre à beira de acontecer quando a ética se torna opcional. É um livro que incomoda — e deve incomodar. A sua força está na capacidade de transformar uma ficção extrema numa reflexão urgente sobre o presente.
📘 Ensaio sobre a Cegueira — Ficha Técnica
- Título: Ensaio sobre a Cegueira
- Autor: José Saramago
- Primeira edição: 1995
- Editora original: Caminho
- Género: Romance; alegoria social; distopia ética
- Prémios relacionados:
- José Saramago recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1998, com forte reconhecimento internacional também por esta obra.






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