- Por Salvador Neto
Há viagens que começam muito antes da partida. A minha, rumo a Santiago, começou silenciosamente há 15 anos quando estudei o Caminho, e hoje cá em Portugal entre Alcobaça e Nazaré, nos passos curtos e calculados que dou todos os dias. Não é uma preparação épica, nem romântica. É real. É lenta. É minha.
O Caminho de Santiago sempre me fascinou, não pela grandiosidade histórica, mas pela simplicidade humana que o sustenta: pessoas que caminham porque precisam, porque procuram, porque querem reencontrar algo que talvez nem saibam nomear. Eu caminho porque quero continuar.
A mobilidade reduzida, a bengala que me acompanha, os calos que denunciam o esforço, as dores que surgem sem aviso, tudo isso faz parte da equação. Não escondo, não disfarço, não diminuo. O corpo conta a sua história, e eu aprendi a escutá-lo. Mas é precisamente por isso que esta aventura faz sentido: porque não é fácil.
Os primeiros passos são sempre os mais reveladores. Não são passos de estrada; são passos de decisão. O momento em que se diz: “Sim, eu vou.” E depois, inevitavelmente, o momento seguinte: “Como é que eu me preparo?”
A preparação para o Caminho não é apenas física. É também emocional, logística, espiritual, prática. É aceitar que o ritmo será o meu, nem o dos outros, nem o idealizado. É compreender que cada etapa será uma vitória, e que cada dor será apenas mais uma parte da narrativa. E é perceber que o Caminho não é uma prova de força, mas de vontade.
Entre maio e junho de 2027, quero estar na estrada. Quero sentir o peso da mochila, o toque da bengala na terra, o cheiro da manhã fria, o silêncio das primeiras horas. Quero ver o horizonte abrir-se à minha frente, mesmo que eu avance devagar. Quero chegar a Santiago mas, acima de tudo, quero caminhar até mim.
Esta crónica é o início dessa travessia. Um compromisso público, mas também íntimo. Um testemunho de que recomeçar é possível, mesmo quando o corpo impõe limites. E de que o futuro, tal como o Caminho, se constrói um passo de cada vez. O Projeto já começou.






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