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Indígenas marcham em Buenos Aires contra plano de Milei que libera compra de terras por estrangeiros

Indígenas marcham em Buenos Aires contra plano de Milei que libera compra de terras por estrangeiros

Comunidades originárias alertam para ameaça a territórios ancestrais; governo defende que flexibilização pode atrair investimentos e reforçar direitos de propriedade.

Centenas de manifestantes, entre eles representantes de diversos povos indígenas, ocuparam as ruas de Buenos Aires para protestar contra o projeto de lei do presidente Javier Milei que pretende remover os limites à posse estrangeira de terras rurais na Argentina. O ato, marcado por cantos, faixas e discursos de lideranças comunitárias, expressou a preocupação crescente de que a medida possa fragilizar territórios ancestrais e abrir caminho para disputas fundiárias mais intensas.

O projeto, apresentado como parte da agenda de liberalização econômica do governo, revoga normas que atualmente restringem a aquisição de grandes extensões de terra por compradores internacionais. Segundo o Executivo, a flexibilização ampliaria a segurança jurídica, atrairia capital estrangeiro e impulsionaria o desenvolvimento agrícola e energético.

Territórios ancestrais sob risco

Para os povos indígenas, porém, a proposta representa uma ameaça direta. A Argentina abriga mais de 1.7 milhão de pessoas que se identificam como indígenas, segundo o último censo nacional, distribuídas em comunidades que dependem de terras tradicionais para sua sobrevivência cultural, econômica e espiritual.

Lideranças afirmam que, sem limites à compra estrangeira, áreas historicamente disputadas podem ser adquiridas por grandes grupos econômicos, especialmente ligados ao agronegócio, mineração e energia. Isso ampliaria conflitos já existentes e poderia resultar em deslocamentos forçados, perda de biodiversidade e enfraquecimento de práticas tradicionais de manejo ambiental.

Argumentos do governo

O governo Milei sustenta que a abertura do mercado fundiário é essencial para dinamizar a economia. A Casa Rosada afirma que investidores internacionais poderiam trazer tecnologia, infraestrutura e novos modelos de produção, aumentando a competitividade argentina em setores como soja, milho, carne e lítio — este último estratégico para a transição energética global.

Além disso, o Executivo argumenta que a medida reforçaria os direitos de propriedade ao eliminar barreiras consideradas “ideológicas” e permitir maior liberdade econômica.

Debate nacional em ascensão

A proposta reacendeu um debate histórico na Argentina: quem deve controlar e usufruir das terras do país. Organizações de direitos humanos, ambientalistas e especialistas em políticas agrárias alertam que a liberalização pode aprofundar desigualdades e acelerar a concentração fundiária, já elevada — estima-se que 1% dos proprietários controle mais de 36% das terras produtivas.

O tema também mobiliza governadores de províncias com forte presença indígena, como Salta, Jujuy e Neuquén, que pedem salvaguardas específicas para territórios comunitários reconhecidos pela Constituição.

Próximos passos

O projeto ainda precisa ser debatido no Congresso, onde enfrentará resistência de setores da oposição e de parlamentares ligados a movimentos sociais. Enquanto isso, comunidades indígenas prometem manter mobilizações em todo o país, defendendo que a terra não é apenas um recurso econômico, mas um elemento central de identidade e continuidade cultural.

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