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Voto feminino no Brasil: uma conquista centenária sob ataque renovado da misoginia política

Voto feminino no Brasil: uma conquista centenária sob ataque renovado da misoginia política

Da exclusão constitucional de 1891 à mobilização sufragista do século 20, mulheres conquistaram o direito ao voto enfrentando violência simbólica e institucional. Em 2026, discursos da extrema-direita reacendem a retaliação patriarcal e tentam fragilizar direitos consolidados.

Um país que nasceu negando a cidadania das mulheres

O Brasil inaugurou sua República em 1891 com uma Constituição que não apenas ignorou as mulheres: as excluiu deliberadamente. Parlamentares da época afirmavam que a política “tiraria a santidade” feminina e que o voto das mulheres seria uma ameaça à ordem social. Esses discursos, longe de serem peças de museu, reaparecem hoje com nova roupagem — agora impulsionados por influenciadores digitais e políticos alinhados à extrema direita, que questionam a capacidade das mulheres de votar “corretamente”. A lógica é a mesma: manter o poder político restrito aos homens.

A resistência que moldou o século 20

A luta pelo sufrágio feminino começou oficialmente em 1910, com o Partido Republicano Feminino, liderado por Leolinda Daltro, que teve sua candidatura barrada pelo Estado sob o argumento de que mulheres não eram aptas à vida pública. Em 1917, 90 mulheres marcharam pelo centro do Rio de Janeiro — um ato histórico que enfrentou a imprensa, a polícia e o escárnio social. Charges ridicularizavam as sufragistas, retratando-as como “mulheres-homens”, enquanto homens favoráveis ao voto feminino eram desenhados de avental, numa inversão caricata destinada a humilhar.

A partir dos anos 1920, a mobilização ganhou força com Bertha Lutz, que articulou governadores, pressionou o Congresso e conectou o Brasil ao movimento sufragista internacional. Em 1932, o Decreto 21.076 finalmente garantiu o voto feminino, consolidado na Constituição de 1934. O Brasil tornou-se o quarto país do Ocidente a reconhecer o sufrágio feminino — um avanço que não foi concessão, mas fruto de décadas de enfrentamento ao Estado e à cultura patriarcal.

A violência institucional que persistiu

Mesmo após a conquista, o Código Eleitoral de 1932 exigia autorização do marido para que mulheres casadas votassem. A regra só caiu após forte pressão das sufragistas. A Constituição de 1946 tornou o voto feminino obrigatório para mulheres alfabetizadas, e a Carta de 1988 finalmente eliminou essa exigência, garantindo sufrágio universal pleno.

Mas a violência simbólica permaneceu: mulheres eram desencorajadas a estudar, trabalhar e participar da política. A dependência econômica — ainda hoje uma realidade — funcionou como mecanismo de controle social.

A ofensiva contemporânea: o backlash da extrema direita

Em 2026, o Brasil vive uma nova onda de ataques ao voto feminino. Influenciadores e políticos da extrema direita afirmam que “mulheres votam mal”, ecoando argumentos usados há mais de 130 anos. Segundo pesquisadoras entrevistadas pela Agência Brasil, esse fenômeno é parte do backlash — a retaliação patriarcal que surge sempre que mulheres avançam em direitos.

Do ponto de vista jurídico, qualquer discurso que questione o voto feminino viola o Artigo 14 da Constituição de 1988, que garante sufrágio universal sem distinção de sexo, e o Artigo 5º, que veda discriminação. Há iniciativas para acionar a Procuradoria-Geral da República contra esses ataques, classificados como inconstitucionais e criminosos.

O peso das mulheres no eleitorado brasileiro

Os números desmontam a narrativa misógina:

  • 53% do eleitorado brasileiro é feminino — 83.877.126 eleitoras.
  • Mulheres têm maior escolaridade média: 29,28% concluíram o ensino médio, contra 26,35% dos homens.
  • 13,08% das mulheres têm ensino superior completo, contra 9,1% dos homens.
  • Mulheres são maioria da população (51,5%).
  • Entre as eleitoras:
    • 51,76% são pardas
    • 10,96% pretas
    • 35,71% brancas

Esses dados revelam que atacar o voto feminino é também uma estratégia de intimidação política contra o maior grupo eleitoral do país.

A ameaça real: não revogar, mas desestimular

Pesquisadoras alertam que, embora seja improvável uma proposta formal de revogação do voto feminino, a estratégia da extrema direita é outra: desestimular a participação, gerar medo, vergonha e dúvida. É uma forma de erosão democrática silenciosa, que tenta reduzir a presença das mulheres na vida pública e impedir avanços em direitos.

O que a história ensina

As sufragistas do século 20 eram professoras, jornalistas, cientistas — mulheres que criaram jornais, escolas, redes de apoio e estratégias ousadas, como o sobrevoo de Bertha Lutz lançando panfletos no Rio de Janeiro. Elas sabiam que direitos não se mantêm sozinhos. E o presente confirma: a misoginia política não desapareceu — apenas mudou de forma.

O desafio de 2026

Para especialistas, o Estado brasileiro precisa reafirmar seu compromisso com a cidadania feminina, investindo em educação, campanhas de participação eleitoral e políticas públicas que combatam a desigualdade estrutural. A democracia brasileira só será plena quando as mulheres — maioria da população — deixarem de ser minorizadas em direitos.

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