Em 2000, era de 4,3% o percentual de mulheres na população carcerária brasileira. Em 2010, o índice quase dobrou: 7,4%. No mesmo período, a porcentagem de homens presos caiu de 95,7% para 92,6%. Os dados foram apresentados por Geder Luiz Rocha Gomes, promotor de Justiça da Bahia e presidente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária do Ministério da Justiça (CNPCP/MJ), durante o Encontro Nacional sobre o Encarceramento Feminino, realizado pelo Conselho Nacional de Justiça nesta quarta-feira (29/6), em Brasília.

“O responsável por esse fenômeno é o tráfico de drogas, que cada vez mais vem recrutando as mulheres”, disse o promotor, que também apresentou dados para mostrar que, nos últimos anos, a maior parte dos investimentos do Fundo Penitenciário Nacional (Funpen) foi destinada a projetos de reforma e ampliação de vagas em unidades prisionais no país, em detrimento da aplicação de políticas voltadas à reinserção social dos detentos, sejam homens ou mulheres. Segundo ele, entre 1994 e 2007 os investimentos do Funpen foram de R$ 1,40 bilhão, dos quais R$ 1,37 para obras de infraestrutura.

“O Brasil é campeão mundial na ampliação de vagas em unidades prisionais. Entre 1990 e 2009, houve um aumento de 221%”, informou, observando que, em razão da ausência de políticas de ressocialização, a necessidade de vagas continuará aumentando, por causa da reincidência criminal. Hoje a população carcerária brasileira é de cerca de 500 mil detentos, dos quais 34 mil são mulheres. Mesmo com todo o investimento do Funpen em construção e reforma, ainda há um grande déficit de vagas no superlotado sistema carcerário brasileiro.

O evento contou também com a participação da chilena Olga Espinoza, coordenadora da Área de Estudos Penitenciários do Instituto de Assuntos Públicos da Universidade do Chile. A especialista proferiu palestra sobre as regras de Bangkok, um conjunto de normas editadas pelas Nações Unidas em 2010 com o reconhecimento da especificidade feminina e uma série de recomendações. As recomendações incluem o acompanhamento das detentas por médico ginecologista (em vez de médico generalista), aproximação com os filhos e demais membros da família, visitas íntimas e capacitação dos profissionais do sistema carcerário.

Embora as regras de Bangkok sejam recentes, Olga Espinoza está otimista com a possibilidade de mudança do quadro atual do encarceramento feminino em todo o mundo. “É um avanço positivo, mas depende somente de nós a transformação desse conjunto de normas em realidade”, disse a especialista.

Para a juíza Kenarik Boujikian Felippe, de São Paulo, o encontro realizado pelo CNJ é um “marco na história do Poder Judiciário e do Brasil, já que é a primeira vez que um órgão do Judiciário promove um debate sobre as condições de encarceramento de mulheres”.

Informações da Agência CNJ

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Autor

salvadornetooficial@gmail.com

Jornalista e escritor. Criador e Editor do Palavra Livre, cofundador da Associação das Letras com sede no Brasil (SC). Foi criador e apresentador de programas de TV e Rádio como Xeque Mate, Hora do Trabalhador entre outros trabalhos na área. Tem mais de 35 anos de experiência nas áreas de jornalismo, comunicação, assessoria de imprensa, marketing e planejamento. É autor dos livros Na Teia da Mídia (2011), Gente Nossa (2014) e Tinha um AVC no Meio do Caminho (2024). Tem vários textos publicados em antologias da Associação Confraria das Letras, onde foi diretor de comunicação.

Posts relacionados

Dia Internacional da Imprensa: a força histórica, as lutas e o papel vital da imprensa independente no mundo

Da prensa de Gutenberg às redações digitais sob ataque, a imprensa continua a ser o pilar que sustenta a liberdade, a democracia...

Leia tudo

Fusão Paramount–Warner: o terremoto que ameaça reescrever Hollywood

A união de dois gigantes promete remodelar a indústria cinematográfica — mas artistas, sindicatos e cinéfilos alertam para um futuro mais pobre,...

Leia tudo

Saída dos Emirados da OPEP: o abalo que redefine o poder energético mundial

A decisão dos Emirados Árabes Unidos de abandonar a OPEP em plena guerra EUA–Israel contra o Irã expõe fissuras profundas na geopolítica...

Leia tudo

Lusofonia em Atualização: diplomacia intensa, ruas cheias e reformas estruturais marcam o final de abril

A última semana de abril de 2026 foi marcada por movimentos decisivos no espaço lusófono: a visita oficial de Lula da Silva...

Leia tudo

DeepSeek V4: como a China encurtou a distância tecnológica com os EUA e reacendeu a disputa global pela IA

Um ano após abalar o Vale do Silício, a startup chinesa apresenta novos modelos que desafiam gigantes como Google e OpenAI, reacendendo...

Leia tudo

Copa do Mundo 2026: tensões políticas, preços abusivos e segurança levantam alerta a 50 dias do torneio

Com guerra, incertezas diplomáticas, ingressos inacessíveis e falhas de segurança nos países-sede, o Mundial de 2026 enfrenta seu momento mais crítico antes...

Leia tudo