mamaeEra um simples pedaço de silicone. Mas fez com que a estilista e ilustradora Luiza Pannunzio, 34 anos, pudesse estar mais próxima do filho Bento, de quase dois anos, que nasceu com uma má formação congênita conhecida como fissura labial. Para que o menino não se sentisse tão diferente das outras crianças, a mãe também decidiu usar o curativo nos lábios durante os cinco meses de pós-operatório do filho. O silicone pressionava a cicatriz no rosto de Bento, resultado de uma das três cirurgias feitas por ele para corrigir a fenda.

O ritual de colocar e tirar o curativo foi encarado como uma brincadeira tanto pela mãe quanto pelo filho, que deram ao pedaço de silicone o nome de “bigode”. “Tinha que ter alguma graça naquele ‘bigode’. Depois não havia quem não perguntasse o que tinha acontecido e se ele tinha aprontado. Lá ia eu explicar, explico até hoje. Talvez porque, enquanto falo, ouço e explico para mim mesma”, conta a jovem de Sorocaba (SP).

Publicada em uma página de uma rede social, a foto em que Luiza e Bento aparecem, lado a lado, com o mesmo curativo conquistou os internautas. A imagem foi compartilhada por várias pessoas.

Além de Bento, Luiza e o marido, o diretor de televisão Caetano Caruso, são pais da pequena Clarice, de três anos e sete meses. A família vive se dividindo entre morar em São Paulo e no Rio de Janeiro, mas a vida corrida não impede que tenham tempo para gastar uns com os outros. “Nossos filhos foram super planejados, queríamos muito ter as crianças com idades próximas”, explica a mãe.

Segundo o Ministério da Saúde, a cada mil nascidos vivos, quase duas crianças (1,8 em média) apresentam fissura labial no Brasil. Só a Associação de Fissurados Lábio Palatais de Sorocabae Região (Afissore) atende 1.095 pessoas nessas condições hoje, sendo mais de 500 apenas da cidade.

Tempo para se restabelecer
A fissura labial do caçula foi descoberta tardiamente, quando o casal resolveu fazer um exame por conta própria. Isso porque algo preocupava Luiza durante a gravidez: todas as vezes em que fazia o ultrassom, Bento estava com as mãos sobre os lábios. “No sétimo mês lembro de ter comentado com a minha mãe que, até aquele momento, ainda não tinha visto o rosto do meu menino.”

Os pais procuraram um novo laboratório de imagens e, 20 dias antes do nascimento, conseguiram detectar a má formação. Luiza chorou alto, mas foi tranquilizada pelo médico. “Ele disse bem assim: ‘Com duas ou três cirurgias você vai resolver este problema. Pare de chorar, tem criança que nasce sem cérebro.’ Bom, engoli o choro”, lembra.

A mãe conta que, no caminho para casa, foi o marido quem assumiu o papel de acalmar a jovem, mas não teve sucesso. O casal resolveu ouvir um segundo especialista. Que explicou que Bento poderia nascer com Síndrome de Down.

Foi então que, em uma das noites nas quais Luiza não conseguia dormir, Caetano disse a ela que cuidaria do Bento independentemente da forma como ele viesse, porque o filho era deles e seria muito amado. “Pronto, ficou tranquilo o meu coração. Pude receber o Bento no dia em que ele resolveu nascer, porque aguardei entrar em trabalho de parto. Ele chorou tão alto e a enfermeira disse que fissurado nenhum chorava daquele jeito. Já estava o meu moleque demonstrando sua força.”

Dias difíceis
Assim que Bento abriu os olhos para o mundo pela primeira vez, Luiza sentiu que o bebê era dela. O casal optou por uma cirurgia precoce, 24 horas após o nascimento. “Foi a decisão que acreditávamos ser a melhor para ele”, admite. Depois desta, vieram outras duas cirurgias e agora a família está no meio do caminho das intervenções.

Ao ver fotos de outros bebês que nasceram como o Bento, Clarice conta ao irmão as histórias deles. “Estes dias ela me disse que se acha muito parecida com o irmão. Falou assim: ‘Olha, eu sou a cara dele!’ E ela só tem três anos”, conta a mãe.

Respiro de alívio
A próxima cirurgia do menino deve ser realizada apenas a três anos. Quando receberam a nova data, Luiza e Caetano perceberam que era hora de fazer algo pelos outros. “Pensava mesmo numa coisa social, inconformados que somos com a atual situação do País. Então olhei para o sofá e vi ali a minha causa mais verdadeira: meu menino, o fissurado”, explica a sorocabana.

Do G1.

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Autor

salvadornetooficial@gmail.com

Jornalista e escritor. Criador e Editor do Palavra Livre, cofundador da Associação das Letras com sede no Brasil (SC). Foi criador e apresentador de programas de TV e Rádio como Xeque Mate, Hora do Trabalhador entre outros trabalhos na área. Tem mais de 35 anos de experiência nas áreas de jornalismo, comunicação, assessoria de imprensa, marketing e planejamento. É autor dos livros Na Teia da Mídia (2011), Gente Nossa (2014) e Tinha um AVC no Meio do Caminho (2024). Tem vários textos publicados em antologias da Associação Confraria das Letras, onde foi diretor de comunicação.

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