Por Palavra Livre | Oceania
“Kupu Moana — palavra-mar — é o que resta quando o coral se cala.” — trecho do manifesto
Na costa de Aotearoa, onde o Pacífico encontra a terra dos ancestrais, um grupo de poetas maori ergue a voz contra a acidificação dos oceanos. Não com relatórios científicos, mas com versos. O manifesto “Kupu Moana”, lançado em setembro, reúne 27 poemas em língua maori que denunciam a destruição dos ecossistemas marinhos e convocam uma escuta espiritual e política.
A iniciativa partiu do coletivo Ngā Reo o te Moana (“As Vozes do Oceano”), formado por poetas, pescadores, ativistas e anciãos. Cada poema é uma oferenda — à baleia, ao coral, à água que já não canta. E também um grito — contra a pesca predatória, contra os resíduos industriais, contra a indiferença dos governos.
🔍 Poesia como documento político
O manifesto foi entregue à delegação da Nova Zelândia que participará da COP Oceânica, com pedido formal para que seja lido em plenária. “Não queremos ser traduzidos. Queremos ser ouvidos”, diz Hinewai Raukura, uma das autoras. Segundo ela, a língua maori carrega ritmos que não se dobram à lógica colonial — e é justamente essa musicalidade que pode tocar os corações endurecidos da diplomacia.
“O mar não é recurso. É parente.” — verso de Tane Mahuta, poeta e mergulhador
Os poemas foram escritos em encontros à beira-mar, onde os autores também recolheram amostras de água e conchas danificadas. A ideia era que cada texto nascesse de uma escuta direta — não apenas da natureza, mas do silêncio que ela começa a emitir.
🌍 Entre o rito e o protesto
O lançamento do manifesto foi acompanhado por uma cerimônia de purificação, com cânticos e danças tradicionais. Não houve microfones, apenas conchas usadas como amplificadores naturais. O gesto é simbólico: a poesia maori não quer competir com a ciência, mas complementá-la com afeto, mito e memória.
O Palavra Livre publica, com autorização do coletivo, trechos traduzidos de três poemas, mantendo o ritmo original e a estrutura em tercetos. A tradução foi feita por Aroha Te Kahu, que prefere o termo “transcriação” à tradução.






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