🌿 Crónica — “O Chamado”

🌿 Crónica — “O Chamado”

  • Por Álvaro De Lume para o Palavra Livre *

Não foi um momento qualquer.

Foi num dia que já trazia memória. Um dia marcado, há muitos anos, pelo nascimento de um irmão que partiu cedo demais. Um amigo de infância, um companheiro de vida. E talvez por isso, quando o telefone tocou, algo dentro dele soube que não era coincidência.

A voz do filho, depois de quinze anos de silêncio, chegou sem aviso. Não veio por mensagem, não veio escrita — veio falada. E isso fez toda a diferença. Porque há coisas que só a voz carrega: o tom, a hesitação, a coragem. A presença.

Falámos por uma hora e meia, contou ele. E não foi uma conversa qualquer. Foi uma travessia. Um reencontro sem mapas, sem exigências, sem inventário de mágoas. Apenas duas vidas que, por um instante, se permitiram voltar a ocupar o mesmo tempo.

Ele falou do que viveu nesses anos: a mudança de país, o susto do corpo, a reinvenção diária. O filho ouviu. E depois contou da própria travessia: a mulher, a filha pequena, a casa em construção. Disse que ser pai o fez lembrar do dele. E, com naturalidade, fez um convite — se um dia houver regresso, que haja encontro.

Não houve promessas. Não houve garantias. Mas houve algo mais raro: a possibilidade.

E isso, às vezes, é tudo o que se precisa para recomeçar.

O homem que recebeu a chamada não esperava. Não planejava. Apenas deixou que o tempo fizesse o que sabe fazer quando não é apressado: devolver o que parecia perdido, mas estava apenas guardado.

Curiosamente, aquele dia também marcava o nascimento do irmão que já partiu. E talvez por isso o reencontro tenha vindo justo ali — como se o tempo, sábio e discreto, tivesse decidido costurar ausências com um fio de presença.

Não foi um momento qualquer. Foi um gesto raro, uma dobra no tempo, uma fresta aberta entre o que foi e o que ainda pode ser.

E ele, que já aprendeu a viver com menos pressa, soube reconhecer: há chamadas que não se atendem apenas com os ouvidos. Atendem-se com o coração inteiro.

  • Álvaro de Lume nasceu entre sombras e clarões, num tempo em que a palavra ainda era abrigo. Cresceu com a sensação de que tudo passa depressa demais — por isso escreveu cedo, antes que o mundo o esquecesse. Poeta de memória inquieta, vive entre o que recorda e o que teme perder. Carrega no corpo as marcas do tempo, e na voz, a urgência de quem sabe que cada verso é uma forma de permanecer. Escreve sobre amores que ardem, perdas que iluminam e silêncios que queimam devagar. De Lume não é apelido — é destino.

Comments

2 respostas para “🌿 Crónica — “O Chamado””

  1. Avatar de Salvador Neto

    Verdade amiga, o tempo também cura. Obrigado por participar!

  2. Avatar de Léla
    Léla

    Tempo… Sempre no tempo de Deus…

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