- Salvador Neto para o Palavra Livre
As bibliotecas públicas estão num daqueles momentos de encruzilhada histórica: ou se assumem como infraestruturas críticas da democracia digital, ou correm o risco de serem vistas como relíquias de um mundo analógico. A boa notícia é que os dados internacionais mostram exatamente o contrário da narrativa do “fim das bibliotecas”: há um campo imenso de reinvenção, sobretudo quando falamos de inclusão digital, inteligência artificial e acesso à informação como bem público.
Onde estamos: o retrato global das bibliotecas na era digital
Hoje, o mundo conta com mais de 2,8 milhões de bibliotecas, apoiadas por cerca de 1,6 milhão de profissionais e mais de meio milhão de voluntários, segundo um documento recente do programa Information for All (IFAP), da UNESCO, em parceria com a IFLA. Este número, por si só, desmonta a ideia de irrelevância: trata‑se de uma rede planetária de equipamentos culturais e informacionais com capilaridade única, especialmente em territórios periféricos.
Ao mesmo tempo, a UNESCO lembra que bilhões de pessoas continuam desconectadas da internet, e muitas outras, mesmo conectadas, não conseguem transformar essa conectividade em inclusão significativa—por falta de competências, de acessibilidade, de confiança ou de mediação qualificada. É precisamente neste ponto que as bibliotecas públicas ganham centralidade: são espaços que combinam infraestrutura, mediação humana e confiança social.
O Relatório de Tendências da IFLA 2024 reforça esta visão: o futuro da informação está diretamente ligado a temas como privacidade, tecnologias emergentes, acesso à informação e Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). As bibliotecas, especialmente as públicas, são chamadas a posicionar‑se como atores estratégicos na construção de sociedades do conhecimento mais justas, abertas e sustentáveis. IFLA Repository.
Novas tecnologias dentro da biblioteca: IA, dados e automação
– Inteligência artificial como infraestrutura invisível
A IFLA, em parceria com a De Gruyter, publicou em 2025 a obra New Horizons in Artificial Intelligence in Libraries, que reúne estudos de caso e análises sobre como a IA já está a transformar serviços e operações em bibliotecas de vários tipos—públicas, nacionais, académicas, especiais. O livro mostra aplicações concretas de:
- Classificação e indexação automatizadas:
Isso reduz tarefas repetitivas e liberta tempo para trabalho de mediação, programação cultural e atendimento qualificado.
- Sistemas de recomendação personalizados:
Quando bem desenhados, podem ampliar o acesso a conteúdos diversos, não apenas reforçar o “mais do mesmo”.
- Processamento de linguagem natural:
Isso permite atendimento 24/7, inclusive via smartphones, sem substituir o bibliotecário, mas complementando o serviço. O mesmo volume sublinha, porém, que a adoção de IA exige atenção a questões éticas, transparência algorítmica, formação contínua das equipas e preservação do papel humano na mediação da informação. A biblioteca não pode ser apenas “usuária passiva” de tecnologias; precisa de critérios, políticas e visão de missão.
– Smartphones, mobilidade e a biblioteca que cabe no bolso
Se a IA é a infraestrutura invisível, o smartphone é a porta de entrada mais visível. Em muitos contextos, o telemóvel é o primeiro e único dispositivo de acesso à internet. A UNESCO e a IFLA, no Issue Brief sobre bibliotecas e futuro digital inclusivo, destacam que as bibliotecas são parceiras estratégicas para transformar essa conectividade em inclusão significativa—oferecendo Wi‑Fi, apoio ao uso de dispositivos, formação em literacia digital e curadoria de conteúdos confiáveis.
Para as bibliotecas públicas, isso implica:
- Aplicações móveis e catálogos responsivos: acesso ao catálogo, reservas, renovações, leitura digital e comunicação com a biblioteca via smartphone.
- Programas de literacia digital móvel: oficinas sobre segurança online, verificação de fontes, uso crítico de redes sociais, proteção de dados pessoais.
- Serviços híbridos: clubes de leitura, encontros, formações e mediação que combinam presença física e participação remota via telemóvel.
A biblioteca deixa de ser apenas um lugar para onde se vai e passa a ser também um serviço que acompanha a pessoa no bolso, no transporte público, em casa, no trabalho.
– Bibliotecas públicas como infraestruturas de inclusão digital
O Issue Brief da UNESCO/IFAP, desenvolvido com a IFLA, propõe um verdadeiro roteiro de políticas públicas para um futuro digital inclusivo, estruturado em seis áreas centrais: acesso significativo, desigualdade de género, literacia digital, participação multissetorial, confiança digital, integridade da informação, IA e tecnologias emergentes.
– Acesso significativo, não apenas conexão
A ideia de “acesso significativo” vai além de ter sinal de internet. Envolve:
- Condições materiais: dispositivos, conectividade estável, espaços seguros.
- Competências: saber usar, interpretar, avaliar e criar informação.
- Contexto: conteúdos relevantes, em línguas e formatos acessíveis, alinhados com necessidades locais.
As bibliotecas públicas, com a sua capilaridade e confiança social, são apontadas pela UNESCO como parceiras essenciais para enfrentar o fosso digital, especialmente em comunidades vulneráveis. Elas podem oferecer desde acesso gratuito à internet até programas de formação em competências digitais, com foco em grupos historicamente excluídos.
– Literacia digital, informacional e mediática
O Relatório de Tendências da IFLA 2024 liga diretamente o futuro das bibliotecas à capacidade de promover literacias múltiplas: digital, informacional, mediática, de dados, de privacidade. Num ambiente saturado de desinformação, teorias da conspiração e manipulação algorítmica, a biblioteca pública torna‑se um espaço de treino para o pensamento crítico.
Isso pode traduzir‑se em:
- Oficinas sobre verificação de factos e combate à desinformação;
- Programas com escolas e associações locais para trabalhar leitura crítica de redes sociais;
- Mediação ativa de conteúdos sobre temas sensíveis (saúde, política, ciência), com base em fontes confiáveis.
A biblioteca deixa de ser apenas “depósito de livros” e assume‑se como laboratório de cidadania informada.
– Alinhamento com a agenda da ONU e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
O Relatório de Tendências da IFLA sublinha a ligação entre bibliotecas e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), em especial aqueles relacionados com educação de qualidade, redução das desigualdades, cidades sustentáveis, paz, justiça e instituições eficazes, e parcerias.
Acesso à informação como bem público
A ONU e a UNESCO vêm reforçando a ideia de que o acesso à informação é um bem público e um direito habilitador de outros direitos—educação, participação política, desenvolvimento económico, igualdade de género. As bibliotecas públicas são, na prática, uma das infraestruturas mais concretas para materializar esse princípio:
- ODS 4 (Educação de qualidade): apoio à aprendizagem ao longo da vida, recursos educativos abertos, apoio a estudantes formais e informais.
- ODS 10 (Redução das desigualdades): serviços específicos para migrantes, minorias, pessoas com deficiência, populações rurais.
- ODS 11 (Cidades e comunidades sustentáveis): bibliotecas como espaços de encontro, memória, cultura e participação cívica.
- ODS 16 (Paz, justiça e instituições eficazes): promoção de transparência, acesso a informação pública, literacia cívica.
Bibliotecas como parceiras em políticas digitais nacionais
O Issue Brief da UNESCO/IFAP apresenta 56 recomendações para Estados e parceiros, destacando as bibliotecas como atores a integrar em estratégias nacionais de inclusão digital, governança eletrónica e implementação do futuro Pacto Digital Global (Global Digital Compact).
Isso significa que as bibliotecas públicas não devem ser vistas apenas como “equipamentos culturais”, mas como infraestruturas de política pública digital, com:
- Financiamento estável e estratégico;
- Participação em conselhos e fóruns de governança digital;
- Integração em programas de governo eletrónico, dados abertos, participação cidadã online.
Estratégias de sobrevivência e reposicionamento das bibliotecas públicas
Mais do que “sobreviver”, trata‑se de reposicionar a biblioteca pública como instituição indispensável num ecossistema informacional saturado, desigual e tecnologicamente complexo.
Do edifício ao ecossistema híbrido
A biblioteca do futuro não abandona o espaço físico—pelo contrário, reforça‑o como lugar de encontro, silêncio, estudo, criação, memória e cuidado. Mas expande‑se para um ecossistema híbrido:
- Serviços presenciais: leitura, estudo, programação cultural, atendimento personalizado.
- Serviços digitais: plataformas de empréstimo digital, repositórios, clubes de leitura online, atendimento remoto.
- Serviços móveis: comunicação via apps, redes sociais, mensagens, atendimento por chatbots e assistentes virtuais.
A chave está em desenhar uma experiência coerente, em que o cidadão reconhece a biblioteca como referência, independentemente do canal.
Curadoria humana em tempos de algoritmos
Num mundo em que algoritmos definem o que vemos, a biblioteca pública pode ser o lugar onde alguém nos ajuda a ver o que os algoritmos não mostram. Isso implica:
- Políticas de coleção que privilegiem diversidade, pluralidade e vozes marginalizadas;
- Mediação ativa de conteúdos, não apenas disponibilização passiva;
- Transparência sobre o uso de IA em serviços da biblioteca, com explicação clara aos utilizadores.
A obra da IFLA sobre IA em bibliotecas enfatiza a necessidade de formação das equipas para compreenderem e questionarem as tecnologias, não apenas operá‑las. O bibliotecário torna‑se também um mediador entre o cidadão e os sistemas algorítmicos.
Formação contínua das equipas
A transição digital não se faz apenas com equipamentos; faz‑se com pessoas. A literatura recente da IFLA sobre IA e o Relatório de Tendências apontam para a necessidade de investir em formação contínua em:
- Competências digitais avançadas;
- Ética da informação e da IA;
- Gestão de dados, privacidade e segurança;
- Design de serviços centrados no utilizador.
Sem equipas preparadas, qualquer investimento tecnológico corre o risco de se tornar subutilizado ou, pior, de reforçar desigualdades.
Linhas de ação para bibliotecas públicas nesta nova época
Com base nas orientações da UNESCO, da IFLA e na agenda da ONU, é possível sintetizar algumas linhas estratégicas para o futuro das bibliotecas públicas:
- Reafirmar a missão pública: Eixo: acesso à informação como bem público, inclusão digital, literacia crítica, memória e cultura.
- Assumir o papel de infraestrutura digital local: Eixo: Wi‑Fi, dispositivos, apoio ao uso de tecnologias, serviços online e móveis.
- Integrar IA com ética e transparência: Eixo: automação de processos, recomendação de conteúdos, atendimento virtual, sempre com supervisão humana e explicabilidade.
- Fortalecer parcerias multissetoriais: Eixo: escolas, universidades, associações, serviços sociais, autarquias, iniciativas de governo eletrónico.
- Alinhar‑se explicitamente aos ODS: Eixo: usar a linguagem dos ODS para dialogar com decisores políticos, mostrar impacto e justificar investimento.
- Investir em pessoas: Eixo: formação contínua, valorização profissional, criação de equipas multidisciplinares (bibliotecários, educadores, técnicos de TI, mediadores culturais).
Considerações finais
O futuro das bibliotecas públicas não está garantido por inércia, mas está amplamente justificado por necessidade histórica. Num mundo em que a informação é abundante, mas a compreensão é escassa; em que a conectividade é alta, mas a inclusão é desigual; em que a tecnologia é sofisticada, mas a confiança é frágil—bibliotecas públicas que se reposicionem como infraestruturas de inclusão digital, literacia crítica e mediação humana tornam‑se mais relevantes do que nunca.






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