Desinformação em alta na Europa: um alerta global sobre democracia, educação e mídia

Desinformação em alta na Europa: um alerta global sobre democracia, educação e mídia

Por Rafael Monteiro, especial para o Palavra Livre

A percepção de exposição à desinformação aumentou significativamente na União Europeia. Segundo o Eurobarómetro de 2026, 36% dos cidadãos europeus afirmam ter sido expostos “muitas vezes” ou “muito frequentemente” a notícias falsas nos sete dias anteriores à pesquisa — um salto de 8 pontos percentuais em relação a 2022.

No total, 66% dos entrevistados acreditam ter sido expostos a desinformação na última semana. Embora o estudo meça percepção e não exposição real, os dados revelam um fenômeno estrutural: a mentira tornou-se parte do cotidiano informativo.

Onde a desinformação mais se espalha

A Hungria lidera o ranking com 57% de exposição percebida, seguida por Roménia (55%) e Espanha (52%). No extremo oposto, Finlândia e Alemanha registram os menores índices (26%).

O padrão regional é claro: países do Leste e Sul da Europa tendem a reportar maior exposição, enquanto Norte e Oeste apresentam valores mais baixos. Portugal aparece com um índice abaixo da média regional, mas ainda preocupante.

Confiança em reconhecer desinformação: em queda

Apesar da alta exposição, apenas 12% dos europeus se dizem “muito confiantes” em reconhecer desinformação. Outros 49% estão “algo confiantes”, enquanto 32% não se sentem confiantes — uma queda de dois pontos percentuais desde 2022.

Malta lidera em confiança (84%), enquanto a Polónia aparece na base (49%). A ausência de correlação direta entre exposição e capacidade de reconhecimento revela um problema mais profundo: a erosão da literacia midiática.

O que explica essa vulnerabilidade?

Segundo o investigador Konrad Bleyer-Simon, do Centro para o Pluralismo e a Liberdade dos Media, o impacto da desinformação é maior em sociedades com:

  • Elevada polarização política
  • Desigualdades económicas persistentes
  • Baixo desempenho educacional (como mostram os resultados do PISA)
  • Baixa confiança nas instituições
  • Comunicação política populista e confrontacional

Países com rádios e televisões públicas fortes e independentes, boa autorregulação dos meios privados e população mais inclinada a informar-se por veículos jornalísticos são mais resilientes à desinformação.

Implicações para o Brasil e para o mundo

Embora o estudo foque a Europa, os alertas são universais. O Brasil enfrenta desafios semelhantes — e em alguns casos, mais graves:

  • A polarização política é extrema e alimentada por redes sociais.
  • A confiança nas instituições democráticas está em queda livre.
  • A educação pública sofre cortes e desvalorização.
  • A comunicação oficial recorre à desinformação como estratégia.
  • A imprensa enfrenta ataques sistemáticos e tentativas de descredibilização.

Além disso, a regulação das plataformas digitais é frágil, e os mecanismos de verificação de fatos ainda não têm alcance suficiente para conter o avanço da mentira.

Democracia exige lucidez

A desinformação não é apenas um ruído — é uma estratégia de poder. E como tal, deve ser enfrentada com rigor, inteligência e coragem.

Investir em educação midiática, fortalecer o jornalismo independente, exigir transparência algorítmica e promover formação crítica são medidas urgentes.

Se dois em cada três europeus já se sentem expostos à desinformação, o que dizer de países onde a mentira se institucionaliza?

A democracia não sobrevive sem lucidez coletiva. E a lucidez começa por reconhecer que a verdade não é neutra — ela é sempre uma escolha política.

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