Polilaminina da UFRJ avança em estudo para lesão medular, mas tratamento ainda é incerto

Polilaminina da UFRJ avança em estudo para lesão medular, mas tratamento ainda é incerto

Da Redação

A notícia correu rápido: vídeos de pessoas voltando a mexer as pernas após uma lesão medular, menções a “cura da paralisia” e até apostas em Prêmio Nobel. No centro dessa onda de esperança está a polilaminina, uma substância desenvolvida na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para tentar regenerar a medula espinhal. Mas, por trás da comoção, há uma história bem mais complexa, que envolve 25 anos de pesquisa, limites éticos, incertezas científicas e um ponto crucial: por enquanto, tudo ainda é experimental.

Esta reportagem busca responder, com calma e sem espetacularização, às principais dúvidas sobre o que se sabe, o que não se sabe e o que realmente está em jogo.

O que é, afinal, a polilaminina?

A polilaminina é um composto desenvolvido a partir da laminina, uma proteína naturalmente presente no organismo humano e em outros animais. A laminina participa da organização dos tecidos e do desenvolvimento do sistema nervoso, funcionando como uma espécie de “andaime biológico” que orienta o crescimento e a migração de células, especialmente durante a formação do cérebro e da medula espinhal.

A equipe liderada pela bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, da UFRJ, estudou essa proteína por décadas e desenvolveu uma forma reorganizada em laboratório—daí o nome polilaminina—capaz de se polimerizar, isto é, formar uma rede tridimensional estável. Essa rede, aplicada na região lesionada da medula, funciona como uma ponte microscópica para orientar o crescimento de fibras nervosas (axônios) através da área danificada.

Em termos práticos, trata-se de um biomaterial injetável, preparado a partir de proteína extraída da placenta humana, que se transforma em um hidrogel dentro da medula espinhal.

Como a polilaminina atuaria na lesão medular?

Para entender o que a polilaminina tenta fazer, é preciso olhar primeiro para o que acontece numa lesão medular. A medula espinhal é o “cabo” que liga o cérebro ao resto do corpo, conduzindo comandos motores e trazendo de volta informações sensoriais. Quando há um trauma importante—por acidente de trânsito, queda, violência—os axônios se rompem e o organismo forma uma cicatriz no local, criando um ambiente hostil à regeneração. A comunicação entre cérebro e corpo é interrompida abaixo do ponto da lesão.

A proposta da polilaminina é intervir justamente nesse cenário:

  • Aplicação local: a substância é aplicada diretamente na área lesionada, geralmente durante a cirurgia indicada para estabilizar a coluna.
  • Formação de “andaime”: ao ser injetada, ela forma um hidrogel que preenche o espaço da lesão e cria uma estrutura organizada, uma espécie de ponte biológica.
  • Orientação e estímulo: essa estrutura não é apenas física; ela também libera sinais que favorecem o crescimento dos axônios e a redução de processos inflamatórios, ajudando a criar um ambiente mais favorável à reconexão neural.

Em modelos animais, essa estratégia levou à recuperação parcial de funções motoras, o que abriu caminho para os primeiros testes em humanos.

Em que fase a pesquisa está hoje?

Apesar da repercussão recente, a pesquisa clínica com polilaminina está em fase inicial. Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início da fase 1 dos estudos clínicos em humanos.

O que significa “fase 1”?

  • Objetivo principal: avaliar a segurança do tratamento, isto é, mapear riscos, efeitos adversos e tolerabilidade.
  • Número de participantes: a primeira etapa envolverá cinco voluntários.
  • Perfil dos pacientes: pessoas entre 18 e 72 anos, com lesão medular torácica completa (entre T2 e T10), ocorrida há menos de 72 horas, com indicação cirúrgica. Lesões crônicas não fazem parte desta fase.

Só depois de concluída essa etapa, e se os dados de segurança forem considerados aceitáveis, o estudo poderá avançar para fases 2 e 3, que avaliam eficácia em grupos maiores e com desenho metodológico mais robusto (como grupos controle, comparações com tratamentos padrão, etc.).

Em outras palavras: ainda é cedo para falar em “tratamento disponível” ou “cura”.

E os vídeos de pessoas voltando a andar?

Os relatos e vídeos de pacientes que recuperaram movimentos após receber a polilaminina existem e foram importantes para que a pesquisa ganhasse visibilidade e apoio. Em estudos preliminares, com uma versão ainda laboratorial da substância, alguns pacientes tratados na fase aguda da lesão apresentaram recuperação parcial ou mesmo total de movimentos. Cães com lesões naturais também mostraram melhora em quadros crônicos.

Mas há pontos fundamentais que precisam ser ditos com clareza:

  • Número pequeno de casos: os resultados vêm de um grupo muito restrito de pacientes, sem o rigor de um ensaio clínico amplo e controlado.
  • Ausência de comparação formal: não é possível, ainda, separar com segurança o que se deve à polilaminina, ao próprio processo de reabilitação (fisioterapia intensiva) ou à recuperação espontânea que pode ocorrer em alguns tipos de lesão.
  • Risco de generalização: transformar casos individuais em promessa universal é um atalho perigoso, que alimenta expectativas irreais.

Por isso, especialistas insistem: os vídeos são emocionantes, mas não substituem estudos clínicos bem desenhados.

A polilaminina “cura” a paralisia?

Não. E qualquer afirmação nesse sentido, hoje, é incorreta. O que se sabe até agora é que:

  • Em modelos animais, houve recuperação significativa de função motora em alguns estudos.
  • Em um pequeno grupo de pacientes e cães, observou-se melhora parcial ou total de movimentos após o uso experimental da substância.

O que não se sabe ainda:

  • Se a polilaminina é eficaz em larga escala.
  • Qual é o grau médio de recuperação que ela pode proporcionar.
  • Em quais tipos de lesão (nível, extensão, tempo de evolução) ela funciona melhor.
  • Se os benefícios se mantêm a longo prazo.
  • Quais são os riscos e efeitos adversos em diferentes perfis de pacientes.

A fase 1 em andamento nem sequer tem como objetivo comprovar eficácia; ela serve para responder, antes de tudo, se é seguro seguir adiante.

Quem pode participar dos estudos?

Pelas regras aprovadas pela Anvisa para a fase 1:

  • Idade: entre 18 e 72 anos.
  • Tipo de lesão: lesão completa da medula espinhal torácica (T2 a T10).
  • Tempo de lesão: menos de 72 horas desde o trauma.
  • Condição clínica: indicação cirúrgica para tratar a lesão.

Pacientes com lesões crônicas, isto é, antigas, não estão incluídos nesta etapa. A possibilidade de uso em casos crônicos ainda é objeto de pesquisa pré-clínica e de estudos exploratórios, sem protocolo regulatório aprovado.

É importante frisar: não há, neste momento, cadastro aberto para uso amplo da polilaminina. Qualquer oferta de “tratamento” fora de estudo aprovado é irregular e potencialmente perigosa.

Por que se fala em Prêmio Nobel?

A repercussão nas redes sociais levou parte do público a sugerir que a pesquisa poderia render um Prêmio Nobel, especialmente após a divulgação de vídeos de recuperação motora. Especialistas em ciência e em premiações internacionais, porém, consideram essa discussão prematura.

Para que um trabalho seja cogitado para o Nobel, é preciso:

  • Que os resultados estejam amplamente consolidados e replicados.
  • Que o impacto da descoberta esteja claramente demonstrado na prática clínica ou no entendimento de um fenômeno biológico.
  • Que haja consenso científico sobre a relevância e a robustez da contribuição.

No caso da polilaminina, a pesquisa ainda está “em construção”, como lembra a bioquímica Debora Foguel, da UFRJ. Falar em Nobel agora não só é precipitado, como pode distorcer a percepção pública sobre o estágio real do estudo.

Quais são os riscos de espetacularizar a pesquisa?

A espetacularização de resultados preliminares em saúde não é um problema novo. Ela já apareceu em outros contextos: vacinas, tratamentos experimentais para Alzheimer, HIV, câncer. No caso da polilaminina, os riscos são claros:

  • Falsa esperança: pessoas com lesões crônicas podem acreditar que existe um tratamento pronto e acessível, o que não corresponde à realidade.
  • Pressão indevida: pesquisadores podem ser pressionados a acelerar etapas ou a divulgar dados antes de estarem maduros.
  • Espaço para charlatanismo: quanto maior a expectativa, maior o risco de surgirem ofertas de “cura” sem respaldo científico ou regulatório.

A própria equipe da UFRJ e especialistas em bioética têm insistido na necessidade de comunicar com responsabilidade: reconhecer o potencial da descoberta, sem transformar hipótese em promessa.

O que esta pesquisa revela sobre a ciência brasileira?

A história da polilaminina também é um retrato da ciência feita no Brasil:

  • Longo prazo: são cerca de 25 anos de pesquisa até chegar à fase 1 em humanos.
  • Ambiente adverso: o trabalho atravessou períodos de cortes de verbas, instabilidade institucional e fuga de cérebros.
  • Parceria público-privada: o desenvolvimento da formulação farmacêutica atual é feito em parceria com o laboratório Cristália, que patrocina os estudos clínicos.

O simples fato de um biomaterial desse nível ter sido concebido, testado e levado à avaliação da Anvisa já é, em si, um marco. Mas ele também expõe um dilema: o país consegue produzir ciência de fronteira, mas nem sempre consegue transformar essa ciência em política pública e acesso universal.

Se der certo, para quem vai dar certo?

Mesmo que, no futuro, os estudos comprovem a eficácia e a segurança da polilaminina, isso não garante automaticamente que o tratamento estará disponível para todos. Algumas questões que precisarão ser enfrentadas:

  • Custo e produção: quanto custará produzir o medicamento em escala?
  • Incorporação ao SUS: o sistema público terá condições de oferecer o tratamento, que exige cirurgia, equipe especializada e reabilitação intensiva?
  • Critérios de indicação: quem terá prioridade? Lesões agudas? Crônicas? Que níveis de lesão?
  • Desigualdade regional: hospitais de referência estarão concentrados em grandes centros, ou haverá capilaridade?

Sem esse debate, há o risco de repetir um padrão conhecido: a inovação nasce em instituições públicas, mas o acesso pleno fica restrito a quem pode pagar.

O que as pessoas com lesão medular precisam saber hoje

Para quem vive com uma lesão medular, a avalanche de notícias sobre a polilaminina pode ser ao mesmo tempo fonte de esperança e de angústia. Alguns pontos são essenciais:

  • Não existe, hoje, tratamento aprovado com polilaminina fora de pesquisa clínica.
  • A fase atual é de avaliação de segurança em um grupo muito pequeno de pacientes com lesão recente.
  • Lesões antigas ainda não fazem parte do protocolo regulatório aprovado.
  • Qualquer oferta de “tratamento com polilaminina” fora de estudo autorizado deve ser vista com extrema desconfiança.

Ao mesmo tempo, é legítimo reconhecer que há, sim, um avanço importante: pela primeira vez, um biomaterial brasileiro com potencial de regenerar a medula espinhal entra formalmente na trilha regulatória para se tornar, um dia, um medicamento.

Esperança, mas com os pés no chão

A polilaminina é um marco promissor da neurociência e da bioengenharia feitas no Brasil. Ela abre uma possibilidade concreta de, no futuro, mudar a história de pessoas com lesão medular. Mas, neste momento, ela é, antes de tudo, um experimento em fase inicial, cercado de perguntas que ainda não têm resposta.

Entre o entusiasmo e o ceticismo, há um caminho de meio: celebrar o avanço, acompanhar os dados com atenção e cobrar que a discussão sobre acesso, equidade e políticas públicas caminhe junto com a pesquisa.

Esperança, aqui, não precisa ser sinônimo de ilusão—pode ser sinônimo de compromisso com a verdade, com o tempo da ciência e com a dignidade de quem espera por respostas.

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