A máquina que nunca dorme: guerra, impunidade e o colapso moral do Ocidente

A máquina que nunca dorme: guerra, impunidade e o colapso moral do Ocidente

Oito décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial, as potências que criaram a ordem internacional continuam a violá‑la, transformando povos inteiros em território de sacrifício para petróleo, armas e poder.

O ataque recente de Estados Unidos e Israel contra o Irão — com bombardeamentos coordenados, mortes no alto escalão iraniano e vítimas civis — não é um desvio, nem um excesso, nem um erro de cálculo. É a continuidade de um padrão que se repete desde 1945: a convicção de que certas potências podem agir fora da lei, impor a força sobre a soberania alheia e reescrever fronteiras quando lhes convém.

O mundo vive há mais de oitenta anos sob uma arquitetura de poder que normalizou a guerra como método e a violação da soberania como rotina. Os EUA realizaram centenas de intervenções militares desde o pós‑guerra; Israel consolidou uma política de ação extraterritorial permanente; e o Médio Oriente tornou‑se o palco onde a legalidade internacional é suspensa sempre que interesses estratégicos o exigem.

A Europa, cúmplice silenciosa, limita‑se a comunicados vazios. A ONU, paralisada, observa. E o mundo assiste à repetição de um enredo que atravessou três gerações sem nunca ser interrompido.

O fio histórico que liga 1953 a 2026

Para compreender o presente, é preciso regressar a 1953. Mohammad Mossadegh, primeiro‑ministro iraniano eleito democraticamente, nacionalizou o petróleo. A resposta foi imediata: a CIA e o MI6 organizaram um golpe que o derrubou e reinstalaram o Xá. O Irão perdeu a sua soberania energética e política. O Ocidente aprendeu que podia derrubar governos legítimos sem consequências. E o Médio Oriente entrou num ciclo de ingerência que nunca terminou. Desde então, a lista é longa:

  • Afeganistão, onde os EUA financiaram grupos que mais tarde se tornariam inimigos globais.
  • Iraque, com duas guerras devastadoras e centenas de milhares de mortos civis.
  • Líbia, destruída pela intervenção da NATO.
  • Síria, palco de bombardeamentos e guerras por procuração.
  • Palestina, Iémen, Líbano, Somália — sempre com participação direta ou indireta.

O ataque atual ao Irão não inaugura nada. É apenas mais um capítulo de uma história escrita sempre com a mesma tinta: petróleo, armas, minerais estratégicos e poder.

A engrenagem económica que exige guerra

Por trás da retórica de “segurança global”, move‑se uma engrenagem trilionária que depende da instabilidade para sobreviver:

  • petróleo e gás, que definem alianças e derrubam governos;
  • indústria bélica, que precisa de conflitos para justificar orçamentos;
  • minerais estratégicos e terras raras, essenciais para tecnologias militares e digitais;
  • rotas marítimas e corredores energéticos, disputados como se fossem propriedade privada;
  • influência regional, tratada como moeda de troca.

A guerra não é falha do sistema. É o próprio sistema.

A Europa e o silêncio que protege contratos

A Europa, que se apresenta como guardiã dos direitos humanos, mantém contratos bilionários com a indústria bélica norte‑americana, depende energeticamente de rotas controladas pelos EUA e teme qualquer fratura na aliança atlântica. O resultado é um continente que condena violações quando lhe convém, mas silencia quando o agressor é seu aliado.

A indignação europeia tornou‑se um ritual vazio, uma liturgia sem coragem, uma moralidade seletiva que perde toda a credibilidade quando confrontada com a morte de civis fora do seu perímetro de interesse.

A política externa como espetáculo

A presença de Donald Trump na Casa Branca adiciona um elemento de imprevisibilidade perigosa. Trump governa como quem dirige um espetáculo: precisa de inimigos, de vitórias simbólicas, de crises que desviem a atenção de problemas internos. A política externa transforma‑se em palco, e o Médio Oriente volta a ser o cenário onde se exibem força, virilidade e poder.

A pergunta — quem o conterá? — permanece sem resposta. O sistema internacional não tem mecanismos eficazes para travar uma superpotência que age unilateralmente. O Conselho de Segurança está bloqueado. A Europa hesita. Os países árabes estão fragmentados. E o direito internacional, esvaziado, tornou‑se ornamento.

O custo humano que nunca entra nos discursos

As primeiras horas após os ataques já revelam mortos civis, destruição de infraestruturas e retaliações que atingem bases norte‑americanas e áreas urbanas em países vizinhos. A dimensão total ainda está a ser apurada, mas a história ensina que as estatísticas oficiais subestimam sempre o sofrimento real.

No Iraque, por exemplo, estimativas independentes apontam para centenas de milhares de mortos civis após 2003 — números muito superiores aos divulgados por Washington. A guerra destrói o que encontra: escolas, hospitais, mercados, famílias. Destrói o futuro.

A legalidade internacional como ficção conveniente

A Carta da ONU proíbe o uso da força, exceto em legítima defesa imediata ou com autorização do Conselho de Segurança. Nada disso ocorreu. O ataque ao Irão é, juridicamente, um ato de agressão. Moralmente, é a reafirmação de que o Ocidente aceita a barbárie quando ela serve aos seus interesses.

A normalização de assassinatos extrajudiciais — inclusive de líderes nacionais — abre um precedente que ameaça todos os povos. Hoje é o Irão. Amanhã, qualquer país que contrarie interesses estratégicos pode ser o próximo.

O século XXI ainda não começou

O ataque ao Irão não é apenas mais um capítulo de violência. É a prova de que o sistema internacional falhou. É a confirmação de que a ordem pós‑Segunda Guerra, construída para impedir novas catástrofes, foi capturada por quem deveria ser contido por ela.

Enquanto a comunidade internacional aceitar que algumas potências podem bombardear, matar e derrubar governos sem consequências, a guerra continuará a ser a língua franca do poder. E o mundo continuará a arder.

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