Por Salvador – Especial para o Palavra Livre, com base em reportagem do jornal Público
O catarinense Rodrigo Karvat, natural de Canoinhas, encontrou em Portugal um palco improvável para unir duas paixões que, à primeira vista, parecem distantes: a barbearia e o humor. Há 19 anos vivendo no país europeu, ele construiu uma trajetória que mistura empreendedorismo, criatividade e uma boa dose de coragem — ingredientes que o transformaram em referência entre brasileiros que buscam recomeçar além-mar.
De Santa Catarina ao palco europeu
Criado no interior de Canoinhas, Rodrigo aprendeu cedo a cortar cabelo. Ainda jovem, passou por hotéis e restaurantes no litoral catarinense, até retornar à barbearia — profissão que o acompanharia na mudança para Portugal, em 2007. Depois de trabalhar em outros estabelecimentos, abriu a própria barbearia em Mem Martins, no concelho de Sintra: a Lord’s Barbershop, que hoje atende cerca de 40 clientes por dia e emprega quatro brasileiros.
Mas foi fora do expediente que ele descobriu outra vocação: transformar observações do cotidiano em risadas. O humor, que já o acompanhava desde as festas de família, ganhou forma quando passou a assistir a shows de stand‑up e percebeu que também poderia subir ao palco.
Humor como ponte cultural
Em Portugal, Rodrigo encontrou o parceiro ideal para essa jornada: o português Anselmo Oliveira, natural de Vila Nova de Gaia. Juntos, criaram o projeto Postas de Pescada — expressão que, no Brasil, remete a “falar besteira” — e, dentro dele, o espetáculo EDM Comedy Night. Em abril, a dupla estreia um novo show, agora com a participação da humorista francesa Laura.
A mistura de sotaques e vivências não é apenas um recurso cômico: é também uma resposta leve e inteligente a episódios de xenofobia que marcam o cotidiano de imigrantes na Europa. Rodrigo costuma brincar que, no palco, são “dois imigrantes”: ele por ser brasileiro, e Anselmo por ser um rapaz do Porto vivendo em Lisboa.
Da barbearia para o palco — e vice‑versa
Grande parte do repertório de Rodrigo nasce das conversas com clientes. Diferenças culturais, gastronomia, expressões populares e situações do dia a dia viram material para improvisos e piadas. A barbearia, que completa oito anos, tornou‑se não apenas um negócio bem‑sucedido, mas também um laboratório de histórias reais que alimentam sua arte. Ele cita influências que vão de Jô Soares e Chico Anysio a Fábio Porchat e Rodrigo Marques, além de Cláudio Torres Gonzaga, roteirista de clássicos do humor brasileiro.
Entre duas paixões
Rodrigo não esconde que vive dividido entre expandir a barbearia e investir cada vez mais na comédia. Para ele, provocar emoção — seja na cadeira do barbeiro ou diante de uma plateia — é o que dá sentido ao trabalho.
“Quando a gente ri das coisas, enfraquece o que o mal nos causa”, afirma o catarinense.
Subir ao palco, diz ele, é uma experiência viciante: a sensação de dizer algo e ver uma sala inteira rir é o que o faz querer voltar sempre.
Um conterrâneo que inspira
A história de Rodrigo Karvat é, também, a história de muitos catarinenses que cruzam fronteiras em busca de novas oportunidades. Mas sua trajetória se destaca pela capacidade de transformar o cotidiano em arte — e de mostrar que, mesmo longe de casa, o humor continua sendo uma das formas mais potentes de conexão humana.
Para o Palavra Livre, dar espaço a histórias como a dele é reconhecer o talento que Santa Catarina exporta e celebrar quem leva nossa identidade para o mundo. (imagem produzida por IA)






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