Uma celebração da Palavra que nos funda 🕊🌎🙌👏.
O Dia Mundial da Poesia lembra-nos que a palavra é uma casa antiga onde a humanidade aprende a existir. Celebrar este dia é reconhecer que a poesia continua a ser um gesto de resistência e de revelação, capaz de iluminar o que o tempo tenta apagar. A cada 21 de março, reafirma-se que o poema não é apenas forma: é memória, é ferida, é sopro, é futuro.
A poesia permanece porque continua a inspirar. Ecoa em vozes que atravessam séculos e geografias: Camões e Pessoa, Drummond e Cecília, Sophia e Bandeira, mas também Neruda, Whitman, Rilke, Akhmátova, Angelou, Lorca, Tagore, Hikmet. São nomes que não cessam de acender a linguagem, de mostrar que o mundo pode ser dito de outro modo, que a beleza e a inquietação ainda encontram abrigo no verso.
Neste dia, publicar um poema é participar dessa corrente infinita. É oferecer ao leitor um instante de pausa, um lugar onde a palavra se torna ponte, espelho, chama. É lembrar que, enquanto houver poesia, haverá sempre alguém a recomeçar o mundo pela linguagem.
A Primavera que me habita – Salvador Neto, Portugal
Trago comigo a primavera,
não a do calendário,
mas a que às vezes acorda em mim
quando o mundo se distrai.
Sou poeta porque falho:
falho em ser inteiro,
falho em ser simples,
falho em aceitar que a vida basta.
E é desse fracasso luminoso
que nasce a palavra.
A beleza?
É apenas o instante em que o real
se esquece de ser real
e nos permite vê-lo como poderia ter sido.
A liberdade é outra coisa:
um rumor interior,
um vento que passa por dentro
e move o que não temos coragem de tocar.
E a paz…
a paz é um intervalo,
um pequeno silêncio entre dois pensamentos,
onde por um segundo
parece que existimos sem esforço.
No fundo, escrevo para compreender
o que não tem explicação,
para ordenar o caos que me habita
com a ilusão de que o controlo.
Mas sei – como quem sabe sem saber –
que tudo isto é apenas um modo de estar vivo,
um modo de ser primavera
mesmo quando o dia é cinzento.






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