Liberdade, ética, corpo, autonomia
Alfonsina Storni – A mulherque escreveu contra o silêncio
A poesia de Alfonsina Storni (1892–1938) é uma lâmina que corta o silêncio. É uma voz que se ergueu num tempo em que mulheres eram convocadas a obedecer, calar, servir. Alfonsina recusou esse destino. Escreveu sobre desejo, autonomia, maternidade, desigualdade, violência simbólica — temas que, na Buenos Aires do início do século XX, eram considerados escandalosos quando vindos da boca de uma mulher.
Nascida na Suíça e criada na Argentina, Alfonsina trabalhou como professora, jornalista, atriz, mãe solo — e poeta. Sua vida foi marcada por precariedade, julgamentos sociais e uma coragem feroz. Em El dulce daño (1918), Irremediablemente (1919) e Languidez (1920), ela expõe a hipocrisia patriarcal que exige pureza feminina enquanto absolve a liberdade masculina. Sua poesia é íntima e política, delicada e feroz.
O poema “Tú me quieres blanca”, de onde vem o trecho abaixo, é um dos mais importantes da literatura latino-americana — um manifesto feminista antes do feminismo ter nome:
“Tú me quieres alba, me quieres de espumas, me quieres de nácar.”
Aqui, Alfonsina denuncia a moralidade seletiva que exige da mulher pureza absoluta enquanto tolera, celebra e protege os excessos masculinos. A repetição de “me quieres” expõe a violência da expectativa. A metáfora da brancura — “alba”, “espumas”, “nácar” — revela o ideal impossível imposto às mulheres.
Mas Alfonsina não se limita à denúncia. Sua poesia também é desejo, corpo, erotismo, vulnerabilidade. Em Mundo de siete pozos (1934), ela escreve com uma maturidade que já não pede permissão: a mulher que ama, que sofre, que pensa, que deseja, que se cansa, que se revolta.
A vida de Alfonsina foi marcada por batalhas íntimas e sociais. A morte, envolta em mito — o caminhar para o mar de La Perla, em Mar del Plata — tornou-se símbolo de sua entrega radical à própria sensibilidade. Mas reduzir Alfonsina ao mito é injusto: sua força está na vida, na obra, na palavra que não se curvou.
Leitura crítica do Palavra Livre: Alfonsina Storni abriu portas para gerações de mulheres que ousaram escrever o próprio corpo e a própria vida. Sua poesia é um ato de desobediência luminosa. Celebrá-la é reconhecer a mulher que enfrentou o silêncio e deixou um legado de lucidez, coragem e verdade — um legado que continua a ecoar em cada mulher que se recusa a ser reduzida ao que esperam dela.
Sophia de Mello Breyner Andresen – A ética do mar e da liberdade
A poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919–2004) é uma das mais luminosas da língua portuguesa. Sophia escreve como quem vê o mundo com uma clareza ética rara. Sua obra é atravessada pelo mar — não como paisagem, mas como princípio moral: vastidão, verdade, liberdade.
Nascida no Porto, Sophia cresceu entre jardins, livros e o Atlântico. A infância, para ela, não é nostalgia: é fundamento. É o lugar onde se aprende a ver. E ver, para Sophia, é um ato ético. Durante a ditadura salazarista, Sophia escreveu contra o medo, a injustiça, a opressão. Participou da resistência, apoiou a Revolução dos Cravos, defendeu a democracia. Sua poesia é política não porque fala de política, mas porque fala de verdade.
O poema que se segue, de Livro Sexto (1962), tornou-se um dos mais citados da literatura portuguesa:
“Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar.”
Aqui, Sophia afirma a responsabilidade do olhar. A poesia não é fuga: é presença. É testemunho. É compromisso com o real.
Em Mar Novo (1958), ela escreve sobre o mar como promessa e como exigência. Em Geografia (1967), sobre o mundo como espaço de justiça. Em Dual (1972), sobre a tensão entre luz e sombra, beleza e violência, liberdade e opressão.
Sophia escreve com uma simplicidade que não é pobreza — é precisão. Cada palavra é necessária. Cada imagem é clara. Cada verso é uma afirmação ética. Sua poesia é uma forma de educação do olhar: aprender a ver o mundo sem máscaras, sem cinismo, sem indiferença.
Leitura crítica do Palavra Livre: Sophia é uma das grandes arquitetas da liberdade portuguesa. Sua poesia é bússola ética, mar aberto, claridade que não cede. Celebrá-la é reafirmar que a palavra pode ser um ato de justiça — e que a beleza também é resistência. Em tempos de ruído, Sophia devolve-nos o silêncio que pensa, a luz que revela, a coragem que permanece.
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