Milton Santos reencontrado: o acervo que amplia o Brasil

Milton Santos reencontrado: o acervo que amplia o Brasil

Vinte e cinco anos após sua morte, Milton Santos volta a falar e, desta vez, com vozes que estavam abafadas pela história oficial. O acervo guardado no Instituto de Estudos Brasileiros da USP (IEB-USP), com cerca de 60 mil itens, está permitindo que pesquisadores revelem dimensões inéditas do pensador negro que revolucionou a geografia mundial.

O que emerge desse mergulho documental não é apenas o geógrafo da globalização ou o teórico do espaço. Surge um intelectual profundamente engajado com a questão racial, com as periferias, com a política e com a experiência africana, temas que, por décadas, foram minimizados ou ignorados.

A força das cotas e a reescrita do cânone

A implementação das cotas raciais nas universidades brasileiras abriu portas para uma nova geração de pesquisadores negros. Essa presença transformou não só o perfil das salas de aula, mas também o próprio modo de produzir conhecimento.

Como explica o pesquisador Maurício Costa (IFSP), esse movimento provocou uma pergunta incômoda e necessária: onde estão os autores negros na formação do pensamento brasileiro? A partir dela, Milton Santos passou a ser revisitado com outros olhos, olhos que reconhecem a centralidade da raça, da exclusão e da luta política em sua obra.

O Milton que escreveu sobre a África quando quase ninguém escrevia

Entre os documentos do acervo, ganham destaque textos produzidos durante as viagens de Milton Santos à África, nos anos 1950. Ali, ele observou e escreveu sobre processos sociais, raciais e territoriais que o Brasil ainda não tinha coragem de encarar.

Livros como Marianne em Preto e Branco e O Povoamento da Bahia revelam um autor atento às desigualdades raciais desde o início de sua trajetória — muito antes de o tema ganhar espaço na academia brasileira.

Além disso, Milton foi um dos primeiros intelectuais do país a ler e dialogar com Frantz Fanon, referência mundial dos movimentos negros. Esse dado, agora reforçado pelo acervo, recoloca Santos no centro do pensamento antirracista latino-americano.

O mito desmontado: Milton Santos e o Movimento Negro

Por muito tempo, repetiu-se que Milton Santos não era militante do movimento negro. As novas pesquisas mostram o contrário.

Como aponta Sérgio Henrique de Oliveira (Unila), Milton atuou politicamente a partir das ideias, uma militância intelectual, mas não menos potente. Seus estudos sobre a Bahia, sua vivência africana e sua análise da exclusão racial o colocam como um dos grandes elaboradores do pensamento sobre a condição negra no Brasil e no mundo.

O Milton da periferia: território, cidadania e sobrevivência

A ex-aluna e militante do MNU, Regina Lucia Santos, destaca como os conceitos de Milton Santos ecoam nas periferias brasileiras.

As “redes invisíveis de solidariedade”, a criatividade diante da escassez e a centralidade do território são práticas cotidianas das comunidades negras, mesmo entre aqueles que nunca ouviram falar do geógrafo. É a teoria encontrando a vida real.

Milton também influenciou profundamente movimentos sociais como MST e MTST, que utilizam sua visão de território e cidadania para pensar ocupações, assentamentos e políticas públicas.

O intelectual global que nunca deixou de ser baiano e negro

Nascido em Brotas de Macaúbas (BA), Milton Santos enfrentou o racismo estrutural dentro da academia, foi exilado pela ditadura, lecionou em universidades da Europa, África e América Latina, e se tornou um dos maiores geógrafos do século 20.

Sua obra, que articula economia, política e sociedade, hoje é referência em estudos urbanos de Gana a Paris, de Londres a São Paulo. Mas o acervo da USP mostra que ainda não conhecíamos todo o Milton. Agora, vemos:

  • o Milton negro, leitor de Fanon e analista da exclusão racial;
  • o Milton africano, atento às independências e às lutas do continente;
  • o Milton político, que interveio no debate da Constituição de 1988;
  • o Milton periférico, que enxergou a potência das margens antes de todos.

Por que isso importa agora

Num Brasil que ainda luta para reconhecer seus intelectuais negros, revisitar Milton Santos é mais do que um exercício acadêmico. É um gesto político. É devolver ao país a complexidade de um pensador que sempre esteve à frente de seu tempo, e que continua oferecendo ferramentas para entender nossas cidades, nossas desigualdades e nossas possibilidades de futuro.

O acervo da USP não apenas ilumina o passado. Ele amplia o presente e projeta um novo horizonte para o pensamento brasileiro.

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