Aos 85 anos, a norte‑americana radicada em Londres vive cercada por arte, memória e afeto — e inspira uma comunidade inteira com sua visão vibrante do mundo.
A porta da casa de Sue Kreitzman, em Mile End, abre para um universo que desafia qualquer definição tradicional de lar. Ali, cada parede, cada mesa, cada canto é tomado por cores intensas, esculturas improváveis, quadros que parecem conversar entre si e objetos que carregam histórias profundas. Aos 85 anos, a artista autodidata vive dentro daquilo que muitos chamariam de museu — mas para ela, é simplesmente o lugar onde sua criatividade encontrou liberdade total.
Kreitzman não começou na arte. Antes dos 60, foi professora, autora de livros de culinária e chef de televisão. A virada aconteceu de forma inesperada: enquanto revisava um livro de receitas, desenhou uma sereia. “A sereia tomou conta da minha vida”, recorda. A partir dali, a cozinha deixou de ser seu palco principal — e a arte tornou-se destino.
Hoje, sua casa é uma instalação viva, curada com carinho pelo amigo Jaime Freestone, que também transformou o espaço num refúgio para artistas e pessoas LGBT. Ali, ninguém precisa pedir permissão para ser quem é. “Este lugar é seguro”, diz Freestone, enquanto aponta para bustos egípcios adornados com joias, telefones transformados em objetos místicos e colares que parecem ter saído de um ritual ancestral.

Entre as criações mais marcantes de Sue estão os chamados “santuários de pescoço” — esculturas robustas feitas com objetos carregados de significado: dentes, olhos falsos, miçangas, lembranças de amigos, fragmentos de histórias. “Tudo tem alma”, afirma, enquanto segura uma peça que parece pulsar com energia própria. Para ela, cada objeto é uma extensão da vida, uma forma de preservar memórias e transformar dor em beleza.

A artista francesa Anne‑Sophie Cochevelou, conhecida por suas criações exuberantes, visita Sue sempre que precisa de inspiração. “Quando me sinto sem ideias, venho aqui. Saio renovada”, confessa. Elizabeth Joseph, crocheteira e amiga próxima, diz que a casa é “um abraço colorido”, onde a criatividade se espalha como luz.
Sue, com seu humor afiado, resume a própria trajetória com simplicidade desarmante: “Sempre disseram que eu não podia ser artista. Bem… tenho 85 anos e ainda não cresci.” E talvez seja justamente essa recusa em “crescer” — no sentido de se conformar — que faz de sua obra um manifesto. Em tempos de cinza, ela escolhe o vermelho, o azul, o dourado, o neon. Escolhe a vida.
Mile End, bairro multicultural do East London, tornou‑se parte inseparável dessa história. A casa de Sue é mais que residência: é ponto de encontro, laboratório criativo, santuário emocional. Um lembrete poderoso de que a arte pode começar tarde, pode nascer do acaso, pode transformar o cotidiano — e pode, sobretudo, iluminar o mundo ao redor.
Créditos: Reportagem baseada em BBC News, adaptada e ampliada para Palavra Livre por Salvador Neto.






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