- Por Salvador Neto — para o Palavra Livre | Fonte: Reportagem de Enas Abu Ghayad, Al Jazeera
Entre tendas improvisadas, explosões incessantes e a poeira dos escombros, crianças autistas de Gaza enfrentam uma guerra que lhes rouba não apenas casas, escolas e rotinas — mas também a possibilidade de existir em segurança. A destruição sistemática do ambiente que lhes garante estabilidade transforma cada dia num campo minado sensorial, emocional e físico.
A reportagem da jornalista Enas Abu Ghayad, publicada pela Al Jazeera, revela histórias que não podem ser ignoradas. Histórias que exigem denúncia, porque expõem uma crueldade que ultrapassa números, estatísticas e discursos diplomáticos.
🌑 Rotinas destruídas, regressões profundas
Ahmed, 16 anos, antes da guerra frequentava a escola, treinava futebol, memorizava o Alcorão e destacava-se em inglês. Hoje, vive entre ruínas. O som das explosões desencadeia ataques de pânico tão intensos que ele cobre os ouvidos, balança o corpo e, em momentos extremos, recorre à automutilação. A guerra não lhe tirou apenas a casa — tirou-lhe o chão neurológico que sustenta o seu bem-estar.
O especialista Diaa Abu Aoun explica que crianças autistas dependem de rotina e calma para se sentirem seguras. Quando vivem num ambiente de bombardeamentos contínuos, o cérebro entra em choque sensorial permanente. O resultado: insónia total, crises de pânico, convulsões, perda de linguagem, fuga das tendas e comportamentos autolesivos.
🌑 Fome, doença e ausência de cuidados
A fome extrema e a falta de proteínas levaram à ruptura do apêndice de Ahmed. A escassez de medicamentos obrigou médicos a improvisar cirurgias e a reduzir tratamentos essenciais.
A Organização Mundial da Saúde confirma que nenhum equipamento de reabilitação entrou em Gaza entre maio de 2024 e abril de 2026. Centros especializados foram destruídos. Profissionais foram mortos. Pais tornaram-se terapeutas improvisados, lutando contra o impossível.
🌑 “Estou sem abrigo e sem pátria”
Muneer, 19 anos, antes desenhava, comunicava e seguia um plano de reabilitação promissor. Hoje, com a falta de medicação e o terror dos ataques aéreos, vive crises de gritos, convulsões e regressões severas.
O pai tenta acalmá-lo dizendo “Deus vai proteger-nos”, mas Muneer compreende a realidade. E verbaliza o que milhões sentem: “Estou sem abrigo e sem pátria.”
🌑 A destruição de um futuro possível
Especialistas alertam: o que está a acontecer em Gaza é a aniquilação completa das bases comportamentais construídas ao longo de anos. Crianças autistas precisam de previsibilidade — e Gaza oferece o oposto: deslocação súbita, medo constante, ausência de tratamento, fome, ruído, caos.
Não se trata apenas de sobrevivência. Trata-se de vidas que, mesmo quando sobrevivem, são empurradas para um sofrimento que o mundo insiste em não ver.
🌑 Denunciar é um dever
A guerra não é apenas contada pelos mortos — mas pelos vivos que carregam feridas invisíveis. As crianças autistas de Gaza são vítimas de uma violência que ultrapassa o corpo: atinge o sistema nervoso, a identidade, a capacidade de comunicar, de confiar, de existir. Denunciar esta realidade é obrigação de qualquer sociedade que se pretende humana.






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