Jornalismo independente

Apoie o jornalismo que te respeita.
Assine. Participe. Fortaleça.

Quando o silêncio vira jogo: as mulheres cegas que estão a mudar o futebol no México

Quando o silêncio vira jogo: as mulheres cegas que estão a mudar o futebol no México

Sem campo próprio, sem financiamento e enfrentando barreiras sociais profundas, o Chilangas FC transforma o futebol cego num espaço de autonomia, coragem e futuro para mulheres que aprenderam a ver com o corpo inteiro.

O futebol que nasce da escuridão e acende horizontes

Na Cidade do México, antes de cada treino, Paulina “Pau” Hernández guarda a bengala branca na mochila e veste uma máscara preta que apaga qualquer resquício de luz. Ao seu redor, as companheiras do Chilangas FC fazem o mesmo ritual. Algumas têm visão parcial, outras perderam-na por completo. Mas ali, no campo improvisado, todas jogam em igualdade: ninguém vê, todas escutam.

O som metálico da bola com chocalhos guia os passos. As vozes das colegas desenham o campo invisível. O apito da treinadora Wendy del Rio abre mais uma sessão de treino decisiva: em setembro, o México enviará pela primeira vez uma equipa feminina de futebol cego para uma competição internacional. O Chilangas FC representará o país na Copa América, no Brasil, um marco histórico para um desporto que ainda luta por reconhecimento.

Um país apaixonado por futebol, mas cego para as mulheres cegas

O México respira futebol. Pesquisas recentes mostram que seis em cada dez mexicanos se declaram fãs, e 81% dos que acompanham desporto preferem o futebol acima de tudo. Mesmo assim, durante anos, Wendy del Rio ouviu a mesma pergunta de mulheres com deficiência visual: “Onde podemos jogar?” Não havia resposta.

O futebol cego existe há cerca de um século, mas o desenvolvimento feminino é lento. A modalidade masculina está nos Jogos Paralímpicos desde 2004; a feminina, ainda não. Sem visibilidade, não há financiamento. Sem financiamento, não há estrutura. E sem estrutura, o talento feminino permanece invisível.

Foi por isso que, em 2020, Wendy decidiu criar o Chilangas FC — um dos primeiros clubes femininos de futebol cego do país. Sem campo próprio, sem apoio institucional, sem equipa remunerada. Apenas vontade, coragem e a certeza de que aquelas mulheres mereciam um lugar seguro para jogar, conviver e existir.

Pau Hernández: a atleta que aprendeu a ver com o corpo

Diagnosticada na infância com retinite pigmentosa, Pau perdeu a visão gradualmente até ficar totalmente cega há quatro anos. Amante de desporto, jogava goalball, mas faltava-lhe o futebol da infância, aquele que, mesmo com visão limitada, a fazia correr atrás de uma bola que desaparecia no ar.

Foi Efraín Mora García, presidente da Federação Mexicana de Desportos para Cegos, quem a incentivou a tentar o futebol cego. Pau não hesitou. Hoje, aos 31 anos, mãe de Noel, de seis anos, ela diz que o desporto lhe devolveu algo essencial: autonomia, maturidade, alegria.

“Quando estou no campo, é como se eu pudesse ver”, diz. “Eu sei onde estão as minhas colegas, sei onde está a bola. Não tenho medo.”

As barreiras que não estão nas ruas, mas nas ideias

A vida de Pau, como a de tantas mulheres cegas, é atravessada por obstáculos que não vêm da deficiência, mas das expectativas sociais. No México, mulheres dedicam em média quase 40 horas semanais a tarefas domésticas, mais do dobro dos homens. Muitas famílias desencorajam filhas cegas a praticar desportos de contacto. O medo, disfarçado de proteção, limita.

Além disso, a cidade não foi construída para quem não vê: passeios quebrados, autocarros lotados, pessoas que a agarram sem pedir permissão. Mas Pau insiste: o maior desafio é provar que mulheres cegas podem — e fazem — muito mais do que imaginam. “Eu cozinho, trabalho, cuido da minha família. E jogo futebol”, afirma.

Alexandra Ramirez: a juventude que encontra futuro no campo

Aos 20 anos, Alexandra Ramirez é uma das mais jovens do Chilangas FC. Estudante, vive num internato para pessoas com deficiência visual e viaja para casa quando pode. Nunca imaginou que o futebol cego pudesse ser um caminho, mas hoje fala do desporto como quem fala de um sonho.

“Estar aqui é como ter uma família”, diz. “É uma responsabilidade bonita. Quero crescer, quero jogar, quero continuar.”

O sonho que atravessa fronteiras

Em setembro, Pau, Alexandra e as colegas representarão o México na Copa América. Para Pau, o momento mais esperado não é o golo, nem o troféu: é o abraço do filho. “Quero que o Noel me veja jogar. Quero sair do campo e ouvir: ‘Parabéns, mãe.’”

Ao fim do treino, já ao anoitecer, Pau volta a abrir a bengala branca e segue com o filho pelas ruas da cidade. Amanhã, enfrentará novamente autocarros cheios, passeios irregulares, olhares desconfiados. Mas dentro de alguns dias, regressará ao campo, o único lugar onde, finalmente, ela vê.

Comments

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.