Palavra Livre

Apoie o jornalismo que te respeita.
Assine. Participe. Fortaleça.

Muito para além da história: Uma tarde com Laurentino Gomes

Muito para além da história: Uma tarde com Laurentino Gomes

Uma verdadeira aula de História, humanidade e partilha na Biblioteca Municipal José Soares em Nazaré

Há dias que cumprem o programa previsto. E há dias que nos oferecem muito mais do que aquilo que imaginávamos. A passagem de Laurentino Gomes pela Biblioteca Municipal José Soares no dia 24 de outubro passado foi um desses momentos raros. Daqueles que nos recordam porque continuam a valer a pena os livros, as bibliotecas e as conversas presenciais.

O dia começou antes do público ocupar os seus lugares. Tive o privilégio de almoçar com Laurentino Gomes e com a sua esposa, Carmen. Confesso que, apesar de conhecer a dimensão da sua obra, foi a dimensão humana que mais me impressionou. Entre histórias de vida, reflexões sobre a atualidade, literatura, cidadania e diferentes formas de olhar o mundo, a conversa fluiu com uma naturalidade desarmante.

Falámos de temas sérios e de temas leves, de países, de pessoas e de ideias. Houve espaço para a curiosidade, para a escuta e para a troca de perspetivas. Foi também nesse contexto que surgiu uma referência muito generosa ao artigo que escrevi para o Palavra Livre sobre o Bolsa Família, uma apreciação que recebi com particular satisfação, vinda de alguém cuja capacidade de análise e reflexão tanto admiro.

Houve ainda um detalhe que tornou o encontro particularmente significativo para mim. Tanto Laurentino como eu partilhamos os ofícios do jornalismo e da escrita. Mas enquanto ele ocupa o lugar que apenas os grandes autores alcançam, tornando-se uma referência incontornável para leitores de diferentes gerações, eu sigo o percurso de quem continua a aprender todos os dias.

Se Laurentino é uma estrela maior da literatura histórica lusófona, eu assumo-me, sem constrangimentos, como um aprendiz. E talvez seja precisamente por isso que a conversa tenha sido tão inspiradora. A simplicidade, a disponibilidade e a generosidade com que partilhou ideias e experiências ao longo daquele dia revelaram um homem tão admirável quanto o autor que milhões de leitores conhecem através dos seus livros.

Poucas horas depois, encontrávamo-nos no ambiente sublime da Biblioteca.

Como mediador do conversatório, senti aquele misto de responsabilidade e privilégio que acompanha os momentos especiais. Não é todos os dias que temos a oportunidade de conduzir uma conversa pública com um dos mais reconhecidos autores da atualidade lusófona. Mas, desde os primeiros minutos, ficou claro que a tarde iria ultrapassar todas as expetativas.

Laurentino Gomes ofereceu ao público algo muito mais valioso do que uma apresentação de livros. Ofereceu uma verdadeira aula de História. Daquelas que nos prendem sem esforço, que nos fazem viajar por séculos de acontecimentos e que, ao mesmo tempo, nos ajudam a compreender melhor o presente.

Com a serenidade de quem conhece profundamente os temas que aborda e a simplicidade de quem nunca precisa de exibir esse conhecimento, falou de poder, de liberdade, de escravidão, de identidade, de cidadania e das escolhas que moldam o destino dos povos. E fê-lo de forma clara, acessível e profundamente humana.

Ao longo da conversa, percorremos alguns dos temas que marcam obras essenciais como 1808, 1822, 1889, a trilogia Escravidão e Cobiça, Esplendor e Miséria. No entanto, a sensação era a de que estávamos a falar não apenas de acontecimentos históricos, mas também de nós próprios. Das nossas fragilidades, das nossas ambições e das lições que a sociedade continua a aprender, e por vezes a esquecer.

Um dos momentos mais gratificantes da tarde foi a participação do público. A sala respondeu com enorme interesse, acompanhando a conversa com atenção e colocando questões pertinentes que enriqueceram ainda mais o encontro. Foi um verdadeiro diálogo entre autor e leitores, exatamente como deve acontecer numa biblioteca.

Enquanto mediador, foi particularmente gratificante assistir a essa dinâmica. Sentir a atenção da plateia, perceber o interesse genuíno pelas ideias em discussão e ajudar a criar pontes entre o autor e o público tornou esta experiência ainda mais especial.

No final, entre livros adquiridos, dedicatórias, fotografias e breves conversas, ficou uma certeza muito simples.

A grandeza intelectual não precisa de vir acompanhada de distância ou de formalismo. Laurentino Gomes impressiona pela dimensão da obra que construiu, mas conquista sobretudo pela forma como se relaciona com as pessoas. Pela disponibilidade, pela simplicidade e pela capacidade de transformar conhecimento em conversa.

Guardarei esta tarde com particular carinho. Pela honra de ter moderado o conversatório. Pela excelente participação do público. Pela oportunidade de partilhar ideias à mesa e no palco. E, acima de tudo, pela confirmação de que alguns dos maiores autores são também aqueles que melhor sabem ouvir.

Há encontros que nos informam. Outros que nos inspiram. Este conseguiu fazer as duas coisas.

  • Fotos por Madalena Amorim, Coordenadora da Biblioteca

Comments

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.