Dizem que entre um homem e uma mulher nunca existe apenas amizade. Eu, que já vi muita coisa e já me enganei noutras tantas, não ouso afirmar nada com tanta certeza. Mas se há dois seres que desafiam essa máxima com uma elegância quase irritante, são Helena e Augusto. Acompanhei-os de perto — não por intromissão, mas porque certas histórias simplesmente nos puxam pela manga e pedem que fiquemos.
Helena tinha uma presença que não precisava anunciar-se. Os cabelos castanhos, longos, viviam presos num coque desalinhado, como se ela estivesse sempre a meio de um pensamento mais urgente do que a própria aparência. Os olhos verdes, de um brilho irónico, pareciam antecipar o mundo antes que ele acontecesse. Caminhava com uma leveza que enganava: havia nela uma força silenciosa, uma firmeza que só se revelava quando abria a boca e desmontava certezas alheias com a precisão de quem não tem tempo para rodeios.
Augusto era o contraponto perfeito. Alto, de ombros tranquilos, tinha cabelos pretos ondulados que insistiam em cair-lhe sobre a testa, obrigando-o a afastá-los num gesto que se tornara parte da sua identidade. Os olhos castanhos escuros observavam tudo com uma paciência antiga, como se ele estivesse sempre a reler o mundo, página por página. O sorriso era raro, mas quando surgia iluminava-lhe o rosto inteiro, como se dissesse, sem dizer: “Agora sim, valeu a pena.”
A amizade deles — se é que podemos chamá-la assim — sobrevivia a tudo: às diferenças políticas, às opiniões culinárias incompatíveis, às discussões sobre trivialidades que, entre eles, ganhavam ares de filosofia doméstica. E sobrevivia, sobretudo, aos pequenos romances que cada um colecionava como quem guarda bilhetes de viagens que não deram em nada. Eu assistia a esses episódios com a curiosidade de quem observa um teatro íntimo, sabendo que, no fundo, os dois eram sempre o destino final um do outro.
Helena atraía homens como quem atrai histórias. O poeta existencialista, que escrevia sobre a morte mas desmaiava ao ver sangue. O nutricionista vegano, que tentou convencê-la a trocar café por chá de raiz — tentativa que terminou com Helena a declarar que preferia morrer cedo, mas feliz. O advogado charmoso, que falava tão bem que ela já não sabia se estava a ser elogiada, processada ou seduzida. Augusto, ao meu lado, comentava: “Ela tem um íman para homens complicados.” E eu, que não devia, ria. Helena respondia: “E tu tens um íman para comentários inúteis.” E assim equilibravam o mundo.
Ele também tinha os seus “casinhos”, embora a vida amorosa de Augusto lembrasse um romance que alguém começou a escrever e abandonou no capítulo três. A bailarina que terminava discussões em plié. A engenheira que tentou organizar-lhe a vida com gráficos e um cronograma afetivo que previa beijos às terças. A jornalista que transformava cada encontro num interrogatório. “O que sentes exatamente?”, perguntou ela. “Fome”, respondeu ele. E o namoro acabou ali mesmo. Helena achava graça. Eu também, confesso. “Tu és um caso perdido”, dizia ela. “E tu és o meu caso achado”, respondia ele, sem perceber que a frase tinha mais verdade do que humor.
Entre um tropeço amoroso e outro, voltavam sempre um ao outro — ela ajeitando o coque, ele afastando o cabelo da testa — como quem regressa ao único lugar onde o mundo faz sentido. Eu via aquilo e pensava que certas relações são como livros sem título: não precisam de nome para serem compreendidas.
O episódio mais revelador — e mais ridículo — aconteceu numa noite em que Augusto, cansado das próprias hesitações, decidiu confessar algo. Eu estava lá, sentado num canto, fingindo ler um jornal que já tinha lido de manhã. “Helena, acho que estou…” Ela interrompeu-o com a serenidade de quem já sabe o final do capítulo: “Se for amor, avisa antes. Preciso pôr rímel à prova de emoções fortes.” Ele riu. Ela riu. E eu, que não devia interferir, virei a página do jornal como quem tenta disfarçar o rubor de ter testemunhado algo íntimo demais.
Machado de Assis, se pudesse narrar esta história, talvez escrevesse: “Há amores que não se declaram porque temem perder o conforto da amizade; e há amizades que não se desfazem porque sabem que, se virarem amor, podem estragar o enredo.” E teria razão.
O leitor, que já percebeu tudo desde o início, talvez espere um beijo, uma epifania, um final arrebatador. Mas não haverá. Porque algumas histórias não terminam — apenas continuam, como conversas que se prolongam noite adentro, entre um sorriso, um silêncio e a certeza de que, se não é amor, é algo perigosamente parecido. Eu, que vi tudo de perto, posso garantir: certas verdades preferem viver assim, à meia-luz.






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