No último dia 5 de maio fez 15 anos da morte do grande poeta brasileiro Mario Quintana. Segue abaixo uma das suas poesias curtas e diretas, onde transborda a sabedoria que vem de cada minuto de vida. Logo após, uma pequena biografia dele por ele mesmo publicada na Revista Isto É em 1984. Com vocês, Mario Quintana: 

Da observação

“Não te irrites, por mais que te fizerem…
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio…”

Mário Quintana nasceu em Alegrete (RS) em 30 de julho de 1906. Morreu em Porto Alegre (RS) em 05 de maio de 1994. Trabalhou em jornais de Porto Alegre e na Livraria do Globo (atual Editora Globo). Traduziu Prost, Conrad, Voltaire, Virgínia Woolf, Maupassant, Graham Greene, Balzac, além de outros autores importantes. Publicou inúmeros livros.

Mário Quintana por ele mesmo: Revista Isto é (14/11/84) 


“Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem que fale sobre mim mesmo. Bem! eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas… Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a eternidade. Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro – o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton!

        Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! sou é caladão, introspectivo. Não sei por que sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros? Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da forma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado, o fato de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Érico Veríssimo – que bem sabem (ou souberam) o que é a luta amorosa com as palavras.”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Autor

salvadornetooficial@gmail.com

Jornalista e escritor. Criador e Editor do Palavra Livre, cofundador da Associação das Letras com sede no Brasil (SC). Foi criador e apresentador de programas de TV e Rádio como Xeque Mate, Hora do Trabalhador entre outros trabalhos na área. Tem mais de 35 anos de experiência nas áreas de jornalismo, comunicação, assessoria de imprensa, marketing e planejamento. É autor dos livros Na Teia da Mídia (2011), Gente Nossa (2014) e Tinha um AVC no Meio do Caminho (2024). Tem vários textos publicados em antologias da Associação Confraria das Letras, onde foi diretor de comunicação.

Posts relacionados

Fusão Paramount–Warner: o terremoto que ameaça reescrever Hollywood

A união de dois gigantes promete remodelar a indústria cinematográfica — mas artistas, sindicatos e cinéfilos alertam para um futuro mais pobre,...

Leia tudo

Entrelaçamentos: quando a vida insiste em unir histórias

Há amizades que nascem de encontros. E há amizades que nascem de destinos — desses que vão alinhando vidas muito antes de...

Leia tudo

Gaudí, 100 anos depois: o arquiteto que reinventou a ideia de cidade e transformou Barcelona num organismo vivo

Um século após sua morte, Barcelona revisita Gaudí não como mito turístico, mas como força intelectual, espiritual e urbana que moldou a...

Leia tudo

O dia em que os livros nos escolhem: por que a leitura ainda salva o mundo

No Dia Mundial do Livro, um mergulho na história, no afeto e na urgência de preservar o hábito que moldou a humanidade....

Leia tudo

A Biblioteca Invisível do Futebol

A epopeia dos craques — homens e mulheres — que fizeram da leitura um ato de coragem, resistência e humanidade Por Palavra...

Leia tudo

Ano Cultural China‑Brasil começa com concerto histórico em Brasília e inaugura nova fase da diplomacia cultural entre os países

Brasília (DF) — Uma noite de música, simbolismo e diplomacia cultural marcou oficialmente o início do Ano Cultural China‑Brasil 2026, celebrado com...

Leia tudo