- Do Editor
I. Atravessar 2025: o ano que não permitiu distrações, o ano que arrancou as máscaras do mundo
2025 não foi um ano que se deixou atravessar com leveza. Foi um ano que exigiu atenção, que recusou distrações, que expôs as fissuras de um planeta que tenta manter a compostura enquanto tudo ao redor — e dentro — se desloca. Foi um ano em que a economia global perdeu fôlego sob o peso de tarifas, incertezas geopolíticas e custos crescentes, como registrou a S&P Global ao mostrar a queda do índice de atividade dos EUA para 53,0 em dezembro, o menor nível em seis meses. Foi um ano em que o Banco Mundial alertou que o crescimento global de 2025 seria o mais lento desde 2008, fora períodos de recessão, com projeção de apenas 2,3%World Bank Group. Foi um ano em que o clima deixou de ser metáfora para se tornar matéria bruta de destruição: o furacão Melissa devastou a Jamaica, matou mais de 80 pessoas e causou prejuízos de 8,8 bilhões de dólares, intensificado em 16% pela crise climática. Foi um ano em que a violência contra a mulher no Brasil atingiu níveis epidêmicos, com 5.582 feminicídios consumados ou tentados e uma taxa média de 5,12 vítimas por 100 mil mulheresCorreio Braziliense. Foi um ano em que a cultura, apesar de tudo, insistiu em existir, em criar, em respirar — e em reivindicar acessibilidade, inclusão e justiça, como mostram os Prémios Acesso Cultura 2025, que distinguiram projetos de Portugal e do Brasil por práticas exemplares de democratização cultural.
2025 foi, portanto, um ano que nos obrigou a olhar o mundo sem filtros. Um ano que nos confrontou com a verdade incômoda de que as estruturas que sustentam a vida contemporânea — políticas, econômicas, ambientais, tecnológicas — estão em tensão permanente. Mas também foi um ano em que a resistência se tornou verbo cotidiano, em que comunidades, instituições e indivíduos se recusaram a aceitar a barbárie como destino.
Este editorial‑manifesto é um gesto de memória e responsabilidade. É um esforço para compreender o que 2025 nos ensinou — e o que 2026 exigirá de nós.
II. O tabuleiro global em convulsão: quando a política deixa de ser disputa e se torna terremoto
1. O retorno de Trump e a reconfiguração do poder mundial
A volta de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos não foi apenas um evento político: foi um abalo sísmico. Sua agenda protecionista reacendeu tensões comerciais que desaceleraram a economia global, afetando diretamente a indústria, os serviços e o mercado de trabalho. O índice de custos de insumos nos EUA subiu no ritmo mais acelerado desde 2022, pressionando preços e dificultando o controle da inflação. A taxa de desemprego subiu para 4,6%, o maior nível em quatro anosVEJA. A política tarifária agressiva, que inicialmente atingiu a indústria, espalhou-se para o setor de serviços, criando um efeito dominó que atravessou fronteiras.
A América Latina sentiu o impacto imediato. Tensões com a Venezuela reacenderam temores de intervenção, enquanto o Caribe enfrentou instabilidade política e militar. O mundo voltou a operar sob o signo da imprevisibilidade.
2. O Vaticano e o fim de um ciclo histórico
A morte do Papa Francisco encerrou um dos pontificados mais transformadores da história recente. Sua defesa dos pobres, dos migrantes e da ecologia integral deixou marcas profundas. A eleição de Leão XIV, o primeiro papa norte‑americano, simbolizou uma mudança de eixo dentro da Igreja — e abriu um ciclo de incertezas sobre o futuro da instituição num mundo cada vez mais secularizado.
3. Gaza, Líbano, Irã: a trégua que não pacifica
O cessar‑fogo entre Israel e Hamas trouxe um breve respiro, mas não uma solução. A região permanece suspensa entre a esperança e o medo. Ataques no Líbano e tensões com o Irã mantiveram o Oriente Médio em estado de alerta permanente. A crise humanitária em Gaza continua a desafiar a consciência internacional.
III. O clima como protagonista trágico: o planeta que arde, inunda, racha e insiste em avisar
2025 confirmou-se como o segundo ano mais quente da história, com eventos extremos devastadores que expuseram a fragilidade das cidades, das infraestruturas e das políticas públicas. O furacão Melissa, o mais forte a atingir a Jamaica, matou mais de 80 pessoas e causou prejuízos de 8,8 bilhões de dólares. Inundações no Sudeste Asiático deixaram mais de 1.600 mortosTempo.pt | Meteored. A extensão do gelo marinho no Ártico atingiu o nível mais baixo de sempre para a época do ano.
Mas houve também avanços. O Tribunal Internacional de Justiça reconheceu, pela primeira vez, que um ambiente limpo e sustentável é um direito humano. A produção global de energia solar e eólica superou a demanda de eletricidade pela primeira vez na história, e as renováveis ultrapassaram o carvão como principal fonte de energia elétricaEuronews.
A COP30 na Amazônia, apesar das pressões de petroestados, consolidou a percepção de que o planeta já ultrapassou limites críticos — e que a transição energética não é mais uma escolha, mas uma urgência.
IV. Tecnologia, ciência e seus paradoxos: entre a esperança e o risco
2025 testemunhou avanços extraordinários: vacinas experimentais contra o câncer, a primeira vacina eficaz contra o HIV, e a consolidação de modelos de inteligência artificial como DeepSeek, que redefiniram setores inteiros. Mas também surgiram casos de danos causados por orientações erradas de IA, reacendendo debates éticos urgentes.
A economia global, como observou o FMI, tornou-se dependente da energia computacional, com a demanda de IA pressionando sistemas elétricos e ampliando desigualdades entre países ricos e pobres.
A tecnologia mostrou seu poder — e sua sombra.
V. Brasil: entre violência, retrocessos e resistência — o país que sangra e insiste em viver
1. A epidemia de violência contra a mulher
O Brasil atravessou 2025 marcado por uma epidemia de violência de gênero. Foram 5.582 feminicídios consumados ou tentados, com uma taxa média de 5,12 vítimas por 100 mil mulheres. Entre janeiro e junho, 718 feminicídios foram registrados — quatro por diaCorreio Braziliense. A cidade de São Paulo atingiu o maior número de feminicídios desde o início da série histórica, com 53 casos até outubro.
Casos brutais chocaram o país: mulheres queimadas, degoladas, arrastadas por quilômetros. A misoginia, como alertam especialistas, tornou-se um fenômeno estrutural, alimentado por discursos de ódio e pela “machosfera” digital que normaliza a violência.
2. Adultização digital e legislação emergente
O caso Felca reacendeu debates sobre proteção de crianças e adolescentes nas redes. O Congresso discutiu a tipificação da misoginia como crime, com pena de dois a cinco anos.
3. Economia e tensões sociais
A crise dos Correios, o tarifaço e a pressão inflacionária marcaram o ano. O mercado de trabalho mostrou sinais de desaceleração, mas o consumo foi sustentado por transferências fiscais e crédito. O real valorizou-se em meio à onda global de investimentos em IA, mas a desigualdade permaneceu alta.
VI. Portugal e Europa: entre a instabilidade e a reinvenção — o continente que tenta respirar
Portugal foi eleito pelo The Economist como “Economia do Ano 2025”, mas especialistas alertaram que o título reflete mais uma fotografia conjuntural do que reformas estruturais. O país cresceu impulsionado pelo turismo, fundos europeus e disciplina orçamental, mas manteve salários baixos, precariedade elevada e crise habitacional profunda.
A Europa enfrentou tensões políticas, desafios migratórios e a necessidade urgente de acelerar a transição energética. A guerra na Ucrânia continuou a influenciar decisões estratégicas e orçamentárias.
VII. América Latina e África: crises, retrocessos e esperança — continentes que resistem
A América Latina viveu um ano de instabilidade: tensões EUA–Venezuela, crises humanitárias, migrações forçadas. O Chile enfrentou terremoto de magnitude 6,1. A crise Yanomami no Brasil expôs a violência do garimpo ilegal.
A África enfrentou golpes, conflitos internos e inundações devastadoras, com mais de 2.000 mortos em países como Sudão, Nigéria e Chade.
VIII. A sociedade civil como força de resistência: quando o mundo oficial falha, o mundo real se levanta
Em meio ao caos, 2025 também foi um ano de mobilizações, de movimentos sociais, de comunidades que se reorganizam após tragédias, de instituições que tentam se reinventar. A resistência tornou‑se verbo cotidiano.
IX. Balanço de 2025: um mundo em transição forçada — e sem anestesia
2025 não foi um ano de estabilidade. Foi um ano de exposição: das falhas das democracias, da fragilidade das cidades, da insuficiência das políticas climáticas, da velocidade com que a tecnologia ultrapassa a capacidade humana de regulação.
Mas também foi um ano de resistência: de comunidades que se reorganizam após tragédias, de instituições que tentam se reinventar, de avanços científicos que reacendem esperança.
X. O que esperar de 2026: o ano que começa antes de começar
1. Reconfiguração política global
Eleições, tensões regionais e disputas internas definirão o rumo de vários países. O impacto das políticas de Trump será testado.
2. Pressão climática crescente
Os eventos extremos de 2025 não foram exceção, mas prenúncio. A capacidade de adaptação será testada como nunca.
3. Regulação tecnológica
A sociedade global entrará numa corrida para estabelecer limites éticos e legais para a IA.
4. Tensões sociais e econômicas
Desigualdades, migrações, precariedade e crises institucionais continuarão a pressionar governos e sociedades.
XI. Conclusão: disputar o futuro — porque o futuro não se entrega, se conquista
2025 termina como um ano que nos obriga a olhar o mundo sem ilusões. A sensação de instabilidade não é um acidente: é o sintoma de um planeta que tenta reorganizar‑se diante de crises simultâneas. Entramos em 2026 com menos certezas, mas com a consciência de que a omissão já não é uma opção.
Se há algo que este ano ensinou, é que a história não espera — e que o futuro, para ser habitável, precisa ser disputado agora.






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