O Lucro que Alimenta Guerras

O Lucro que Alimenta Guerras

  • Palavra Livre Opinião

Vivemos em um tempo em que o medo se tornou mercadoria e a violência, rotina. Em Sydney, na Austrália, um atirador invade um espaço público e ceifa vidas inocentes. Nos Estados Unidos, estudantes são mortos dentro de universidades, lugares que deveriam ser templos de conhecimento e liberdade. Em Gaza, na Ucrânia e no Sudão, populações inteiras convivem com a guerra como se fosse rotina. E, diante desse cenário, líderes militares e políticos insistem em mais armas, mais tropas, mais belicismo. O pano de fundo é sempre o mesmo: dinheiro, lucros, poder.

Segundo o SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute), os gastos militares globais atingiram US$ 2,7 trilhões em 2024, o maior valor já registrado. Paralelamente, as 100 maiores empresas de armas do mundo faturaram cerca de US$ 679 bilhões em 2024, com os cinco maiores grupos (Lockheed Martin, Raytheon, Boeing, Northrop Grumman e General Dynamics) concentrando quase um terço desse total.

Esses números não são apenas estatísticas: eles revelam uma engrenagem que transforma vidas em cifras e guerras em negócios. Cada bomba lançada, cada tanque produzido, cada fuzil vendido representa dividendos para acionistas e contratos para governos. A guerra, que deveria ser a falência da política, converte-se em oportunidade de lucro.

1. A banalização da violência

A violência deixou de ser exceção e tornou-se parte do cotidiano global. Notícias de massacres, atentados e guerras circulam diariamente, criando uma sensação de normalidade mórbida.

A mídia, ao noticiar tiroteios e bombardeios em tempo real, transforma o horror em espetáculo. A repetição constante de imagens de corpos, prédios destruídos e multidões em fuga gera anestesia social. O público, exposto diariamente a esse fluxo, perde a capacidade de se indignar.

Essa banalização tem efeitos profundos:

  • Impacto psicológico coletivo: medo constante, ansiedade social, retraimento comunitário.
  • Erosão da empatia: quando a violência se torna rotina, a capacidade de imaginar alternativas diminui.
  • Normalização da guerra: conflitos passam a ser vistos como inevitáveis, quase naturais.

A banalização da violência é, em si, uma forma de violência simbólica: ela destrói a capacidade de imaginar alternativas.

2. Tiroteios e massacres: o cotidiano do terror

Casos recentes em Sydney e nos EUA são símbolos da fragilidade da vida pública. Universidades, escolas, igrejas e espaços culturais transformaram-se em alvos.

Nos EUA, estima-se que haja mais de 390 milhões de armas em circulação — mais armas do que habitantes. O faturamento anual da indústria de armas leves ultrapassa US$ 20 bilhões, sustentado por um lobby que investe milhões em campanhas políticas.

O resultado é devastador: mais de 600 tiroteios em massa por ano. Cada massacre inspira novos massacres, criando uma espiral de terror.

Comparações internacionais mostram que políticas de desarmamento funcionam. Após o massacre de Port Arthur em 1996, a Austrália adotou medidas rígidas de controle de armas. O número de tiroteios em massa caiu drasticamente. No Brasil, o Estatuto do Desarmamento reduziu em quase 40% os homicídios por armas de fogo na década seguinte.

3. Guerras sem fim: Gaza, Ucrânia, Sudão

  • Gaza: destruição sistemática, vidas civis esmagadas entre discursos políticos e militares. Estima-se que mais de 30 mil pessoas tenham sido mortas desde 2023.
  • Ucrânia: tornou-se o maior importador de armas do mundo entre 2020 e 2024. Só em 2023 recebeu mais de US$ 40 bilhões em ajuda militar.
  • Sudão: conflito esquecido pela mídia, mas devastador para milhões de pessoas. Mais de 7 milhões de deslocados internos vivem em condições precárias.

A invisibilidade seletiva é parte do problema: algumas guerras recebem atenção, outras são ignoradas. O critério não é humanitário, mas geopolítico e econômico.

4. O discurso belicista das potências

A OTAN e outros blocos militares reforçam a lógica da escalada armamentista.

  • Paradoxo da segurança: em nome da “segurança”, multiplicam-se armas e conflitos.
  • Medo como ferramenta política: populações amedrontadas aceitam medidas autoritárias e gastos militares exorbitantes.
  • Economia da guerra: os EUA sozinhos gastaram quase US$ 968 bilhões em 2025, mais de um terço do total mundial.

A União Europeia, por sua vez, aumentou seus gastos militares em mais de 20% entre 2022 e 2025, alcançando cerca de US$ 350 bilhões anuais.

5. O impacto coletivo do medo

O medo tornou-se forma de controle social.

  • Erosão da confiança: instituições democráticas perdem legitimidade.
  • Campo de batalha simbólico: a vida cotidiana é invadida pela lógica da guerra.
  • Fragmentação social: comunidades se retraem, indivíduos se isolam.

Exemplos históricos mostram como o medo legitima medidas autoritárias. Após os atentados de 11 de setembro, os EUA aprovaram o Patriot Act, ampliando poderes de vigilância e restringindo liberdades civis. Na Europa, a ameaça terrorista justificou políticas de vigilância digital em massa.

6. Resistência e memória

A palavra, a arte e a memória coletiva são formas de resistência.

  • Comunidades solidárias: experiências locais mostram que é possível enfrentar a violência com solidariedade.
  • Espaços culturais: bibliotecas, escolas e centros comunitários funcionam como refúgios de dignidade.
  • Memória como arma: lembrar é resistir contra a banalização da violência.

Na América Latina, movimentos de memória — como os que denunciam ditaduras militares — mostram que lembrar é um ato político. A memória impede que a violência seja apagada e legitima a resistência.

7. Alternativas para frear o armamentismo

Transparência e regulação

  • Auditoria internacional dos contratos militares.
  • Tributação pesada sobre lucros da indústria bélica.
  • Controle democrático dos orçamentos militares.

Desinvestimento e boicote

  • Campanhas globais contra bancos que financiam armas.
  • Boicote social a empresas ligadas ao complexo militar.
  • Exposição pública de vínculos entre políticos e indústrias bélicas.

Educação e cultura de paz

  • Currículos escolares voltados para resolução de conflitos.
  • Arte e literatura como denúncia da lógica da guerra.
  • Fortalecimento de espaços culturais como alternativas ao medo.

Diplomacia e cooperação internacional

  • Retomar tratados de desarmamento.
  • Investir em diplomacia preventiva.
  • Fortalecer blocos de cooperação cultural e econômica.

Economia alternativa

  • Redirecionar investimentos militares para saúde e educação.
  • Reconversão de trabalhadores da indústria bélica.
  • Tecnologia voltada para inclusão e sustentabilidade.

Exemplos concretos mostram que é possível:

  • O Tratado de Ottawa (1997) proibiu minas terrestres antipessoais.
  • O Tratado de Oslo (2008) proibiu bombas de fragmentação.
  • A Campanha Internacional para Abolir Armas Nucleares (ICAN) recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2017.

Conclusão

O mundo parece caminhar para um abismo de medo e violência. Mas cada gesto de resistência, cada palavra escrita, cada memória preservada é uma forma de dizer não à banalização da morte.

Alternativas existem: transparência, desinvestimento, educação, diplomacia, economia alternativa. O pano de fundo do armamentismo é dinheiro e lucros — US$ 2,7 trilhões em gastos militares e US$ 679 bilhões em receitas da indústria bélica em 2024 — mas o pano de fundo da resistência pode ser dignidade e memória.

O futuro depende da nossa capacidade de romper com a lógica belicista e afirmar a vida como valor supremo.

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